28 de dezembro de 2012

Guardadores de estrelas


Se virmos o mundo pelos olhos de uma criança, talvez não deixemos de acreditar que é possível guardar, apenas num quarto de lua, o universo inteiro das nossas estrelas. 
Talvez seja urgente voltar a ver o mundo dessa forma, para que a esperança continue a ser a luz maior que nos ilumina quando tudo parece escurecer.  




Que o Novo Ano não vos retire nada do que de bom a vida já vos deu e vos acrescente, com tudo o que falta vos faz.

Que nada nos demova de continuarmos a ser guardadores de estrelas.

BOM ANO



20 de dezembro de 2012

À Tua espera




Quantas vezes foi Natal dentro de mim?
E quantas vezes não o foi, só porque me ausentei do sonho e tombei em queda à beira do meu corpo?
Desta vez, juro que sonharei de novo para Te pressentir chegar.
Juro que farei um esforço para não cair do céu, precocemente.
Preciso tanto que afagues este meu coração cansado e todas as histórias tristes que lhe deram de presente.

   
FELIZ NATAL
 
 

13 de dezembro de 2012

Corações de inverno





Algo me entristece neste mundo
Que se vê agora mundo no cume dos pinheiros
Nesta chama humana e quente
Que em Dezembro
Aquece o espaço gelado das mãos
E embrulha de mil abraços
A solidão das pedras
As paredes silenciosas das casas
Os olhos tristes dos meninos
As bocas a salivar miséria
E a história sem memória
No regaço dos velhos.

Algo me entristece
Nesta luminosidade nova
Neste jardim florido
Em corações de inverno
Que exuberantes
Fazem nascer em poucos dias
O que neles morrerá em breve
E parecia ser eterno.



7 de dezembro de 2012

Claridades



duy huynh

Vale a pena
Cerzir o peito de silêncio e de renda
Até ser seda
E sem asas ter voos transbordantes
Veem melhor os olhos sem poeira
As paisagens, dos olhos mais distantes.



   

22 de outubro de 2012





Levo os olhos até ao fundo do mar
volto já
vou à procura do céu 
que existia na minha boca.



" Girl in the sea" - Denis Nunez Rodriguez

19 de outubro de 2012

Cara a cara com a maldade





Colocas-te acima do céu e, por isso, estás tão longe do mundo que não tens nenhum rosto onde te vejas, onde percebas o quanto estás só e te perdeste de dignidade e esperança.
Vem, não fujas nem te escondas atrás do sol, as nuvens são muitas e há um momento em que tudo escurece porque o brilho é efémero. Crava as tuas mãos aqui, na terra, e verás que também é dor e sangue o que trazes nos dedos. É aqui que tudo faz sentido, se te olhares frente a frente com outra gente e te deres conta que tens um coração inacabado, e o tempo é um espaço demasiado escasso para o preencheres de maldade.


14 de outubro de 2012

Lugares quietos




Tão lentos são os gestos
tomados de Outono.

O corpo adormece devagar
rendido ao peso espesso das nuvens
sobre as pálpebras quase fechadas.

Nos ramos das árvores
a nudez tem um segredo
onde te espelhas
onde nada acrescentas
porque tudo se escreve
no ciclo do tempo.

Pegas em duas gotas de chuva
e nelas pousas a alma
e a sombra da tua natureza.

Morres ou adormeces
pouco te importa.

Há um caminho certo
por onde vais devagar
até ao âmago da terra

O lugar quieto
onde nascem as montanhas.




Imagem:  Robert and Shana ParkeHarrison- Gray Dawn (2006)  


11 de outubro de 2012

Ponto a ponto se escreve um conto




Um desafio é um desafio, uma porta aberta que nos convida. Foi assim que aceitei o repto vindo da Lídia Borges do Searas de Versos, e colaboro nesta história escrita a “vários teclados”. O texto, que dá corpo ao desafio " Acrescenta-se um ponto", conta já com várias participações e as regras são as seguintes:


