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30 de dezembro de 2010

A propósito do Novo Ano



Os anos passam, sucedem-se... uns tão apaticamente iguais, outros tão dramaticamente diferentes.
Mas existem anos felizes. Ou anos com dias felizes. Ou dias com momentos de felicidade.
O que importa é que existam, que se sintam e façam sentir e não passem por nós vazios ou nós, por eles, sem sentido.
Todos os anos se festeja, de uma forma ou de outra, o segundo de transição da soma de todos os dias que se gastaram nas nossas vidas e a vinda de outros tantos.
Que se festeje pois, mas mais do que isso...
Que se festeje a chegada de mais trezentas e sessenta e cinco oportunidades de fazermos um pouco mais e melhor...
Por nós, para que brilhe mais a nossa lua, vivendo alto;
Pelos outros, para que sintam que os gestos que parecem banais, são afinal fundamentais;
Pela protecção e preservação do mundo, para que não deixe de ser o melhor lugar para viver.
Que se festeje a alegria de não ver perdida a esperança de mudar o que está ao alcance das nossas mãos, quando sabemos que não podemos mudar o mundo.
Que se brinde com lágrimas ou risos o maravilhoso privilégio que é viver. Viver a sonhar e a partilhar. Viver perdendo e ganhando. Viver a crescer e a dar. Viver a amar.
Que cada um de nós, seja a gota de água, o raio de sol, a luz maior que faz a diferença. Que ame cada dia do novo ano, espelhando um sorriso, e que nenhum segundo se desperdice.

Escrevi este texto há um ano atrás e hoje, porque não encontraria outras palavras que dissessem mais ou melhor, o que vos desejo para o novo ano, reedito-o.
Sei que se anunciam dias difíceis, dias que vão apelar mais à nossa resiliência e ao nosso sentido solidário. Estejamos atentos e aproveitemos isso para crescer em humanidade.
Talvez não possamos em 2011, vir a ter tudo o que desejamos, mas que dia a dia, o próximo ano nos permita ter, exactamente, o que precisamos. Isto, parecendo ser pouco, será sem dúvida, o bastante para sermos felizes.


Com a amizade, o carinho e a gratidão de sempre, para todos...

BOM ANO !


10 de novembro de 2010

Estaremos nós preparados?



Por estes dias, em que a chuva e o vento me levaram a pensar profundamente no sentido das minhas inquietações e, perante a degradação da condição económica do país, dei comigo a interrogar-me se, na verdade, estaríamos nós preparados para viver com muito menos e se, apesar disso, conseguiríamos encontrar o equilíbrio necessário para sermos felizes.
Não podendo negar esta possibilidade, tendo em conta que ela se torna cada vez mais evidente, importa reflectir urgentemente, nas nossas rotinas e estilos de vida e questionarmo-nos de uma forma sensata e consciente sobre a nossa individual realidade.
Estaremos preparados, para deixar de viver com muitas coisas, cuja necessidade foi criada por nós, rendidos à força do marketing ou de uma sociedade demasiado competitiva e consumista?
Seremos capazes de deixar de comprar por impulso o que simplesmente não é essencial, mas consola o prazer imediato ou o direito que achamos ter, igual aos demais?
Saberemos distinguir o que é uma necessidade e o que é um mero capricho?
E o que achamos ser essencial para nós, será isso uma completa evidência?
Acredito que as gerações mais antigas, estejam preparadas para esta provação, por força do tempo e da realidade que já viveram. E as mais recentes, que cresceram na explosão da modernidade e do facilitismo e que vêm agora desmoronar, o castelo que lhes permitiram construir em tão frágeis alicerces, estarão?
Cada um fará a sua própria reflexão, na consciência de que em cada um de nós e em cada economia familiar, têm de ser encontradas soluções mais simples e menos dispendiosas, para continuar a usufruir da vida no que ela tem, em essência, de melhor para nos dar.

