30 de dezembro de 2009

Brindemos a 2010



Os anos passam, sucedem-se... uns tão apaticamente iguais, outros tão dramaticamente diferentes.
Mas existem anos felizes. Ou anos com dias felizes. Ou dias com momentos de felicidade.
O que importa é que existam, que se sintam e façam sentir e não passem por nós vazios ou nós, por eles, sem sentido.
Todos os anos se festeja, de uma forma ou de outra, o segundo de transição da soma de todos os dias que se gastaram nas nossas vidas e a vinda de outros tantos.
Que se festeje pois, mas mais do que isso...
Que se festeje a chegada de mais trezentas e sessenta e cinco oportunidades de fazermos um pouco mais e melhor...
Por nós, para que brilhe mais a nossa lua, vivendo alto;
Pelos outros, para que sintam que os gestos que parecem banais, são afinal fundamentais;
Pela protecção e preservação do mundo, para que não deixe de ser o melhor lugar para viver.
Que se festeje a alegria de não ver perdida a esperança de mudar o que está ao alcance das nossas mãos, quando sabemos que não podemos mudar o mundo.
Que se brinde com lágrimas ou risos o maravilhoso privilégio que é viver . Viver a sonhar e a partilhar. Viver perdendo e ganhando. Viver a crescer e a dar. Viver a amar.
Que cada um de nós, seja a gota de água, o raio de sol, a luz maior que faz a diferença. Que ame cada dia do novo ano, espelhando um sorriso, e que nenhum segundo se desperdice.

BOM ANO !

Escrito na inspiração dos últimos dias do ano e em "Espelho de água" de Paulo Gonzo.

26 de dezembro de 2009

Às vezes...



Às vezes…
Rasga-se esta vontade inquieta, permanente e fria
De desfazer em poeira a dolência dos dias
De reduzir a noite à preposição mais clara
De sorver da alma um hálito novo

Às vezes…
Embriagam-se os passos dementes
E no fio que me escreve apreso a vontade
Esta infame e impensada agonia
De querer que o presente se transforme em saudade

Às vezes…
Tudo é menor que a lua que brilha
E nem lagos nem fontes saciam o nada
De ser e não ter a verdade incomum
De ficar adiada no tempo, perdida e achada…

Às vezes

19 de dezembro de 2009

Mensagem de Natal

Sendo a festa da vida, do amor, da família, da humildade e da dádiva ao outro, o Natal provoca sempre em nós emoções fortes e muito variadas . Não será por isso estranho, que sempre se contaram e escreveram histórias que fazem alusão ao espírito natalício. Histórias que oscilando entre a luz e a sombra, a alegria e o sofrimento, nos obrigam a reflectir no final de cada leitura, de forma a tornarmo-nos mais humanos.

Hans Christian Andersen, célebre escritor dinamarquês do século XIX, escreveu alguns desses contos que pela sua riqueza literária, desprovida de moralismos e pela linguagem simples que utilizam, são considerados ainda hoje, dos mais belos de sempre.

A menina dos fósforos é um conto triste. Nele, as luzes e as sombras do Natal marcam presença e particular significado, colocando em evidência algumas das questões existênciais do ser humano: Os limites, as exclusões e os abandonos... As esperanças, as forças e os sonhos.

Porque Natal é antes de mais e para além de tudo, um tempo de reflexão, de encontro e interiorização das nossas fraquezas e das nossas forças, num ritual de renovação, de partilha e de afectos, deixo-vos a história, para que não esqueçamos o verdadeiro sentido desta quadra..




Existe em cada um de nós uma menina dos fósforos.

Será que a conhecemos bem?


16 de dezembro de 2009

Ausências



Sinto que os passos te levam para longe
No sono absoluto dos dias
Arrancando da árvore o fruto gerado
Estarei onde me deixas
No exacto segundo onde me procuras
Além, onde saramos todas as feridas
E o amor tem formato de perdão


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11 de dezembro de 2009

Isto dá que pensar (3)


O que realmente importa, é que.....




... o melhor que pode dar a alguém, é de si que vem !



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6 de dezembro de 2009

Heranças...


No silêncio dos gestos...


Era como um ritual que finalizava a brincadeira que se havia prolongado no banho.
Eu enrolava a toalha à volta da minha irmã e esta, só com a carita de fora, aproveitava a vantagem de estar ao meu colo para se olhar ao espelho.
- Olha uma velhinha! - dizia eu, e ela ria feliz e eu ria com a felicidade dela.

Os anos passaram...

Hoje já não dou banho à minha irmã. Teresa cresceu, fez-se mulher e hoje é ela que dá banho à filha.
Há dias a Inês, minha sobrinha, veio passar uns dias comigo, e com ela voltei a repetir aquela brincadeira da toalha enrolada e da velhinha que se olha ao espelho. Inês riu , tal e qual a mãe na sua idade. Eu também.
Quando já vestida, ela se preparava para eu lhe secar o cabelo, olhou para mim e perguntou:
- Ó Tia, como é que tu sabes fazer as mesmas coisas que a minha mãe me faz?

...corre a seiva dos afectos !

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3 de dezembro de 2009

A minha Árvore de Natal


Penduro no abeto uma estrela que Te guie
Aqui, porque Te espero
Nos lugares onde só resta o infinito
O olhar já não se cobre em manto de ouro
E nada mais corre na fonte
Só um grito.
Cubro os ramos verdes de finos brilhos
Para que ilumines brumas e sombras
Nos rostos tristes de apatia
Onde a sede de ser já se perdeu
E a mesa está faminta ao abandono.
Minha árvore verde esperança, já renasce
De Dezembros solidários, enfeitada
Eis que chegas, meu Menino
Semeando em cada madrugada
Um coração imaculado igual ao Teu
No peito de quem às vezes, não sente nada.


1 de dezembro de 2009

Ser família...


