quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Amor em arco-íris




Entre as cores do arco-íris te encontrei
envolto nesse manto de perfume
o meu corpo cego de queixume
e o teu, sedento de paixão
Desnudámos com ternura, beijos loucos
em sedas de carícias tão guardadas
sossego de almas desejadas
sol e chuva em união
Foi assim que o nosso céu se coloriu
quando pintámos de amor a alvorada
num tempo em que não esperando nada
Uma doce lua nos sorriu


domingo, 1 de Novembro de 2009

O último pão por Deus


Era com a Fá e com a Belita que todos os anos eu percorria as ruas do meu bairro e arredores, com o saquinho apertado na mão. Mais velhas e mais afoitas, elas iam sempre à frente enquanto eu, querendo fazer-me pequenina, escondia-me atrás delas.
Porta a porta, nenhum batente ou campainha escapava à vontade irresistível de saber, qual a surpresa que nos reservavam as mãos gentis que quase sempre franqueavam a entrada.
Gostava daquele ritual e deixava sempre que a alegria das minhas amigas de infância me contagiasse. Mas havia alguma coisa no pedido de pão por Deus, que me empurrava para terceiro lugar na fila. Não sabia explicar, mas era como uma falsa declaração de fome que na realidade eu nunca tinha sentido. Uma mentira autorizada em nome da tradição, a que todos achavam graça. Ou quase todos.

- Então Maria João, não abres a tua saquinha?

E sem saber se primeiro agradecia ou abria o saco, fazia as duas coisas ao mesmo tempo e lá dentro misturava a vergonha com as castanhas e as bolachas já desfeitas, mais os rebuçados que melavam as romãs, as maçãs, os escudos e os centavos .
Um a um, conhecidos e desconhecidos, amigos e parentes eram chamados à oferenda e raras eram as portas que não se abriam. Os sorrisos adoçavam os pequenos nadas que enchiam as nossas saquinhas e a pouco e pouco, faziam-me sentir menos culpada por pedir algo que eu achava não necessitar.
E assim foi, durante pelo menos três ou quatro anos, sempre no dia 1 do mês de Novembro.
A última vez, calhou-me a mim bater àquela porta. Tinha oito anos e não conseguia já esconder-me atrás de ninguém.

- O que querem vocês, miúdas?

- Vimos pedir pão por Deus - disse eu quase a medo.

- Vocês têm cá uma lata… então com um corpinho já tão jeitoso para trabalhar, vêm pedir pão, logo no dia em que o padeiro não trabalha!? Tenham mas é juízo!

Fomos embora, mas apenas elas continuaram. Eu voltei para casa. Lá , o pão nunca faltava, mesmo nos dias em que era feriado.
No caminho, fui a pensar que realmente não estava certo, pedir pão quando não se tinha fome, mesmo que fosse em nome de Deus. Mas também não estava certo, falarem assim, daquela maneira, com as criancinhas!

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Hoje canta o poeta...



PEDRO HOMEM DE MELO







CUIDEI QUE TINHA MORRIDO




Ao passar pelo ribeiro
Onde às vezes me debruço
Fitou-me alguém corpo inteiro
Dobrado como um soluço
Pupilas negras tão lassas
Raízes iguais às minhas
Meu amor quando me enlaças
Por ventura as adivinhas
Meu amor quando me enlaças

Que palidez nesse rosto
Sob o lençol de luar
Tal e qual quem ao sol posto
Estivera a agonizar
Deram-me então por conselho
Tirar de mim o sentido
Mas depois vendo-me ao espelho
Cuidei que tinha morrido

Cuidei que tinha morrido



.... na voz de Amália Rodrigues

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Lugar de sonho




Cansada desfaleço nas margens do meu rio
Enquanto águas turbulentas se acalmam
Vergando por fim os juncos quebrados
E no sonho me levas, pássaro ferido
Sem força na asa para uma lágrima minha
Ao longe a aurora espreita, serena
Ajeitando o ninho para onde me levas
O único lugar onde morrem todas as madrugadas



( Imagem : Woman with a Parrot , de Gustave Courbet )

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Contos, ditos e escritos



O texto que abaixo trascrevo é uma adaptação livre e de autoria desconhecida de um texto original de João Ubaldo Ribeiro, publicado no Brasil, no Jornal do Meio Ambiente em 14 de Novembro de 2005.
O malogrado professor Eduardo Prado Coelho, chegou a ter conhecimento que lhe havia sido atribuida, falsa e levianamente, a autoria deste texto. Negou-o em nota que enviou ao Jornal O Publico e que ali foi publicada a 25 de Outubro de 2006.
Hoje, três anos depois de o ter feito, o seu nome ainda constava no final do texto que recebi por mail.
Repor novamente a verdade, é apenas uma das razões pelas quais ainda faz sentido reproduzir aqui no meu espaço o referido mail, apesar de sobejamente conhecido por muitos.
Outras incluem, a pertinência e a actualidade do seu conteúdo...