Porque há ecos que sendo reflexos, são versos poéticos, maravilhosas aguarelas ....
Este, ofereceu-me a Manuela Baptista. Guardo-o ao peito e partilho-o convosco, por ser em permanência, eterna essência.

"
era bom
o cantar da água no ribeiro e o cheiro a sabão azul e branco
descascar quilos de marmelos, pesar açucar e canela, mexer um enorme tacho com uma colher de pau
ir a pé para a escola
jogar à bola no meio da estrada
acender a lareira e não ver televisão
conversar à noite até o sol romper
ter um forno de lenha para cozer o pão
e entender o tempo de cada estação!
restituam-me o silêncio e o direito de cantar, que eu
devolvo a pressa e a máquina de lavar "


15 de maio de 2010

Entre um café e um pastel de nata



Hoje acordei com o sol a fazer-me cócegas, no corpo ainda cansado. Aceitei-lhe a energia e num ápice, ergui-me.
Fui recebê-lo no jardim, onde o vento me presenteou também, com a frescura dos dias diferentes.
Vesti algo prático, penteei apressadamente os cabelos e saí a caminho do supermercado para as compras semanais. Coisas rotineiras, daqueles que têm apenas o fim-de-semana para assistir devidamente a casa e a família.
Na cafetaria do supermercado, antes de iniciar o percurso labiríntico dos corredores, gosto de me sentar calmamente a beber um café, que acompanho com o meu pecado semanal, um pastel de nata. É um hábito antigo que gosto de manter, como um mimo que faço a mim mesma, quase em exclusivo, ao sábado. E assim aconteceu hoje, mais uma vez.
Fiquei ali um bom bocado, vendo chegar e partir outras pessoas que faziam o mesmo que eu. Algumas sozinhas, outras acompanhadas com suas caras metades e outras ainda, com toda a família.
Reparei, hoje com uma indignação diferente, que cada vez há mais pessoas que passam pelas revistas e jornais, escolhem uma ou ambas as coisas e levam-nas para a mesa, onde fazem a actualização das notícias do dia, da semana ou da vida, às vezes tão espelhada nas que vêm publicadas. E porque as palavras e as ilustrações não saem do papel só porque são lidas, voltam os respectivos periódicos, a ser colocados no sítio, quando os seus inoportunos leitores, já satisfeitos, se vão embora. Na prateleira, ficam novamente à espera que apareçam clientes verdadeiramente conscientes e responsaveis, que comprem a sua propriedade, antes de se dedicarem à leitura.
Neste vai e vem de chegadas e partidas, onde não há serviço de mesa possível, as empregadas não tinham mãos a medir, para corresponder aos pedidos de pequeno-almoço completo ou, menos ainda que eu, simplesmente um café. Os tabuleiros, delicada e apetitosamente servidos inicialmente, iam sendo abandonados nas mesas, com o lixo e a desarrumação das cadeiras a denunciar a saída dos seus utilizadores.
Algumas pessoas que chegavam, para puderem utilizar uma mesa limpa, pegavam nos tabuleiros, com o lixo que não era seu, colocando-os no local certo.
Pensei nas crianças que ali estavam. Pensei na educação dos mais novos e nas mensagens contraditórias (ou não) dos seus pais.
Gradualmente, fui perdendo o alento que torna os dias diferentes.
Levantei-me, arrumei a cadeira e abandonei o local deixando a mesa limpa.
Se todos fizermos a nossa parte, o mundo pode ser bem mais bonito. Ao invés disso, se nada for feito quanto antes, para repor a noção de dever e de direito, podemos ter de viver numa selva, onde nem as cócegas do sol nem a frescura do vento conseguirão transformar os cansaços.