Às vezes passávamos as férias na aldeia onde o meu pai nasceu e, eu gostava de ver as galinhas com os pintos às costas. Pois às costas!
Os pintos saltam para cima das "costas" das galinhas mães e chak, chak, chak aí vão eles a passear.
Nunca vi os galos, que são os maridos das galinhas e pais dos pintainhos, deixarem os filhos viajar nas suas costas! Coitadas, só as galinhas é que têm de dar toda a atenção aos bébés! São bem atrasados, os galos! Eu lembro-me de o meu pai vir buscar-me cá abaixo ao chão, agarrar-me os punhos e ... chak! sentar-me nos seus ombros! Mas, o que eu estava a criticar era o feitio conservador dos galos. E não mudam... O meu pai mudou... Era quase igual à minha mãe, só que foram sempre diferentes. Ela era a minha mãe e ele era o meu pai. Trataram de mim os dois e eu gostei.




Margarida Carpinteiro in " Um animal desconhecido" 1993 com ilustração de Juan Soutullo.


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27 de novembro de 2009

Desafios (1)

Antonio Gallobar lançou-me um desafio, que não sendo o primeiro que aceito, será o primeiro ao qual responderei.
Um pouco de mim em cinco revelações, é o que me pede.
A tarefa não é díficil, uma vez que falar de mim é quase como jogar em casa. Contudo, escolher apenas uma, das várias respostas possíveis, já exigiu alguma ponderação suplementar.
São cinco então, as frases que vos deixo. Elas apenas revelam pequenos fragmentos da minha forma de estar, pensar e sentir .

Eu já tive…. mais confiança na justiça. Agora, sinto que alguma coisa terá de mudar, antes que o descrédito seja total e a anarquia se instale.

Eu nunca… serei capaz de recusar ajuda a alguém que realmente precise dela.

Eu sei …. que sou boa pessoa, mas todos os dias luto contra as minhas imperfeições. Procurar sempre melhorar o que sou, é para mim um desafio e um dever , enquanto ser humano.

Eu quero … um dia fazer parte das missões humanitárias que levam àqueles que sofrem, o pouco que faz a diferença.

Eu sonho…. com o desenvolvimento de um neurónio específico, no cérebro humano, que torne impossível qualquer acto de abuso, negligência ou maltrato a uma criança.
**


Como não consigo escolher ninguém em particular para continuar o desafio, deixo-o assim, como que pendurado na maçaneta desta minha porta, a quem o quiser levar.
Será que alguém o pega?

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24 de novembro de 2009

Inquietação de inverno




Oiço o inverno a chegar, quando à noite vencem os cansaços
O meu corpo abraçado nos meus braços
E o vento em desalinho, a sussurrar

Penso na chuva a cair, que se oferece à natureza
Mas penso também na pobreza
De quem não tem onde dormir

Ao som do mar revolto eu adormeço, acreditando a sonhar
Que esta tristeza que não esqueço
Seja a minha alma a rezar

A rezar por alguém igual a mim, que eu não conheço
Que fugindo ao frio, não tem onde se abrigar



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17 de novembro de 2009

Hoje canta o poeta...



JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS






CAVALO À SOLTA





Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve
breve instante da loucura

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Minha laranja amarga e doce
Minha espada
Poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego
Por ti aceito
Este corcel que não sossego
À desfilada no meu peito

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura


... na voz de Fernando Tordo e ...na voz de Viviane


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13 de novembro de 2009

Identidade


Sou assim…
Sou casa em ruínas, abrigo de estrelas
Paisagem deserta, nascente de rio
Sou capa, sou xaile tremendo de frio
Sou espelho e vidraça das tuas janelas
Sim, eu sou assim…
Um Ser de silêncio, fiel companheiro
Que acalma e que beija a alma que dói
E em mudas palavras, se dá por inteiro
Semeando gritos que o vento destrói
Sou...
Sou amarra, sou asa
Sou contradição
Sou nuvem que passa
Sempre em solidão
**

11 de novembro de 2009

Inspiração para um magusto


OS SIMPLES

Pela estrada, que entre cerejais ondeia,
Uma pequerrucha, Tró-la-ró-la-rá!
Vai cantando e guiando o carro para a aldeia.
Com um castanheiro apodrecido já.

Castanheiro morto! Que é da vida estranha
Que no ovário exíguo duma flor nasceu,
E criou raízes, e se fez tamanha
Que trezentos anos sobre uma montanha
Seus trezentos braços de colosso ergueu?!

Em casal de Serras arde o castanheiro
Lâmpada de pobres a fazer serão;
De redor no grande festival braseiro,
A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

Como não sentir um estranho afecto,
Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

Fez com ele o jugo e fez com ele o arado;
Fez com ele as portas contra os vendavais;
E com ele é feito o velho leito amado,
Onde se deitara para o seu noivado,
E onde já morreram seus avós, seus pais!

Eis as brasas mortas... Ei-lo já converso
O castanheiro em cinza, o fumo vão, em luz...
Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
Reviver na vida eterna do Universo
Círculo de enigmas que ninguém traduz...

Guerra Junqueiro

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5 de novembro de 2009

Amor em arco-íris




Entre as cores do arco-íris te encontrei
envolto nesse manto de perfume
o meu corpo cego de queixume
e o teu, sedento de paixão
Desnudámos com ternura, beijos loucos
em sedas de carícias tão guardadas
sossego de almas desejadas
sol e chuva em união
Foi assim que o nosso céu se coloriu
quando pintámos de amor a alvorada
num tempo em que não esperando nada
Uma doce lua nos sorriu


1 de novembro de 2009

O último pão por Deus


Era com a Fá e com a Belita que todos os anos eu percorria as ruas do meu bairro e arredores, com o saquinho apertado na mão. Mais velhas e mais afoitas, elas iam sempre à frente enquanto eu, querendo fazer-me pequenina, escondia-me atrás delas.
Porta a porta, nenhum batente ou campainha escapava à vontade irresistível de saber, qual a surpresa que nos reservavam as mãos gentis que quase sempre franqueavam a entrada.
Gostava daquele ritual e deixava sempre que a alegria das minhas amigas de infância me contagiasse. Mas havia alguma coisa no pedido de pão por Deus, que me empurrava para terceiro lugar na fila. Não sabia explicar, mas era como uma falsa declaração de fome que na realidade eu nunca tinha sentido. Uma mentira autorizada em nome da tradição, a que todos achavam graça. Ou quase todos.

- Então Maria João, não abres a tua saquinha?