1 - O texto, constituído por vinte parágrafos, terá início no blogue "O Sabor da Palavra" (http://osabordapalavra.blogspot.com), segundo o seu autor Gonçalo Cardoso. 
2 - Cada bloguista terá direito a um parágrafo do texto com o máximo de cinco linhas. Não é taxativo, tanto pode ser mais ou menos, mas sem exageros. 
3 - Após a realização do parágrafo respectivo, cada bloguista terá que selecionar outro bloguista que cumpra a continuidade do texto, segundo as regras mencionadas. 
4 - Cada bloguista terá o limite máximo de três dias para realização do parágrafo, estando sujeito a desclassificação da rubrica e seleção de novo bloguista por parte do seu autor. 
5 - Cada bloguista assinará o seu nome e respectivo blogue na lista dos participantes.
6 - O último participante ou autor do vigésimo parágrafo, finalizará o texto e partilhará com o autor do blogue "O Sabor da Palavra" para a sua divulgação no blogue inicial.
7 - Sejam criativos.

Lista de Participantes:

1 - Gonçalo Cardoso (O Sabor da Palavra)
2 - Buxexinhas (Pedacinhos de mim...) 
3 - Karochinha (O Meu Eu) 
4 - A Minha Essência (Roupa Prática) 
5 - Olívia Palito (Olívia Palito no País das Maravilhas) 
6 - L'Enfant Terrible (L'Enfant Terrible Lx) 
7 - Utena (Os meus idealismos)
8 - Alexandra Martinho (Ouso Escrever) 
9 - AC ( nadadecoisanenhuma) 
10 - Poppy (Apontamentos de Luz) 
11 - Briseis (do meu pedestal) 
12 - Teté (Quiproquó) 
13 - Vitor (PreDatado)
14 - Rogério Pereira (Conversa Avinagrada)
15 – Lídia Borges (Searas de Versos ) 
16 - Maria João Martins ( Pequenos Detalhes )
17 - 
18 - 
19 - 
20 - 


E começa assim: 

 "Já tinha dobrado as duas da manhã. Estava a sair da emissão de rádio, incomodado com um ouvinte que alegava a minha falta de isenção jornalística. Segundo ele, apenas dava voz aos ouvintes do sexo feminino e os temas escolhidos revelavam uma tremenda homofobia. Estapafúrdio, dizia para mim! Mas para o exterior resolvi o problema com a introdução de uma música de intervenção social. E assim fechei o programa. Peguei na mala, desci as escadas em direcção ao parque subterrâneo e ao chegar junto do carro encontrei um segredo envenenado..." 

 “No seu vestido vermelho delineado na pele, ela olhava-me intensamente recostada no capô do meu carro, como um lince que espera a sua presa. Por momentos o meu coração parou de bater. ‘Voltou…’, pensei angustiantemente. Fantasmas do passado e segredos escondidos no recanto mais negro do meu ser… Renascidos da minha cinza. Em passos lentos, dirigi-me a ela. As palavras silenciosas do seu olhar disseram-me para onde ela me levaria. Entrámos no carro seguindo para o local temido…”

 "...por ambos. Aquela falésia onde, alguns anos antes, a tragédia se abatera sobre as suas vidas alterou os seus futuros para sempre. E todos os anos, no mesmo dia, encontravam-se antes do amanhecer, naquela pedaço de rocha que se erguia sobre o mar, numa esperança vã de expiarem os seus pecados mais profundos. Chegados ao local, saíram do carro e mais uma vez, as suas mãos encontraram-se e uniram-se, os seus corpos aproximaram-se e ela disse-lhe:"

 "... Com a voz tremida, sussurrada, gélida, com a postura hirta e consciente do momento, Amanda começa a debitar desenfreadamente como tudo aconteceu, naquela fatídica noite... ... "Não tive culpa! Não tive! Acredita em mim, por favor! Foi um acidente. Foi ele que escorregou da falésia, ele!" - Sedutora mas ao mesmo tempo frágil, ela sabia exactamente como emaranhar um homem na sua teia. Sabia exactamente a palavra certa a ser usada, o gesto proveniente, o olhar mais assertivo para a ocasião. Manhosa, laça-o num envolvente abraço onde o choro compulsivo é o senhor do momento. Entre soluços mas, com uma voz doce, repete incessantemente, "não fui eu! Não fui eu!" - Com o rosto apoiado no peito de Edmundo, via-se claramente o sorriso dissimulado que fazia. Ele, estava completamente rendido à fragilidade dela mas, ao contrário do que ela pensava, que o tinha nas suas mãos, Edmundo, também tinha algo a dizer..."