30 de dezembro de 2009

Brindemos a 2010



Os anos passam, sucedem-se... uns tão apaticamente iguais, outros tão dramaticamente diferentes.
Mas existem anos felizes. Ou anos com dias felizes. Ou dias com momentos de felicidade.
O que importa é que existam, que se sintam e façam sentir e não passem por nós vazios ou nós, por eles, sem sentido.
Todos os anos se festeja, de uma forma ou de outra, o segundo de transição da soma de todos os dias que se gastaram nas nossas vidas e a vinda de outros tantos.
Que se festeje pois, mas mais do que isso...
Que se festeje a chegada de mais trezentas e sessenta e cinco oportunidades de fazermos um pouco mais e melhor...
Por nós, para que brilhe mais a nossa lua, vivendo alto;
Pelos outros, para que sintam que os gestos que parecem banais, são afinal fundamentais;
Pela protecção e preservação do mundo, para que não deixe de ser o melhor lugar para viver.
Que se festeje a alegria de não ver perdida a esperança de mudar o que está ao alcance das nossas mãos, quando sabemos que não podemos mudar o mundo.
Que se brinde com lágrimas ou risos o maravilhoso privilégio que é viver . Viver a sonhar e a partilhar. Viver perdendo e ganhando. Viver a crescer e a dar. Viver a amar.
Que cada um de nós, seja a gota de água, o raio de sol, a luz maior que faz a diferença. Que ame cada dia do novo ano, espelhando um sorriso, e que nenhum segundo se desperdice.

BOM ANO !

Escrito na inspiração dos últimos dias do ano e em "Espelho de água" de Paulo Gonzo.

19 de dezembro de 2009

Mensagem de Natal

Sendo a festa da vida, do amor, da família, da humildade e da dádiva ao outro, o Natal provoca sempre em nós emoções fortes e muito variadas . Não será por isso estranho, que sempre se contaram e escreveram histórias que fazem alusão ao espírito natalício. Histórias que oscilando entre a luz e a sombra, a alegria e o sofrimento, nos obrigam a reflectir no final de cada leitura, de forma a tornarmo-nos mais humanos.

Hans Christian Andersen, célebre escritor dinamarquês do século XIX, escreveu alguns desses contos que pela sua riqueza literária, desprovida de moralismos e pela linguagem simples que utilizam, são considerados ainda hoje, dos mais belos de sempre.

A menina dos fósforos é um conto triste. Nele, as luzes e as sombras do Natal marcam presença e particular significado, colocando em evidência algumas das questões existênciais do ser humano: Os limites, as exclusões e os abandonos... As esperanças, as forças e os sonhos.

Porque Natal é antes de mais e para além de tudo, um tempo de reflexão, de encontro e interiorização das nossas fraquezas e das nossas forças, num ritual de renovação, de partilha e de afectos, deixo-vos a história, para que não esqueçamos o verdadeiro sentido desta quadra..




Existe em cada um de nós uma menina dos fósforos.

Será que a conhecemos bem?


6 de dezembro de 2009

Heranças...


No silêncio dos gestos...


Era como um ritual que finalizava a brincadeira que se havia prolongado no banho.
Eu enrolava a toalha à volta da minha irmã e esta, só com a carita de fora, aproveitava a vantagem de estar ao meu colo para se olhar ao espelho.
- Olha uma velhinha! - dizia eu, e ela ria feliz e eu ria com a felicidade dela.

Os anos passaram...

Hoje já não dou banho à minha irmã. Teresa cresceu, fez-se mulher e hoje é ela que dá banho à filha.
Há dias a Inês, minha sobrinha, veio passar uns dias comigo, e com ela voltei a repetir aquela brincadeira da toalha enrolada e da velhinha que se olha ao espelho. Inês riu , tal e qual a mãe na sua idade. Eu também.
Quando já vestida, ela se preparava para eu lhe secar o cabelo, olhou para mim e perguntou:
- Ó Tia, como é que tu sabes fazer as mesmas coisas que a minha mãe me faz?

...corre a seiva dos afectos !