E sem saber se primeiro agradecia ou abria o saco, fazia as duas coisas ao mesmo tempo e lá dentro misturava a vergonha com as castanhas e as bolachas já desfeitas, mais os rebuçados que melavam as romãs, as maçãs, os escudos e os centavos .
Um a um, conhecidos e desconhecidos, amigos e parentes eram chamados à oferenda e raras eram as portas que não se abriam. Os sorrisos adoçavam os pequenos nadas que enchiam as nossas saquinhas e a pouco e pouco, faziam-me sentir menos culpada por pedir algo que eu achava não necessitar.
E assim foi, durante pelo menos três ou quatro anos, sempre no dia 1 do mês de Novembro.
A última vez, calhou-me a mim bater àquela porta. Tinha oito anos e não conseguia já esconder-me atrás de ninguém.

- O que querem vocês, miúdas?

- Vimos pedir pão por Deus - disse eu quase a medo.

- Vocês têm cá uma lata… então com um corpinho já tão jeitoso para trabalhar, vêm pedir pão, logo no dia em que o padeiro não trabalha!? Tenham mas é juízo!

Fomos embora, mas apenas elas continuaram. Eu voltei para casa. Lá , o pão nunca faltava, mesmo nos dias em que era feriado.
No caminho, fui a pensar que realmente não estava certo, pedir pão quando não se tinha fome, mesmo que fosse em nome de Deus. Mas também não estava certo, falarem assim, daquela maneira, com as criancinhas!

29 de outubro de 2009

Hoje canta o poeta...



PEDRO HOMEM DE MELO







CUIDEI QUE TINHA MORRIDO




Ao passar pelo ribeiro
Onde às vezes me debruço
Fitou-me alguém corpo inteiro
Dobrado como um soluço
Pupilas negras tão lassas
Raízes iguais às minhas
Meu amor quando me enlaças
Por ventura as adivinhas
Meu amor quando me enlaças

Que palidez nesse rosto
Sob o lençol de luar
Tal e qual quem ao sol posto
Estivera a agonizar
Deram-me então por conselho
Tirar de mim o sentido
Mas depois vendo-me ao espelho
Cuidei que tinha morrido

Cuidei que tinha morrido



.... na voz de Amália Rodrigues

23 de outubro de 2009

Lugar de sonho




Cansada desfaleço nas margens do meu rio
Enquanto águas turbulentas se acalmam
Vergando por fim os juncos quebrados
E no sonho me levas, pássaro ferido
Sem força na asa para uma lágrima minha
Ao longe a aurora espreita, serena
Ajeitando o ninho para onde me levas
O único lugar onde morrem todas as madrugadas



( Imagem : Woman with a Parrot , de Gustave Courbet )

21 de outubro de 2009

Contos, ditos e escritos



O texto que abaixo trascrevo é uma adaptação livre e de autoria desconhecida de um texto original de João Ubaldo Ribeiro, publicado no Brasil, no Jornal do Meio Ambiente em 14 de Novembro de 2005.
O malogrado professor Eduardo Prado Coelho, chegou a ter conhecimento que lhe havia sido atribuida, falsa e levianamente, a autoria deste texto. Negou-o em nota que enviou ao Jornal O Publico e que ali foi publicada a 25 de Outubro de 2006.
Hoje, três anos depois de o ter feito, o seu nome ainda constava no final do texto que recebi por mail.
Repor novamente a verdade, é apenas uma das razões pelas quais ainda faz sentido reproduzir aqui no meu espaço o referido mail, apesar de sobejamente conhecido por muitos.
Outras incluem, a pertinência e a actualidade do seu conteúdo...


Precisa-se de matéria prima para construir um País


A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país.Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, lips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos ....e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país:- Onde a falta de pontualidade é um hábito;- Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.- Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
- Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.- Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.- Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
- Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.- Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.- Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.
Como “matéria prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa “CHICO-ESPERTICE PORTUGUESA” congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria-prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.
E não poderá fazer nada...
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?
Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa'” não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados!É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez.Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.
AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.
E você, o que pensa?.... *MEDITE*!


15 de outubro de 2009

Isto dá que pensar (2)


Claro que já viu este filme!

Não?

Então veja !

Vale a pena acreditar que...



Esta ideia pode mudar o mundo!

Bem..., mesmo que não consiga mudar o mundo,

Pode mudar-nos a nós!

**

11 de outubro de 2009

Demências e dormências


Além, onde se perdem todas as lembranças
Adormeceram exaustas as esperanças
Que penduradas te seguiam
Além, o tempo passou traiçoeiro
Envelhecendo o caminho, que primeiro
Descalço te esperava
Além, sombra da tua própria ausência
Grito de dor ou demência
Inquietação ou quietude
Além é o lugar, a viagem
Espelho partido, miragem
Sinal da tua finitude

8 de outubro de 2009

Dasabafos


Inundaram-se teus olhos gratos
Procurando alento, os perdidos
Caíram do ninho desfeito
Restos de orvalhos feridos

Pousaram nos meus já cansados
Que de sol e lua se atrevem
Mesmo que nada levem
Os teus lá, ficam guardados

Esconde em mim teus segredos
Virás buscá-los um dia
Com eles enxoto os meus medos
Sem eles, não sei que seria

Despe então o desalento
Que te amarra a corrida
Mais do que este momento
A tua missão é a vida

E ao vento lanço teus ais
Essa busca amargurada
Se não sabes bem como vais
Segue nua, vai sem culpa, vai sem nada

30 de setembro de 2009

Para onde vou....


Para onde vais?
Perguntas a medo…

Sou um leme, uma vela
Sou barco com rumo
Que dorme em teu cais
Em segredo…

Para onde vais?
Queres mesmo saber…

Vou pintar de água doce
O mar que navegas
Com o coração
A bater....

Não me perguntes mais
Para onde vais?

Irei, serei, aqui e tão só
Pedra nua, suave nevoeiro
Uma alma que se cola à tua
E assim, abraça o mundo inteiro



A foto, que é minha, é o registo de uma das margens do Douro, num dia calmo em Raiva .