 "... acerca daquela fatídica noite. Edmundo fixou o olhar na falésia e ficou em silêncio por alguns segundos, enquanto os braços de Amanda o envolviam. De repente, ficou tudo absolutamente claro na cabeça de Edmundo, as peças do puzzle mental começavam a encaixar-se na perfeição. Lembrou-se da conversa off record que tivera com o inspector da polícia acerca do relatório da autópsia de Fred. Segundo o mesmo relatório, Fred havia ingerido uma dose substancial de whisky, confirmando assim o álibi de Amanda, de que Fred se desequilibrara e caíra daquela falésia. Porém, fez-se luz e um pormenor fulcral escapara a ambos: ao inspector da polícia e a Amanda, mas não a Edmundo..."

 "...isto porque Fred não bebia whisky, sofria de doença celíaca, de modo que tudo o que contivesse glúten, o que incluía bebidas feitas de malte, não lhe passavam pela garganta. Por outro lado a revelação Fred fizera a Edmundo um dia antes da tragédia era de todo desconcertante, tanto mais que de dizia respeito aos três, sendo que conteúdo da mesma tivera desde então um profundo impacto em Edmundo, ao ponto de o mesmo perder parte da sua imparcialidade jornalística. Ainda assim, envolto no choro soluçado de Amanda, Edmundo era incapaz de proferir uma palavra, de partilhar com ela o que pensava porque havia mais um elemento em jogo, uma dúvida perene que o levava a sentir-se tal como o mar revolto e sem definição que vislumbrava no horizonte..."

 “Não querendo mas ao mesmo tempo sem conseguir parar a maré das lembranças chegou-lhe à memória aquela noite que hoje lhe dava o conhecimento do facto de Fred não beber whisky. Fred confessou-lhe num ousado momento de coragem que se sentia atraído por Edmundo e que isso o deixava sem saber como agir pois nunca tinha sentido isso por homem nenhum já que sempre fora um mulherengo por natureza! A convivência dos dois, muito por culpa de Amanda, o lamber das feridas causadas por esta mulher de escrúpulos nulos tinha feito com que os sentimentos florescessem em dois homens que mesmo nada indicando que assim fosse os levou a sentir o que para ambos deveria ser tabu. Edmundo voltou a realidade com um soluço mais audível de Amanda e quando à olhava no profundo dos seus olhos verdes deu-se conta…”

 "...deu-se conta do quanto aquela mulher já havia sofrido. Fred horas antes de falecer havia contado a Edmundo que Amanda aos 20 anos se havia submetido a uma cirurgia de retribuição sexual. Sim, Amanda fora um menino em outros tempos, mas hoje era aquilo a que Fred e Edmundo chamavam de tentação. Edmundo olhava-a e um misto de sentimentos lhe assolavam a mente, perdera alguém que lhe era muito próximo, um amigo, mas também, um silencioso admirador. E ali, diante de seus olhos estava a mulher indefesa e esbelta que soluçava e por quem ele era estupidamente apaixonado, mas que carregava tão pesado segredo. Segredo esse que toda a sociedade condenava e condena. Edmundo perturbado necessita voltar, ir ao encontro do seu pedaço de chão para meditar e montar todo aquele puzzle confuso. Suplicou-lhe - "Amanda, necessito ir, vamos?". Amanda para ele olhou, com olhar fugaz, e disse..."

 "...És um homem cruel senão me aceitas como sou. E se assim for sem dúvida que não me mereces.Sou especial, sou única e estou disponível para te amar, com tudo o que tenho para te oferecer, mas jamais partilharia a minha vida ou o meu corpo, com quem olhasse para mim com desprezo ou nojo. Sendo assim cuida-te, olha para ti, observa-te com atenção e vais reparar em todos os teus defeitos... por agora vou apenas embrulhar-me no teu casaco sentir o teu cheiro e o teu calor que são presença nele e esperar que tu abras os olhos e possas ver para além do físico, do estereotipo e do preconceito a mulher que hoje eu sou...estou aqui, estarei sempre aqui para ti... de braços abertos...anda, decide-te não tenho o tempo todo..."