**

1 de novembro de 2009

O último pão por Deus


Era com a Fá e com a Belita que todos os anos eu percorria as ruas do meu bairro e arredores, com o saquinho apertado na mão. Mais velhas e mais afoitas, elas iam sempre à frente enquanto eu, querendo fazer-me pequenina, escondia-me atrás delas.
Porta a porta, nenhum batente ou campainha escapava à vontade irresistível de saber, qual a surpresa que nos reservavam as mãos gentis que quase sempre franqueavam a entrada.
Gostava daquele ritual e deixava sempre que a alegria das minhas amigas de infância me contagiasse. Mas havia alguma coisa no pedido de pão por Deus, que me empurrava para terceiro lugar na fila. Não sabia explicar, mas era como uma falsa declaração de fome que na realidade eu nunca tinha sentido. Uma mentira autorizada em nome da tradição, a que todos achavam graça. Ou quase todos.

- Então Maria João, não abres a tua saquinha?

E sem saber se primeiro agradecia ou abria o saco, fazia as duas coisas ao mesmo tempo e lá dentro misturava a vergonha com as castanhas e as bolachas já desfeitas, mais os rebuçados que melavam as romãs, as maçãs, os escudos e os centavos .
Um a um, conhecidos e desconhecidos, amigos e parentes eram chamados à oferenda e raras eram as portas que não se abriam. Os sorrisos adoçavam os pequenos nadas que enchiam as nossas saquinhas e a pouco e pouco, faziam-me sentir menos culpada por pedir algo que eu achava não necessitar.
E assim foi, durante pelo menos três ou quatro anos, sempre no dia 1 do mês de Novembro.
A última vez, calhou-me a mim bater àquela porta. Tinha oito anos e não conseguia já esconder-me atrás de ninguém.

- O que querem vocês, miúdas?

- Vimos pedir pão por Deus - disse eu quase a medo.

- Vocês têm cá uma lata… então com um corpinho já tão jeitoso para trabalhar, vêm pedir pão, logo no dia em que o padeiro não trabalha!? Tenham mas é juízo!

Fomos embora, mas apenas elas continuaram. Eu voltei para casa. Lá , o pão nunca faltava, mesmo nos dias em que era feriado.
No caminho, fui a pensar que realmente não estava certo, pedir pão quando não se tinha fome, mesmo que fosse em nome de Deus. Mas também não estava certo, falarem assim, daquela maneira, com as criancinhas!

17 de setembro de 2009

Mulheres de arte e coragem

Não pintaram quadros, nem escreveram livros, mas construíram verdadeiras obras de arte, tecidas com o fio da vida, de ponto em lágrima e laçada em riso.
Eram rendas, rendas que hoje permanecem connosco, quem sabe algumas guardadas na arca ou no fundo de uma gaveta porque os imperativos da moda deixaram de valorizar tais virtudes.
Tenho o privilégio de possuir parte deste espólio e de me perder inúmeras vezes nele, num reencontro com o passado.
Observo cada pormenor inscrito nos pontos altos e baixos que desenham flores e formas e tento adivinhar os pensamentos, as emoções e as vivências das suas obreiras e que subtilmente se entrelaçaram nas rendas, materializando assim as suas memórias.
Gosto de imaginar que ainda estão connosco desta forma. Sentir assim, a arte e a coragem que enlaçou as suas vidas, até ao fim.
Reconforto-me nestas lembranças, nas suas referências e nos seus exemplos e sigo em frente. Sabendo de onde venho, saberei sempre para onde devo ir.
Procuro todos os dias ser mais o que faço do que o que digo, ou então ser o que digo naquilo que faço.
Quando olho para as rendas que com mestria fizeram, sei o que permanecerá de mim um dia, se houver alguém que se reconforte também na minha memória.
Se hoje trago comigo o estandarte das minhas origens é para que amanhã, o cunho da minha lembrança tenha inscrito o orgulho de ter uma família e de ser filha e neta de quem sou!