17 de setembro de 2009

Mulheres de arte e coragem

Não pintaram quadros, nem escreveram livros, mas construíram verdadeiras obras de arte, tecidas com o fio da vida, de ponto em lágrima e laçada em riso.
Eram rendas, rendas que hoje permanecem connosco, quem sabe algumas guardadas na arca ou no fundo de uma gaveta porque os imperativos da moda deixaram de valorizar tais virtudes.
Tenho o privilégio de possuir parte deste espólio e de me perder inúmeras vezes nele, num reencontro com o passado.
Observo cada pormenor inscrito nos pontos altos e baixos que desenham flores e formas e tento adivinhar os pensamentos, as emoções e as vivências das suas obreiras e que subtilmente se entrelaçaram nas rendas, materializando assim as suas memórias.
Gosto de imaginar que ainda estão connosco desta forma. Sentir assim, a arte e a coragem que enlaçou as suas vidas, até ao fim.
Reconforto-me nestas lembranças, nas suas referências e nos seus exemplos e sigo em frente. Sabendo de onde venho, saberei sempre para onde devo ir.
Procuro todos os dias ser mais o que faço do que o que digo, ou então ser o que digo naquilo que faço.
Quando olho para as rendas que com mestria fizeram, sei o que permanecerá de mim um dia, se houver alguém que se reconforte também na minha memória.
Se hoje trago comigo o estandarte das minhas origens é para que amanhã, o cunho da minha lembrança tenha inscrito o orgulho de ter uma família e de ser filha e neta de quem sou!


14 de setembro de 2009

Sonho Divino

Sonhei que tinha chorado

Num encontro singular

Entre o céu e o mar

Onde os anjos dançavam

E nesse limbo doce e profundo

Uma alma cantou

Pousando o silêncio no mundo



ELIS REGINA

Uma alma que não cabia no corpo...


13 de setembro de 2009

Pausas e vírgulas



Foi...
Uma pausa, um olhar, algo mais demorado
Um descanso merecido de alguém que andava cansado

Foi...

Uma vírgula ou dois pontos, uma paragem, um momento
Deste fio que me escreve e que rola no tempo

É....

A raiz que renasce, que brota e floresce em pedaços de escrita
Pequenos e grandes abraços, histórias e acordes de vida


22 de agosto de 2009

Dias de Verão

Persigo o sol e o mar
Embriagada pelo vento
Chorando os sonhos desfeitos em areia morna
E na espuma desse mar que me arrefece
Eu flutuo, lentamente
Encontrando vida
No abraço do sol que não me esquece

30 de julho de 2009

O beijo perdido


Corpo curvado e olhos postos no chão, era assim a figura dilacerada daquele homem, que diariamente, no momento em que os dois ponteiros do relógio se juntavam às 11 horas, entrava pela enfermaria.
Ao longo de duas semanas, dia após dia, os passos tornavam-se mais pesados, arrastando uma amargura infinita que teimava não desaparecer.
Alberto, seu nome era Alberto.
Ao entrar, os olhos tristes procuravam a presença do corpo de Manuela, a sua princesa de há 35 anos, que se mantinha ali agora, inerte, passiva, naquele sono profundo, sabe-se lá com a alma perdida em qualquer ponto ensombrado do cérebro.
Abeirava-se dela com cuidado, o cuidado de quem não quer sobressaltar aquele que tranquilamente dorme, afagava-lhe o rosto e beijava-lhe a testa. “ Boa noite, meu amor!”
Era esta a frase que marcava o início e o fim daqueles encontros diários, carregados de sofrimento e fé, de esperanças perdidas e renascidas, de desalentos e recordações.
Por entre sorrisos e lágrimas, desfolhava na memória o livro dos dois, revivendo pequenos e grandes momentos das suas vidas que haviam ficado gravados em páginas eternas. Páginas de um casamento feliz que cresceu em afecto e respeito.
Mulher bonita e carinhosa, Manuela já era florista na praça, quando se conheceram e ele, agora reformado da função publica, era na altura um empregado de restaurante, mesmo ali ao lado da Ribeira.
Foi bonito o namoro deles, timidamente assumido e depois, gostosamente saboreado com os ímpetos próprios da paixão. O casamento, marcado às pressas porque a gravidez já não podia ser disfarçada, foi bonito também. Assim como foi bonita a vida deles, marcada por muito sacrifício conjunto, mas também muita determinação e força. Apoiavam-se mutuamente. Ela mais condescendente e sempre conciliadora, ele por vezes irascível e sempre bastante orgulhoso.
Tiveram alguns desentendimentos, pequenos arrufos. Coisas que a convivência diária provoca e que naturalmente, também resolve. Nada que tivesse abalado em algum momento aquela união terna e doce onde geraram e criaram três filhos.
Manuela fazia questão de nunca deixar que a zanga perdurasse para além do dia e à noite procurava sempre de uma forma ou de outra a reconciliação. Dizia ela que o sono era como uma viagem e por isso gostava de se despedir com um beijo sereno e de adormecer em paz. Mas o orgulho de Alberto, algumas vezes era mais forte e teimava em adormecer de costas voltadas, retomando o sorriso apenas pela manhã.
Naquela tarde de sábado, e por um motivo que nem Alberto já se recordava bem, tinham-se desentendido. Manuela estava menos tolerante, aquela dor de cabeça constante e a latejar, tirou-lhe o discernimento e a zanga ficou no meio dos dois, congelando os afectos.
Quando o sol veio render a fria madrugada de domingo e Alberto desenhou um sorriso para oferecer à mulher como se fosse um malmequer silvestre, sentiu nela uma respiração irregular e ruidosa, virou-se na cama e olhou para o seu rosto, pálido, inexpressivo.
“ Manuela, meu amor, acorda!! “
Manuela ficara presa na sua viagem, algures entre o sonho e a vida, no labirinto das conexões nervosas não irrigadas, do seu cérebro.
Desde há duas semanas que permanecia assim, sem regresso.
Alberto inconformado, esperava poder em qualquer momento recuperar aquela noite, em que se deitaram juntos pela última vez, para agora sim, se despedirem em paz, como ela tanto gostava e darem o beijo perdido de boas noites!

19 de julho de 2009

Pequenos e frágeis

Esta imagem (1), foi obtida através de um satélite não navegável.
Nela podemos observar o tamanho do Planeta Terra comparativamente ao Planeta Saturno.

Um pequeno ponto apenas....