 "... Mas na cabeça de Edmundo cada vez mais as dúvidas e as desconfianças se instalaram. Havia demasiadas incongruências em torno daquela noite e um relatório conivente com o que Amanda lhe dizia mas contrário ao que conhecia de Fred, este jamais poderia ter bebido Whisky naquela noite. Não estavam em causa os desejos que nutria por aquela mulher, não se colocava em questão as mudanças de sexo, o que lhe assolapava as ideias era tão somente o que teria sido capaz de fazer aquela mulher de escrúpulos nulos, de vermelho vestida se soubesse do que acontecera entre eles, não foi capaz de lhe dizer mais nada. Levou-a a casa e naquele momento só uma coisa lhe ocorria, tinha de estar com o inspector responsável pela investigação..."

 "O encontro perturbador, aliado ao adiantado da hora, tinha um efeito nefasto sobre a sua lucidez. Conduzia como um autómato, a cabeça longe, muito longe da estrada por onde os olhos passavam. Era de noite, ainda. Para não enlouquecer durante as longas horas que antecediam a manhã e a sua oportunidade de falar com o inspector, foi para casa, tomou um banho tão quente quanto conseguiu tolerar e, ainda com o cabelo a pingar água e a pele a fumegar vapor, sentou-se a escrever a sua versão dos factos, a sua memória dos acontecimentos, caso algo lhe acontecesse... Escreveu tudo, longamente, e concluiu com a revelação do facto mais bem guardado:"

 "Fred confessara-lhe o ciúme que sentia de Amanda! Sem nunca lhe ter revelado, adivinhara a paixão e o desejo que transpareciam nos seus olhos quando ela aparecia em cena, naquele misto de sedução e de fragilidade que tanto o cativavam. Parou de escrever. E se...? Não, não era possível, que o amigo chegasse tão longe... Ele andava perturbado - os credores avolumavam-se à sua porta! - mas suicidar-se?!? Deixando no ar a suspeita de Amanda ser a culpada pela sua morte?!? Mas porquê aquelas revelações súbitas e inesperadas, poucas horas antes daquela fatídica noite? Era um plano macabro demais para ser verdade..."

 "Levantou-se, abriu as janelas de par em par e, debruçado sobre o parapeito, olhou as estrelas. Voltou para dentro apenas o tempo suficiente para apagar a luz. Não havia luar e assim o céu ficava mais bonito. Acendeu um cigarro, deu-lhe duas baforadas e voltou a contemplar as estrelas. Com Amanda e Fred na cabeça, ia falando consigo próprio. Aos poucos foi-se descontraindo no fumo do cigarro, na tentativa de ainda se lembrar do nome das constelações. Aquela é a Ursa Menor, aquela a Cassiopeia, aquela o Cão Maior. Raios! Porque não se lembrou antes disso? Fez um telefonema para Irina. Ela costumava ficar com o cão de Fred quando este se ausentava."

"A visita a casa de Irina foi demorada e difícil para ambos. A conversa  parecia não ter nexo, com Irina a tentar explicar o inexplicável de aquela carta de Fred só passados três anos aparecer. Irina estendera-lha com mãos nervosas e foi com mãos nervosas que a Armando a recebera. Despediram-se com o luto nos olhos e sem uma palavra. Na rua e, depois, pelo caminho leu e releu o texto do sobrescrito cuja letra lhe era familiar. Em casa, levou um tempo tremendo até vencer o medo e  abrir a carta que lhe era dirigida: Meu querido amigo, quando leres estas linhas já terei partido. Não vos julgo nem culpo. E a haver culpados culpo a indignidade que me foi dada por uma vida que já não merece ser vivida. Não há uma só situação a explicar este meu acto, que muitos considerarão tresloucado. Foi tudo. Foi a minha incapacidade de vos amar. Foi a minha confusa sexualidade. Foram as dívidas acumuladas. Foi o desemprego e a incapacidade de encontrar alternativas. Foi a minha marginalização no partido. Foi tudo isso e ainda..."