15 de julho de 2009

Detalhe precioso


Nem sempre sabemos exactamente, porque fazemos algumas coisas.

Por isso, ainda hoje não sei todas as razões pelas quais criei há um ano este espaço.

Mas todas são igualmente válidas e importantes, tenho a certeza.

Sei porque lhe chamei " Pequenos Detalhes ".

Afinal são os detalhes, os pequenos, que marcam a diferença.

Sem os detalhes, a monotonia do que parece ser igual, desvia-nos a atenção do que é realmente diferente...

Ao longo deste ano, este meu espaço de escrita que agora é nosso, tem sido partilhado, acarinhado e enriquecido por outros detalhes, que lhe dão brilho e calor...

O carinho das palavras é um detalhe precioso! Obrigado!

Não sei todas as razões pelas quais eu quero manter este espaço.

Decido continuar...

É tão bom saber-vos aqui!




O selinho foi feito com todo o carinho da Mariazita, que assim brindou este aniversário. Com o mesmo carinho eu o ofereço a cada um de vós, para que o levem ou o deixem ficar, conforme vos apetecer.
Guardem sim, o meu sincero apreço pela vossa visita.

2 de julho de 2009

Pre(ocupações)



Confesso que tenho andado ocupada!

Nunca gostei de me pre(ocupar) mais do que o necessário. É que se andarmos às voltas com o mesmo assunto, durante muito tempo, perdemos a oportunidade de nos ocuparmos realmente com o que nos pre(ocupa).

Claro que a pre(ocupação) é importante, é com ela que se questiona o assunto, se levantam as hipóteses, se desenham e ensaiam os cenários… Mas não nos esqueçamos da sua verdadeira razão de ser : a preparação e o planeamento do que deverá ser a nossa ocupação!

Não vou negar que muitas vezes me sinto tentada a ficar pre(ocupada) durante mais tempo, numa espécie de masoquismo frenético e depressivo, que me faz sentir que faça o que fizer não resolverei o assunto. Nessas alturas a minha cabeça quase “explode” de dor e cansaço presa nesse beco sem saída.

Mas rapidamente ponho um ponto final em tal subtil tentação.

“Não podes continuar assim, minha querida.” Penso em voz alta nesses momentos, correndo o risco de alguém me ouvir nesse monólogo e pensar que a lucidez me abandonou definitivamente ,com tanta pre(ocupação). “ Tens de fazer alguma coisa, passar à ocupação para teres obra feita!”

Deixo então de dizer: “ Tenho de fazer isto” e faço-o!
Deixo de lamentar o que não tenho e luto para merece-lo!
Paro de chorar o que perdi e trabalho para o obter de novo!

Ocuparmo-nos é como reconhecer uma dádiva, porque ocupação é vida.

Não passar da pre(ocupação) é um desperdício.

Em qualquer momento, mesmo que conscientes de que já não teremos todo o tempo para concretizar tudo o que gostaríamos, teremos decerto a oportunidade de fazer alguma coisa!