"Nesse pequeno ponto azul, estamos todos.
Todas as nossas guerras…
Todos os nossos problemas…
Toda a nossa grandeza e toda a nossa miséria ...
Toda a nossa tecnologia, a nossa arte, os nossos feitos…
Todas as nossas civilizações, toda a nossa fauna e flora..
Todas as nossas raças, todas as religiões…
Todos os nossos governos, países e estados…
Todo o nosso amor e o nosso ódio…
Seis mil milhões de almas em constante convulsão
" ( 2 )

Dá que pensar....

Mas esta imagem em si, também ela é um pequenino ponto.

Senão, vejamos...

Pequenos e frágeis!

Tomemos tudo isto, como uma lição de humildade...

(1)Retirada da Net
(2) Texto retirado de um maravilhoso email que me foi reencaminhado e de autoria desconhecida.

15 de julho de 2009

Detalhe precioso


Nem sempre sabemos exactamente, porque fazemos algumas coisas.

Por isso, ainda hoje não sei todas as razões pelas quais criei há um ano este espaço.

Mas todas são igualmente válidas e importantes, tenho a certeza.

Sei porque lhe chamei " Pequenos Detalhes ".

Afinal são os detalhes, os pequenos, que marcam a diferença.

Sem os detalhes, a monotonia do que parece ser igual, desvia-nos a atenção do que é realmente diferente...

Ao longo deste ano, este meu espaço de escrita que agora é nosso, tem sido partilhado, acarinhado e enriquecido por outros detalhes, que lhe dão brilho e calor...

O carinho das palavras é um detalhe precioso! Obrigado!

Não sei todas as razões pelas quais eu quero manter este espaço.

Decido continuar...

É tão bom saber-vos aqui!




O selinho foi feito com todo o carinho da Mariazita, que assim brindou este aniversário. Com o mesmo carinho eu o ofereço a cada um de vós, para que o levem ou o deixem ficar, conforme vos apetecer.
Guardem sim, o meu sincero apreço pela vossa visita.

7 de julho de 2009

O mundo dos contrastes... (VII)



MULTIDÕES





O mesmo Planeta ...








O mesmo tempo ...






Realidades vergonhosamente contrastantes!

Olhares de involução humana!


2 de julho de 2009

Pre(ocupações)



Confesso que tenho andado ocupada!

Nunca gostei de me pre(ocupar) mais do que o necessário. É que se andarmos às voltas com o mesmo assunto, durante muito tempo, perdemos a oportunidade de nos ocuparmos realmente com o que nos pre(ocupa).

Claro que a pre(ocupação) é importante, é com ela que se questiona o assunto, se levantam as hipóteses, se desenham e ensaiam os cenários… Mas não nos esqueçamos da sua verdadeira razão de ser : a preparação e o planeamento do que deverá ser a nossa ocupação!

Não vou negar que muitas vezes me sinto tentada a ficar pre(ocupada) durante mais tempo, numa espécie de masoquismo frenético e depressivo, que me faz sentir que faça o que fizer não resolverei o assunto. Nessas alturas a minha cabeça quase “explode” de dor e cansaço presa nesse beco sem saída.

Mas rapidamente ponho um ponto final em tal subtil tentação.

“Não podes continuar assim, minha querida.” Penso em voz alta nesses momentos, correndo o risco de alguém me ouvir nesse monólogo e pensar que a lucidez me abandonou definitivamente ,com tanta pre(ocupação). “ Tens de fazer alguma coisa, passar à ocupação para teres obra feita!”

Deixo então de dizer: “ Tenho de fazer isto” e faço-o!
Deixo de lamentar o que não tenho e luto para merece-lo!
Paro de chorar o que perdi e trabalho para o obter de novo!

Ocuparmo-nos é como reconhecer uma dádiva, porque ocupação é vida.

Não passar da pre(ocupação) é um desperdício.

Em qualquer momento, mesmo que conscientes de que já não teremos todo o tempo para concretizar tudo o que gostaríamos, teremos decerto a oportunidade de fazer alguma coisa!

Basta para isso, que nos mantenhamos ocupados…

23 de junho de 2009

De olhos fechados


Faço diariamente uma pequena caminhada desde o hospital até ao carro, e com ela retomo a vida que está para além do trabalho intenso, onde a mente e o corpo se ocupam concentradamente em cuidar da criança doente.
Neste pequeno percurso, que faço quase sempre com a serenidade de missão diária cumprida, procuro ver o que me rodeia para além do óbvio, como se tivesse a necessidade de absorver a vida que pulsa em contextos de normalidade.
Há dias, reparei num jovem que caminhava a passo ritmado e perfeitamente linear. Nada seria fora do comum, não fosse caminhar também ao seu lado esquerdo, um cão guia que ele segurava pelo arnês, depositando nele a confiança perdida nos olhos incapazes.
Acompanhei aquele percurso em que ambos seguiam compenetrados na missão de chegar a um determinado destino. O passeio onde seguiam era largo e eles, lado a lado, caminhavam sem dificuldade. A dado momento e desenhando uma curva à esquerda, o mesmo passeio apresentou-se abruptamente reduzido a metade na sua largura, pela presença de árvores seculares que lá marcam presença, oferecendo a quem passa, um misto de história, frescura e sombra verdejante, lufada de ar fresco em cidades compactadas de tijolo, automóveis e poluição.
Não consegui detectar um único segundo de hesitação do cão, nem qualquer passo mais reduzido do dono. De imediato, o Labrador encostou-se totalmente ao muro, de tal forma que era possível ver o seu pelo claro a roçar na parede rugosa. Ambos continuaram o caminho, no mesmo ritmo, na mesma concentração.
Talvez o jovem nem se apercebesse que entre ele e as árvores, sobravam apenas alguns escassos centímetros. O cão guia, esse sabia com certeza que para o seu dono caminhar seguro, era preciso comprimir o seu corpo, o máximo que pudesse, contra aquela parede.
Fiquei a pensar nesta lição de confiança e amizade.
Fiquei a pensar em quantos de nós, em tantos momentos da vida, sentimos a falta de alguém que nos ofereça amizade e segurança, caminhando ao nosso lado. Alguém em quem possamos confiar de olhos fechados.

12 de junho de 2009

Dá que pensar...