" Fez uma pausa na leitura para macerar uma lágrima teimosa e acalmar o lamento que se contorcia no seu coração, agora que a tese do suicídio lhe parecia ganhar consistência. 
 Pobre Fred! – pensava - Como fora possível ter chegado a tal estado de desespero sem que ele, seu amigo íntimo, se tivesse apercebido? O mundo está inquinado de indiferença. O mundo, o mundo... Mas que mundo? As pessoas são o mundo, o mundo é as pessoas e, cada uma delas, um fragmento fraco de um todo forte, mas incompreensivelmente ignorado.
Edmundo deixou cair os olhos húmidos sobre a folha de papel que lhe ficara esquecida nas mãos e continuou a ler:
      Foi tudo isso e ainda alguma coisa inominável e paralisante. Algo que não me permite lutar contra o medo. O medo da solidão, o medo de ver, de vislumbrar mais uma manhã sem esperança nem projectos…
 O longo e estridente “trimmmm” da campainha que subitamente encheu a casa, fê-lo estremecer. Pousou a carta na estante, entre os livros e dirigiu-se para a porta sem disfarçar um gesto de desagrado. "


Ao abrir a porta não conseguiu disfarçar o espanto. “ O Senhor aqui, Inspector Madureira?” - O inspector reparou no semblante cansado e transtornado daquele homem que lhe franqueava a entrada. “ Bom dia, Edmundo! Não se assuste, estou aqui no seguimento da investigação da morte de Fred Campos, ou melhor, do homicídio do seu amigo. Temos razões para acreditar que o senhor, neste momento, corre risco de vida.” – Edmundo sentiu-se perdido no meio de tantas dúvidas e revelações. Tudo lhe parecia cada vez mais confuso e surreal. “ Não, não, inspector! Fred suicidou-se. Tenho aqui a carta que o comprova” – e dito isto, foi buscar a carta que tinha pousado na estante e que não acabara de ler.  Madureira agarrou nela com curiosidade e leu-a demoradamente. “ Onde estava esta carta?” – perguntou. Edmundo explicou-lhe como Irina a tinha encontrado, só agora, deixada por Fred dentro de um livro que ela lhe havia emprestado. “ Está a ver, Fred queria suicidar-se...” “ Pois queria..."- anuiu o inspector. "... mas temo que isso não tenha chegado a acontecer, meu amigo. Há detalhes da investigação que você desconhece e esta carta pode explicar muita coisa. Venha comigo até à judiciária, vou precisar de si !"


Entrego agora o texto à Filoxera do  “Escrito a quente” que contribuirá para os passos finais deste intrincado caso. Confesso que estou muito curiosa.!


25 de setembro de 2012

Crepúsculo





Quero a noite que é minha
Não sei como respirar este fim de tarde
Os ninhos estão vazios
E pesa-me a angústia desabrigada dos pássaros.




Imagem: Vilhelm Hammershøi

17 de setembro de 2012

Rios de gente




Desconstroem-se
Os movimentos assilábicos da língua
Dentro da boca
E desatam-se os nós das palavras
Que dão corpo à memória.
Somos um passado que nos pesa
E ora nos prende, ora nos liberta
Penas a formarem asas
Numa dor que já não tem suporte nos dedos
E se escreve nas ruas
Para dizer azul, vermelho ou verde
Como um pincel sobre a tela branca dos olhos
Num rosto maior de presente
A traçar novas margens.

Como são belos os rios
Feitos de gente
Tão humano e quente é o seu sangue
Essa voz rasgada das suas águas.



11 de setembro de 2012

Dança de renúncias





Este é o tempo de envelhecer árvores
Há no chão o reboliço das folhas que se despedem
Vão com o vento, expulsas de ramos e raízes
E embora cansadas, secas e tristes
Giram sobre si a cortar silêncios
Assim se elevam em cada fim de tarde
Deste tempo de envelhecer árvores
Numa persistente dança de renúncias.  



3 de setembro de 2012

No deserto das sementeiras





Apagou-se aquela luz inteira
sobre a terra a entristecer
o vento é de cinzas sobre os olhos
na boca o pó
a morte das sílabas.

Que nos resta
se não é de sal a água dos nossos rios?

Repovoemos as entranhas 
do chão
este lugar inóspito
de coração e alma
 e lavremos de novo
à beira mar
um jardim de pássaros
mastros e velas
palavras com raízes
céus de sol e outras estrelas.

Presos ao rescaldo
só as sombras tomarão os rostos
no deserto das sementeiras.