Basta para isso, que nos mantenhamos ocupados…

23 de junho de 2009

De olhos fechados


Faço diariamente uma pequena caminhada desde o hospital até ao carro, e com ela retomo a vida que está para além do trabalho intenso, onde a mente e o corpo se ocupam concentradamente em cuidar da criança doente.
Neste pequeno percurso, que faço quase sempre com a serenidade de missão diária cumprida, procuro ver o que me rodeia para além do óbvio, como se tivesse a necessidade de absorver a vida que pulsa em contextos de normalidade.
Há dias, reparei num jovem que caminhava a passo ritmado e perfeitamente linear. Nada seria fora do comum, não fosse caminhar também ao seu lado esquerdo, um cão guia que ele segurava pelo arnês, depositando nele a confiança perdida nos olhos incapazes.
Acompanhei aquele percurso em que ambos seguiam compenetrados na missão de chegar a um determinado destino. O passeio onde seguiam era largo e eles, lado a lado, caminhavam sem dificuldade. A dado momento e desenhando uma curva à esquerda, o mesmo passeio apresentou-se abruptamente reduzido a metade na sua largura, pela presença de árvores seculares que lá marcam presença, oferecendo a quem passa, um misto de história, frescura e sombra verdejante, lufada de ar fresco em cidades compactadas de tijolo, automóveis e poluição.
Não consegui detectar um único segundo de hesitação do cão, nem qualquer passo mais reduzido do dono. De imediato, o Labrador encostou-se totalmente ao muro, de tal forma que era possível ver o seu pelo claro a roçar na parede rugosa. Ambos continuaram o caminho, no mesmo ritmo, na mesma concentração.
Talvez o jovem nem se apercebesse que entre ele e as árvores, sobravam apenas alguns escassos centímetros. O cão guia, esse sabia com certeza que para o seu dono caminhar seguro, era preciso comprimir o seu corpo, o máximo que pudesse, contra aquela parede.
Fiquei a pensar nesta lição de confiança e amizade.
Fiquei a pensar em quantos de nós, em tantos momentos da vida, sentimos a falta de alguém que nos ofereça amizade e segurança, caminhando ao nosso lado. Alguém em quem possamos confiar de olhos fechados.

17 de maio de 2009

A gentileza de ver para além de olhar...


A cena passou-se num qualquer dia, a uma hora matinal, daquelas em que raramente existem lugares sentados disponíveis em qualquer meio de transporte público.

Clara apanhou o Metro religiosamente à mesma hora e como sempre, ficou de pé. Já estava habituada.

Tinha aprendido a gostar daquele equilíbrio instável, sentia-se suavemente embalada pela carruagem e era assim que durante os quarenta minutos que durava a sua viagem, se entretinha a observar aqueles que viajavam consigo.

Os rostos habituais, alguns mais cansados que no dia anterior e rostos diferentes, absortos nos seus próprios pensamentos e alheios ao que se passava em redor.

Pessoas tão diferentes, fisicamente tão juntas ali, por breves minutos, mantendo o anonimato das suas vidas. Que vidas? Que preocupações? Que sentimentos? Que pensamentos?

Pessoas tão distantes umas das outras!

As portas da carruagem abriram-se de par em par e entre mais de uma dezena de pessoas, entrou alguém com idade suficientemente avançada, para ser notada. Mas não foi.

Clara olhou à sua volta, para as pessoas que estavam sentadas. Os rostos continuavam lá, mas os olhares estavam ausentes, como que acometidos por uma espécie de transe matinal que lhes mantinha a sonolência nocturna.

A carruagem recomeçou a sua marcha e naquele solavanco, a idosa senhora agarrou-se ao braço de Clara, pedindo-lhe desculpa por tão atrevido, mas absolutamente necessário gesto, para se manter de pé. Clara sorriu-lhe e disse-lhe que não fazia mal, que podia continuar agarrada ao seu braço.

Algumas pessoas olharam para elas, como se romper o silêncio fosse como infringir uma qualquer lei , punível com o olhar. Mas rapidamente voltaram ao estado apático inicial.

Clara achou que era o momento, inspirou fundo e deixou que a indignação tomasse conta do discurso…

“ Alguém terá a gentileza de se levantar um pouquinho mais cedo do que o habitual e dar o seu lugar a esta senhora, que já utilizou as pernas durante mais anos que qualquer um de nós?”

Os rostos viraram-se todos em sincronia, para Clara e depois para a velhinha. Os olhares tinham aquela expressão de quem é tomado por surpresa com o entoar de um trovão.

Um senhor logo se levantou, como se o despertador tivesse acabado de tocar, e a velhinha agradeceu a gentileza e lá se sentou no seu lugar, não antes de ter apertado o braço a Clara. Um sinal, um obrigado.