Precisa-se de matéria prima para construir um País


A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país.Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, lips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos ....e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país:- Onde a falta de pontualidade é um hábito;- Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.- Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
- Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.- Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.- Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
- Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.- Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.- Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.
Como “matéria prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa “CHICO-ESPERTICE PORTUGUESA” congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria-prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.
E não poderá fazer nada...
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?
Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa'” não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados!É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez.Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.
AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.
E você, o que pensa?.... *MEDITE*!


quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Isto dá que pensar (2)


Claro que já viu este filme!

Não?

Então veja !

Vale a pena acreditar que...



Esta ideia pode mudar o mundo!

Bem..., mesmo que não consiga mudar o mundo,

Pode mudar-nos a nós!

**

domingo, 11 de Outubro de 2009

Demências e dormências


Além, onde se perdem todas as lembranças
Adormeceram exaustas as esperanças
Que penduradas te seguiam
Além, o tempo passou traiçoeiro
Envelhecendo o caminho, que primeiro
Descalço te esperava
Além, sombra da tua própria ausência
Grito de dor ou demência
Inquietação ou quietude
Além é o lugar, a viagem
Espelho partido, miragem
Sinal da tua finitude

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Dasabafos


Inundaram-se teus olhos gratos
Procurando alento, os perdidos
Caíram do ninho desfeito
Restos de orvalhos feridos

Pousaram nos meus já cansados
Que de sol e lua se atrevem
Mesmo que nada levem
Os teus lá, ficam guardados

Esconde em mim teus segredos
Virás buscá-los um dia
Com eles enxoto os meus medos
Sem eles, não sei que seria

Despe então o desalento
Que te amarra a corrida
Mais do que este momento
A tua missão é a vida

E ao vento lanço teus ais
Essa busca amargurada
Se não sabes bem como vais
Segue nua, vai sem culpa, vai sem nada

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Para onde vou....


Para onde vais?
Perguntas a medo…

Sou um leme, uma vela
Sou barco com rumo
Que dorme em teu cais
Em segredo…

Para onde vais?
Queres mesmo saber…

Vou pintar de água doce
O mar que navegas
Com o coração
A bater....

Não me perguntes mais
Para onde vais?

Irei, serei, aqui e tão só
Pedra nua, suave nevoeiro
Uma alma que se cola à tua
E assim, abraça o mundo inteiro



A foto, que é minha, é o registo de uma das margens do Douro, num dia calmo em Raiva .

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Mulheres de arte e coragem

Não pintaram quadros, nem escreveram livros, mas construíram verdadeiras obras de arte, tecidas com o fio da vida, de ponto em lágrima e laçada em riso.
Eram rendas, rendas que hoje permanecem connosco, quem sabe algumas guardadas na arca ou no fundo de uma gaveta porque os imperativos da moda deixaram de valorizar tais virtudes.
Tenho o privilégio de possuir parte deste espólio e de me perder inúmeras vezes nele, num reencontro com o passado.
Observo cada pormenor inscrito nos pontos altos e baixos que desenham flores e formas e tento adivinhar os pensamentos, as emoções e as vivências das suas obreiras e que subtilmente se entrelaçaram nas rendas, materializando assim as suas memórias.
Gosto de imaginar que ainda estão connosco desta forma. Sentir assim, a arte e a coragem que enlaçou as suas vidas, até ao fim.
Reconforto-me nestas lembranças, nas suas referências e nos seus exemplos e sigo em frente. Sabendo de onde venho, saberei sempre para onde devo ir.
Procuro todos os dias ser mais o que faço do que o que digo, ou então ser o que digo naquilo que faço.
Quando olho para as rendas que com mestria fizeram, sei o que permanecerá de mim um dia, se houver alguém que se reconforte também na minha memória.
Se hoje trago comigo o estandarte das minhas origens é para que amanhã, o cunho da minha lembrança tenha inscrito o orgulho de ter uma família e de ser filha e neta de quem sou!