30 de agosto de 2012

Sonhar de novo



Couple in Window - Marc Chagall"


Quero ver-te
Perscrutar no teu rosto a alma que em ti deixei, há tanto tempo
Num tempo em que me ajeitava, nesse teu jeito peculiar
E me excedia em risos à porta de nossa casa
Céu e mar.

Quero ler-te
Saber dos caminhos e dos atalhos
De todas as luas e ausências
Se chorei, se chorámos
Quantas vezes nos abraçámos
Sem sabermos.

Porque te amei, porque nos amámos
Porque nos perdemos
Porque nos achámos
Quero ter-te
E sonhar de novo a vida inteira.


21 de agosto de 2012

Recomeço



Recomeço.

Pego na flor de linho como se fosse um pequeno pedaço de céu, e sacio-me na sua vontade de ser, manto ou véu, o mais fino pano sob o manjar dos deuses.
Olho-me para dentro, seguro firmemente nas pontas desfiadas dos dias iguais, detenho-me nos nós lenhosos e nos sarilhos do fio, e recomeço, de lágrimas pregadas na saia e de fuso na mão, sem medo de picar os dedos, fiando e bordando o tanto que me falta.

Para me amparar dos cansaços, trago o pólen colhido no silêncio das serras, no canto dos rios mansos, no gemido da terra quente, na resina viva das raízes levantadas ao vento e na festa louca das cigarras. Dentro do meu tear serei colmeia, onde as palavras se adoçam, as feridas sempre saram, e a luz não desiste de enxergar melhor o mundo.

Recomeço.

Entrego aos deuses os meus gestos pequenos, de mãos a crescerem no amor das abelhas, retalhos de  paisagem cravada na alma. Só eles sabem o que em mim valerá a pena, um dia, fazer-se poema.


31 de julho de 2012

Neste tempo de nada



Pegarei neste tempo de nada
E numa cesta de dias mornos
Guardarei o sermão das colinas
O perfume que resta dos pinheiros
E a seiva de sonhos novos.
Caules verdes a romperem cinzas.

À janela
Do meu peito de silêncio
Deixarei sentar o sol
A vida em flor das sardinheiras
E a saudade dos teus olhos.
Convosco darei a volta ao mundo
E beberei dos riachos
A candura das palavras
Que me agarram sempre à terra
E me salvam do abismo
Porque é neste tempo de nada
Que colho o tudo que preciso.

23 de julho de 2012

Meia-luz



Mais do que a dor de caminhar
É a respiração ácida das feridas que te cega
Não fosse isso
Talvez pudesses falar de mágoa
E rezar
De lágrimas nos olhos
Antes que tudo te anoiteça.




12 de julho de 2012

Uns pelos outros



Podíamos esperar uns pelos outros à beira de um lago cheio de azul.
Um fio de seda caberia na distância entre nós, e o espelho de água seria uma superfície clara onde entregaríamos, completos e íntegros, os traços dos nossos rostos. Os rostos e as palavras com que nos abraçaríamos. 
Podíamos estender os dedos à partilha da pele e sentir na alma a semelhança, na diferença das lágrimas. 
Podíamos caminhar lado a lado porque, afinal, os caminhos são tantos, mas as pedras são pedras e as asas são asas. 
Podíamos sonhar um sonho comum; como uma cesta de estrelas ou um pedaço de pão dividido pela fome e indiferente ao tamanho das bocas. 
Podíamos esperar uns pelos outros, mas a vida é tão breve e cada um de nós tem tanta pressa.



Pintura; Here Comes the Flood de Rob Gonsalves

6 de julho de 2012

Procura-se um Amigo



Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
Vinícius de Moraes



30 de junho de 2012

A arte de fazer parte




Na circunferência da terra, grande é a vinha e nela se contorcem as cepas, amparadas pela espera dos cachos. 
Oiço-lhes os carpidos, dissolvidos no assobio do vento e ajeito-lhes as parras de luz e de sombra.
Generosas, pedem-me que beba do bago, a transparência do sangue que lhes adoça a grainha e eu sinto em mim, o calor do néctar que nos une em pertença.

in: Do outro lado do espelho, (2011:p 60 )

19 de junho de 2012

Desertos de palavras



Entristecem os sorrisos

De coração atado dentro da boca
Não sabem como dizer
Que nas mãos, talvez ainda coubesse o verde das colinas
E nos olhos, a razão de todas as nascentes
Mas a voz exangue é uma escarpa, uma vereda
De saliva quente em poeira azeda
E as sílabas são ruínas dos olhares poentes

Definham no chão, os sorrisos
Na rua só se encontram
Desertos imensos de palavras. 