"A vida é uma pedra de amolar:
desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal
de que somos feitos. "

(George Bernard Shaw)




Imagem
Moinho de Mãos - Tapeçaria Artesanal de Cândida Rocha
São Vicente - Cabo Verde

4 de junho de 2009

Retalhos


Pintei no tempo, uma paisagem

Quadro de vida em muitas cores

Recortes de bruma e vento

Em mar salgado, nos Açores


Das nove, foi na Terceira

Ilha de nuances e perfumes

Onde as ondas gemem seus queixumes

A rocha é quente e a terra soalheira


Lá, pintei o sol a lua e um paraíso

Tecido em retalhos de verdura

Lá, toquei a chuva e soltei o riso

Em silêncios de amor e de amargura


Gravei na alma as cores e os olhares

E todas as pérolas que encontrei

Ficaram no coração os lugares

Nesse quadro de vida que pintei




1 de junho de 2009

Para que nenhum dia seja diferente...



CARTA DE UM FILHO
A TODOS OS PAIS DO MUNDO




Não grites comigo.
Quando o fazes, estás a ensinar-me a gritar também embora eu não o queira fazer e eu passo a respeitar-te menos.

Trata-me com amabilidade e cordialidade, como fazes com os teus amigos.
Por sermos família não significa que não possamos ser amigos.

Não digas palavrões.
Eu vou aprender a dizê-los, sem mesmo saber o que significam.

Quando te enganares em alguma coisa, admite-o.
Isso vai melhorar a minha opinião a teu respeito e ensinas-me a admitir também os meus erros.

Não me compares com ninguém, em especial com os meus irmãos.
Se me comparas melhor que os outros, alguém vai sofrer. Se me comparas pior, sou eu quem sofre.

Não digas mentiras à minha frente, nem peças que as diga por ti.
Fazes com que eu deixe de acreditar no que dizes e eu não quero isso.

Deixa-me valer a mim próprio.
Se fizeres tudo por mim, eu não posso aprender a fazê-lo.

Não me dês sempre ordens.
Se me pedires para fazer alguma coisa, em vez de me dares uma ordem, eu o farei mais rápido e com mais prazer.

Não mudes tantas vezes de opinião sobre o que devo fazer.
Decide e mantém essa posição.

Cumpre as promessas que me fazes, as boas e as más.
Se me prometeres um prémio dá-mo. Mas preciso que o faças também se for um castigo.

Procura compreender-me e ajudar-me.
Quando te conto algum problema, não me digas: “ Isso não tem importância” porque para mim tem.

Não me digas para fazer alguma coisa que tu não fazes.
Eu aprenderei a fazer sempre o que tu fazes, mesmo que não o digas. Mas não farei o que tu dizes e não fazes.

Não me dês tudo o que te peço.
Ás vezes, só peço para ver o quanto posso receber.

Ama-me e não te canses de me o dizer.
Eu preciso do teu amor e gosto muito de te ouvir dizê-lo, mesmo que tu aches que não é necessário.


Anónimo


.....PORQUE O DIA DA CRIANÇA É CADA DIA DE TODOS OS DIAS DO ANO!......

26 de maio de 2009

Essências...



" Todas as acções fruto dos seres humanos, e não apenas as ligadas ao seu relacionamento, têm como base o amor ou o medo. Decisões que afectam os negócios, a industria, a política, a religião, a educação dos jovens, a agenda social das vossas nações, as metas económicas da vossa sociedade, opções envolvendo guerra, paz, ataque, defesa, agressão, submissão; resoluções ambiciosas ou despojadas, de amealhamento ou partilha, de união ou divisão - toda e qualquer opção livre que venham a tomar resulta de um dos dois únicos pensamentos que existem: um pensamento de amor ou um pensamento de medo.
O medo é a energia que contrai, fecha, isola, foge, esconde, amealha, faz mal.
O amor é a energia que expande, abre, liberta, fica, revela, partilha, cura.
O medo envolve os nossos corpos com roupagens, o amor permite-nos andar desnudos. O medo pega-se e agarra-se a tudo o que temos, o amor despoja-se de tudo isso. O medo cerca-nos, o amor enlaça-nos. O medo prende, o amor liberta. O medo infecta, o amor alivia. O medo agride, o amor apazigua.
Qualquer pensamento, palavra ou acção humana assenta numa destas emoções. Nada podes fazer quanto a isso pois não tens outras hipóteses de escolha. Mas o teu livre arbítrio permite-te escolher entre as duas.


Dito assim parece tão fácil e no entanto, no momento da decisão, o medo vence mais frequêntemente. Porquê?


Ensinaram-vos a viver com medo. Falaram-vos da sobrevivência dos mais aptos, da vitória dos mais fortes e do êxito dos mais espertos. Muito pouco se fala do triunfo dos mais afectuosos. E, por isso, esforçam-se por serem os mais aptos, os mais fortes, os mais espertos - de uma forma ou de outra - e se, numa dada situação, se vêm como algo menos do que isso temem vir a perder, pois disseram-vos que ser menos é ser-se vencido. E por isso, claro, escolhem a acção movida pelo medo, pois foi o que vos ensinaram. "



Neale Donald Walsch in " Conversas com Deus"


17 de maio de 2009

A gentileza de ver para além de olhar...


A cena passou-se num qualquer dia, a uma hora matinal, daquelas em que raramente existem lugares sentados disponíveis em qualquer meio de transporte público.

Clara apanhou o Metro religiosamente à mesma hora e como sempre, ficou de pé. Já estava habituada.

Tinha aprendido a gostar daquele equilíbrio instável, sentia-se suavemente embalada pela carruagem e era assim que durante os quarenta minutos que durava a sua viagem, se entretinha a observar aqueles que viajavam consigo.

Os rostos habituais, alguns mais cansados que no dia anterior e rostos diferentes, absortos nos seus próprios pensamentos e alheios ao que se passava em redor.

Pessoas tão diferentes, fisicamente tão juntas ali, por breves minutos, mantendo o anonimato das suas vidas. Que vidas? Que preocupações? Que sentimentos? Que pensamentos?

Pessoas tão distantes umas das outras!

As portas da carruagem abriram-se de par em par e entre mais de uma dezena de pessoas, entrou alguém com idade suficientemente avançada, para ser notada. Mas não foi.

Clara olhou à sua volta, para as pessoas que estavam sentadas. Os rostos continuavam lá, mas os olhares estavam ausentes, como que acometidos por uma espécie de transe matinal que lhes mantinha a sonolência nocturna.