E tudo voltou a ser como havia sido, dez minutos atrás, a uma hora matinal de um dia entre outros, igual.




12 de maio de 2009

Ser Enfermeira

Ser enfermeira foi primeiro um apelo, a necessidade interior de cuidar do outro.
Depois foi luta, determinação, aprendizagem. Saber da ciência e da arte de assistir o ser humano.
Ser enfermeira, hoje é a minha vida, ou grande parte dela.
Sendo enfermeira eu aprendi mais sobre mim cuidando de quem precisa.
Sendo enfermeira eu evoluí como pessoa. Para dar é preciso ter.
Minorar o sofrimento de quem cuido é para mim uma missão. Uma fonte de energia.
Promovendo a vida dou sentido à minha existência.
É este o meu compromisso!


12 DE MAIO
DIA INTERNACIONAL DO ENFERMEIRO


Cuidar é actuar sobre o poder de existir, é possibilitar a libertação das
capacidades de cada ser humano para existir, para viver, cuidar é
definitivamente uma forma de promover a vida (Coliére, 1993).


12 de abril de 2009

Post-Scriptum


Naturalmente, alguns dos meus amigos e fieis leitores dos pequenos detalhes que aqui vou escrevendo, sentiram curiosidade em conhecer a continuação ou o desfecho da história do pequeno Ruben. Sinto-me assim, no dever de acrescentar algo mais ao que já foi escrito.


Uma vida tem muitas histórias e cada uma é apenas um pequeno fragmento, um pequeno pedaço de outras histórias, às vezes de outras vidas também.
A história do pequeno Ruben, é infelizmente idêntica à de muitas outras crianças, algumas órfãs de pais, outras de amor, respeito e dignidade. Mas cada criança é um ser único, com particularidades distintas de todas as outras. Por isso cada uma nos ensina sempre algo diferente, especial.
O Ruben permaneceu internado no Hospital, durante três meses, nesse período foi sempre acompanhado por uma equipa de profissionais e amigos que lhe devolveram a esperança e o ajudaram a sair gradualmente do choque traumático que viveu, de forma a poder verbalizar sentimentos, a recuperar as lágrimas e os sorrisos e a estar pronto para retomar a sua caminhada. Porque a vida de uma criança continua como a de toda a gente, mesmo que a infância fique suspensa no tempo ou presa na dor. Por isso é tão urgente reparar as feridas e os afectos, por isso é tão importante devolver-lhe, o mais rapidamente possível, o tempo e o direito de ser criança e de ter uma família que a ame e a faça sentir novamente feliz.
Durante o tempo em que esteve internado, manteve comigo uma relação especial, como será fácil de imaginar. O dia em que ele foi embora para uma Instituição da Segurança Social que o acolheu, toda a equipa se emocionou.
Ainda me lembro do seu abraço e dos seus olhos brilhantes.
Foi muito difícil vê-lo partir!
Um ano depois, soube que iria viver com uma família de acolhimento, naquele que hoje é o processo de pré-adopção. Depois... bem, depois tal como acontece com tantas outras crianças, perdi o rasto da sua história.
Talvez tenha sido devolvido à Instituição, por não corresponder às expectativas da família que o queria adoptar, aumentando a ferida psicológica da perda e da solidão com a da rejeição. (Como tantas vezes acontece, ainda hoje).
Talvez não tenha saído mais das Instituições de acolhimento que procuram dar a estas crianças tudo o que a vida lhes tirou, mas nunca conseguem substituir uma verdadeira família.
Talvez ele tenha encontrado uma família que o tenha amado e sentido como um verdadeiro filho. Talvez ele se tenha sentido amado e respeitado como tal.
Talvez ele tenha superado aquele terrível dia em que perdeu a mãe e os outros que se seguiram sem ela.
Talvez em algum momento, ele se tenha recordado de mim. Talvez...
Hoje terá 20 anos, o Ruben. Permanecerá sempre na minha vida, como aquele menino frágil, de 8 anos que um dia me chamou o seu "anjo da guarda" e me deu um pedaço de amor da sua vida rasgada.
Outros vieram depois dele, outros virão.
Os pequenos fragmentos das suas histórias, são algumas das minhas grandes lições de vida!