A carruagem recomeçou a sua marcha e naquele solavanco, a idosa senhora agarrou-se ao braço de Clara, pedindo-lhe desculpa por tão atrevido, mas absolutamente necessário gesto, para se manter de pé. Clara sorriu-lhe e disse-lhe que não fazia mal, que podia continuar agarrada ao seu braço.

Algumas pessoas olharam para elas, como se romper o silêncio fosse como infringir uma qualquer lei , punível com o olhar. Mas rapidamente voltaram ao estado apático inicial.

Clara achou que era o momento, inspirou fundo e deixou que a indignação tomasse conta do discurso…

“ Alguém terá a gentileza de se levantar um pouquinho mais cedo do que o habitual e dar o seu lugar a esta senhora, que já utilizou as pernas durante mais anos que qualquer um de nós?”

Os rostos viraram-se todos em sincronia, para Clara e depois para a velhinha. Os olhares tinham aquela expressão de quem é tomado por surpresa com o entoar de um trovão.

Um senhor logo se levantou, como se o despertador tivesse acabado de tocar, e a velhinha agradeceu a gentileza e lá se sentou no seu lugar, não antes de ter apertado o braço a Clara. Um sinal, um obrigado.

E tudo voltou a ser como havia sido, dez minutos atrás, a uma hora matinal de um dia entre outros, igual.




12 de maio de 2009

Ser Enfermeira

Ser enfermeira foi primeiro um apelo, a necessidade interior de cuidar do outro.
Depois foi luta, determinação, aprendizagem. Saber da ciência e da arte de assistir o ser humano.
Ser enfermeira, hoje é a minha vida, ou grande parte dela.
Sendo enfermeira eu aprendi mais sobre mim cuidando de quem precisa.
Sendo enfermeira eu evoluí como pessoa. Para dar é preciso ter.
Minorar o sofrimento de quem cuido é para mim uma missão. Uma fonte de energia.
Promovendo a vida dou sentido à minha existência.
É este o meu compromisso!


12 DE MAIO
DIA INTERNACIONAL DO ENFERMEIRO


Cuidar é actuar sobre o poder de existir, é possibilitar a libertação das
capacidades de cada ser humano para existir, para viver, cuidar é
definitivamente uma forma de promover a vida (Coliére, 1993).


9 de maio de 2009

Mensagens em flor



Algumas das tuas flores são recados

Chamadas de atenção

Outras das tuas flores são sorrisos

Mensagens do coração


Doces favos de mel

Em recortes de papel





Algumas das tuas flores, são "obrigados"

Carinhos assim desenhados

Beijos de lápis de cor

Todas as tuas flores são bordados

Dos sonhos que trazes guardados

Sinais de alegria e amor






Nota : As flores são da autoria da minha sobrinha Inês de 4 anos, também ela uma flor. Ao presentear-me com eles, ela dá ainda mais côr à minha vida.

4 de maio de 2009

Poema na areia

Grãos de areia escrevem estrofes

Guiados por mãos de arte delicada

Pinturas de tudo e de nada

Alma cheia e fantasia

Porque também assim se faz poesia

3 de maio de 2009

À minha mãe!

Rasgando a vida com determinação
Na humilde sede de existir apenas
Grandes foram as tuas coisas pequenas
Enorme foi o teu coração




A memória de ti é o meu segredo
Tudo o que sou e para onde vou
Tudo o que tenho e de onde venho
A ti o devo!



28 de abril de 2009

Emocionalmente humanos...

" Sem qualquer excepção, homens e mulheres de todas s idades, de todas as culturas, de todos os graus de instrução e de todos os níveis económicos têm emoções, estão atentos às emoções dos outros, cultivam passatempos que manipulam as suas próprias emoções, e governam as suas vidas, em grande parte, pela procura de uma emoção, a felicidade, e pelo evitar das emoções desagradáveis. à primeira vista, não existe nada de característicamente humano nas emoções, uma vez que é bem claro que os animais também têm emoções. No entanto, há qualquer coisa de muito característico no modo como as emoções estão ligadas ás ideias, aos valores, aos príncipios e aos juízos complexos que só os seres humanos podem ter, sendo nessa ligação que reside a nossa ideia bem legítima de que a emoção humana é especial.
A emoção humana não se reduz ao prazer sexual ou ao pavor dos répteis. Tem a ver, igualmente, com o horror de testemunhar o sofrimento e com a satisfação de ver cumprida a justiça; com o nosso deleite face ao sorriso sensual de Jeanne Moreau ou à densa beleza das palavras e ideias da poesia de Shakespeare; com a voz cansada desencantada de Dietrich Fischer-Dieskau ao cantar Ich habe genug de Bach; com o estilo simultaneamente etéreo e terreno com que Maria João Pires executa Mozart ou Schubert; e com a harmonia que Einstein provocou na estrutura de uma equação. A emoção humana pode até ser desencadeada pela música barata ou pelo cinema de má qualidade, cujos poderes nunca devem ser substimados.
O impacto humano de todas as causas de emoção acima citadas, refinadas ou não, e de todas as tonalidades de emoção que estas provocam, subtis e não subtis, depende dos sentimentos gerados por essas emoções. É através dos sentimentos, que são dirigidos para o interior e são privados, que as emoções, que são dirigidas para o exterior e são publicas, iniciam o seu impacto na mente.
Mas o impacto completo e duradouro dos sentimentos exige também consciência, pois só com o advento do sentido do si podem os sentimentos tornar-se conhecidos do indíviduo que os experimenta. "


António Damásio in " O Sentimento de Si "

25 de abril de 2009

Pessoas singulares IV



Salgueiro Maia
1944-1992


O mais puro símbolo da coragem e da generosidade dos capitães de Abril.

Um Homem Singular


"Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou o vício
Aquele que foi "fiel à palavra dada e ideia tida"
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse"

Sophia de Mello Breyner Andresen

21 de abril de 2009

Reflexos


Um traço, apenas um traço separa a minha vida da tua.
Não há pontos nem virgulas entre nós, apenas este traço
Não, não é um risco. Esse seria, como direi... doloroso
É apenas um traço, delicadamente desenhado. Indelével
Apagá-lo seria demitirmo-nos de ser
Suprimirmo-nos, anularmo-nos, escondermo-nos de nós.
Não, não é isso que queremos!
Sou o que sou. Amo-te
És o que és. Amas-me
Ameno-nos, simplesmente
O que fica de mim em ti e de ti em mim, são apenas reflexos!

16 de abril de 2009

Naturalmente... " Erupção vulcânica "

~~

Em fogo e lava ardente te revelas

Revolta dos Deuses, elemento

Vida em fúria ou sofrimento?

Também na tormenta és , natureza

Surpreendentemente bela!

~~

12 de abril de 2009

Post-Scriptum


Naturalmente, alguns dos meus amigos e fieis leitores dos pequenos detalhes que aqui vou escrevendo, sentiram curiosidade em conhecer a continuação ou o desfecho da história do pequeno Ruben. Sinto-me assim, no dever de acrescentar algo mais ao que já foi escrito.


Uma vida tem muitas histórias e cada uma é apenas um pequeno fragmento, um pequeno pedaço de outras histórias, às vezes de outras vidas também.
A história do pequeno Ruben, é infelizmente idêntica à de muitas outras crianças, algumas órfãs de pais, outras de amor, respeito e dignidade. Mas cada criança é um ser único, com particularidades distintas de todas as outras. Por isso cada uma nos ensina sempre algo diferente, especial.
O Ruben permaneceu internado no Hospital, durante três meses, nesse período foi sempre acompanhado por uma equipa de profissionais e amigos que lhe devolveram a esperança e o ajudaram a sair gradualmente do choque traumático que viveu, de forma a poder verbalizar sentimentos, a recuperar as lágrimas e os sorrisos e a estar pronto para retomar a sua caminhada. Porque a vida de uma criança continua como a de toda a gente, mesmo que a infância fique suspensa no tempo ou presa na dor. Por isso é tão urgente reparar as feridas e os afectos, por isso é tão importante devolver-lhe, o mais rapidamente possível, o tempo e o direito de ser criança e de ter uma família que a ame e a faça sentir novamente feliz.
Durante o tempo em que esteve internado, manteve comigo uma relação especial, como será fácil de imaginar. O dia em que ele foi embora para uma Instituição da Segurança Social que o acolheu, toda a equipa se emocionou.
Ainda me lembro do seu abraço e dos seus olhos brilhantes.
Foi muito difícil vê-lo partir!
Um ano depois, soube que iria viver com uma família de acolhimento, naquele que hoje é o processo de pré-adopção. Depois... bem, depois tal como acontece com tantas outras crianças, perdi o rasto da sua história.
Talvez tenha sido devolvido à Instituição, por não corresponder às expectativas da família que o queria adoptar, aumentando a ferida psicológica da perda e da solidão com a da rejeição. (Como tantas vezes acontece, ainda hoje).
Talvez não tenha saído mais das Instituições de acolhimento que procuram dar a estas crianças tudo o que a vida lhes tirou, mas nunca conseguem substituir uma verdadeira família.
Talvez ele tenha encontrado uma família que o tenha amado e sentido como um verdadeiro filho. Talvez ele se tenha sentido amado e respeitado como tal.
Talvez ele tenha superado aquele terrível dia em que perdeu a mãe e os outros que se seguiram sem ela.
Talvez em algum momento, ele se tenha recordado de mim. Talvez...
Hoje terá 20 anos, o Ruben. Permanecerá sempre na minha vida, como aquele menino frágil, de 8 anos que um dia me chamou o seu "anjo da guarda" e me deu um pedaço de amor da sua vida rasgada.
Outros vieram depois dele, outros virão.
Os pequenos fragmentos das suas histórias, são algumas das minhas grandes lições de vida!

9 de abril de 2009

Pedaço de papel rasgado

Já nos conhecíamos há algum tempo.
Em vários segundos de muitas horas, ele havia fixado o olhar em mim. Olhos mortiços de tristeza.
Não tinha sido fácil comunicar com ele, o mutismo da dor permaneceu ainda durante bastante tempo desde o primeiro dia em que o vi... aquele dia!
Eu estava de serviço, quando ele chegou para ser internado, fui eu que o recebi.
Ruben, 8 anos, encontrado por uma vizinha, junto da mãe que jazia inerte no chão da sala. Disseram que foi difícil fazer com que os seus pequenos braços largassem o pescoço da mãe. Não tinha mais ninguém.
Durante dias, não comeu, não falou, não chorou!
Ninguém conseguia comunicar com ele. Todos o tentavam.
Passei a oferecer-lhe, todos os dias em que estava de serviço, uma folha branca com uma estrela desenhada, para ele pintar e desenhar se quisesse . Sempre que me ia embora fazia-lhe uma festa na cabeça e dizia-lhe: "Gosto muito de ti !"
Começou por me olhar furtivamente, ignorando a folha. Depois pintou a estrela com o lápis castanho e riscou tudo com o preto.
Ao fim de alguns dias, fixou o meu olhar rapidamente e entregou-me a folha com um menino desenhado, um menino sem braços... a estrela não estava pintada.
Perguntei-lhe se podia pintar a estrela e ele anuiu timidamente com a cabeça.
Pintei a estrela... verde.
Conhecíamo-nos então, já há algum tempo.
Naquela Sexta-feira , ele agarrou a minha mão depois do meu gesto carinhoso na sua cabeça e eu não consegui dizer a seguir, a frase de sempre.
Ele tinha-a dito de outro modo.
No dia seguinte entrei no seu quarto, faltava pouco para a meia noite, o início do meu turno. Pensava que ele estava a dormir. Observei-o, aconcheguei-lhe a roupa e preparava-me para sair... quando oiço a sua voz; sumida, trémula: " És o meu anjo da guarda?"
Ignorei a pergunta, emocionada e disse: " Sou eu Ruben !".
" Eu sei" , respondeu ele e deu-me um pequeno pedaço de papel rasgado.
" Dorme..." , sussurei " Vou ver os outros meninos e já venho aqui ao pé de ti".
Saí do quarto, feliz pela conquista da comunicação. Uma luzinha acabava de se acender, a ponte estava em construção.
Abri a mão onde guardava o pedaço de papel que o Ruben me havia dado...
Era a estrela da folha do dia anterior, pintada de amarelo. Por baixo dizia: " Eu também".