27 de janeiro de 2009

Para que reze a história...

Filho da Azinheira, como gostava sempre de dizer, nasceu naquela pequena aldeia do concelho de Oleiros, num tempo em que o mundo se circunscrevia ao perímetros dos pinheiros a perder de vista . Estes rodeavam as casas feitas de pedra e divisórias em madeira que hoje em abandono e ruínas ainda lá permanecem, apenas para fazer lembrar a história.
Em pequeno era traquinas, dizem!
Filho de gente pobre, guardava cabras com os irmãos, depois de chegar da escola, pelo meio daqueles montes e vales onde o pai era resineiro.
A mãe, cuidava da horta onde às vezes também plantava linho e tratava do porquito, que mais tarde haveria de salgar, curar os seus presuntos e os enchidos que dariam sustento à família.
Sempre mostrou orgulho pelos pais, e pela suas origens. Sempre nos transmitiu isso.
Aventurou-se por Lisboa ainda muito novo, apoiado pelo irmão mais velho. Foi empregado de mesa, e aproveitou ao longo da vida, todas as oportunidades para se tornar exímio nessa arte.
Foi militar de paz e de guerra e foi nessa guerra, à qual sobreviveu, que casou e viveu sem nunca a ter verdadeiramente compreendido.
Foi um especialista na minúcia da construção de um selo. Foi um homem rigoroso, orgulhoso e por vezes austero.
Nem sempre compreendeu e nem sempre foi compreendido. Mas foi um homem simples na sua essência, que soube transmitir, por linhas direitas e tortas, os valores do dever e da honra, da humildade e do trabalho.
Nem sempre foi a melhor pessoa, o melhor marido ou o melhor pai. E soube reconhecê-lo.
Fez um percurso, o seu percurso. Com ele condicionou outros, é verdade. Mas também foi condicionado!
Não deixou de aproveitar a segunda oportunidade que a vida lhe deu para ser diferente. E conseguiu. Orgulhou-se de o ter feito e eu também!
Foi meu Pai!
Faz hoje oito anos que partiu, e com tudo o que foi e o que viveu, continuará sempre presente na memória e na vida das suas filhas.

18 de setembro de 2008

A Paixão pelo saber

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Sócrates, filósofo grego que viveu entre 470 e 399 a.C, afirmou: “ Só sei que nada sei”. Esta frase famosa e vulgarmente utilizada, reflecte uma posição de humildade, face ao saber, como algo que está fora de nós, que não possuímos mas que devemos amar, buscando-o incessantemente.
A procura do conhecimento, como algo que nunca se possuí, transforma a forma como direccionamos a nossa vida e as nossas reflexões, numa manifesta vontade de aprender em cada momento, com cada experiência nossa e também com a dos outros.
Num mundo tão vasto, a capacidade criativa do homem e da natureza, acrescentam a cada segundo um universo de saberes e novos mistérios que nos deve impulsionar constantemente para a descoberta.
É esta paixão pelo saber que queremos que crianças e jovens sintam , que todos nós devemos cultivar, abdicando de posturas egocêntricas de sabedoria suprema ou da resignação da própria ignorância.
Ignorantes sim! Porque para além do facto de se ter consciência que nada se sabe, ser o primeiro passo para se procurar o conhecimento, ao assumirmos interiormente a postura humilde da aprendizagem, ficamos disponíveis para a vida e para tudo o que ela tem para nos ensinar.
E há tanto para saber…..

SABER SER... SABER ESTAR ; SABER SENTIR... SABER DAR;
SABER SABER… SABER FAZER;
SABER APRENDER…SABER EVOLUIR.