 


Pintura de; Shahrad Maked Fazeli



15 de junho de 2012

Sossego





Na calma deste jardim, há um sossegar de versos
Uma oração em repouso no veludo das pétalas
Só os olhos sem mágoa conseguem rezá-la
Só em paz se aprende a rezar dentro do silêncio.





1 de junho de 2012

Pelo brilho dos teus olhos




Antes que as tuas mãos se encham de medo
Neste lago imenso de águas inertes
E de lodo negro assente no fundo
Antes que o dia deixe de ser dia
Num mundo a deixar de ser mundo
Abençoada seja toda a promessa que se cumpra
Só pelos teus olhos
Só pelo brilho dos teus olhos
Pelo nenúfar a crescer-te nas pupilas.



Pintura: " Wish..." - Óleo sobre tela de  Iman Maleki

24 de maio de 2012

O sol de todos nós





Não, não era pintor. Mas um dia  pediu uma tela, uma grande tela onde coubesse o mundo visto pelos seus olhos.
Escolheu na loja os pincéis mais macios, sentiu o veludo das cerdas deslizando sobre a pele como se fossem carícias, soube-os seus e fechou os olhos para guardar no coração esse ponto indefinido de pertença. A maior dificuldade, foi ter-se visto perdido no imenso colorido das tintas. Queria-as todas, mas desconfiava que não teria tempo para se dedicar a cada uma em particular e, nesta impossibilidade, seleccionou sete, porque sete eram as cores da ponte que lhe elevava o sonho até ao céu, o céu que lhe crescia no peito e sabia existir, muito para além da dúvida contida nas nuvens. 
Escolheu o local,  a janela grande por onde lhe entrava a luz todas as manhãs. Todas? Bem, quase todas, porque havia dias de muita sombra, dias enormes de luz impossível. 
Não respondeu a perguntas, estava cansado de perguntas. Mesmo porque não havia resposta possível para aquela urgência de dizer o que não sabia, de fazer sair de si algo que fosse maior do que o seu  próprio tamanho. 
Não haveria respostas, estava cansado da ausência de respostas.
Fez-se à obra nos dias seguintes, como quem lê as derradeiras páginas de um livro e pressente o rumo da história, querendo acreditar num final diferente para a personagem.
Com sete cores e em sete dias, as mãos pequenas do Carlos pintaram aquele sol radioso  num céu de nuvens, a surgir ou a desaparecer, nunca saberemos, sobre o limite do mar. Estava feliz quando disse - Este é o meu sol, é para vocês.
Aos nossos olhos, aquele foi um momento inspirador, rasgado do interior da angústia. Chegou-nos assim, preso no último fio de lágrimas que a custo  se continham. Chegou-nos assim, a ensinar-nos uma nova forma de tecer, colorida, a palavra esperança.
Pendurámos o quadro na parede principal do serviço, a maior, aquela que o merecia e onde nos sentiríamos sempre iluminados. Afinal, aquele era o sol de todos nós.
O Carlos  foi um menino de 10 anos que morreu poucos meses depois de nos oferecer aquele quadro.
Hoje, apeteceu-me lembrá-lo aqui.  É que há crianças que gastam a vida à procura de vida. Nunca desistem e, antes de a perderem completamente, entregam-nos tudo o que conseguiram encontrar. 
E isso é tanto!



Nota - O quadro acima não é  o " sol" do Carlos, mas poderia ser, embora diferente aos olhos de cada um, o sol é o mesmo para todos nós. 

21 de maio de 2012

Espaço vivo



A realidade é um espaço vivo onde construímos a eternidade.
Um espaço onde o sol espera sem cansaço o seu próprio tempo de sorrir. E fá-lo, até que tudo seja claridade, e guardemos no fundo dos olhos o verdadeiro nome das coisas.




Imagem:
Vladimir Kush - " Waiting for Luck"  

14 de maio de 2012

Horas de água




São de água as horas que bebo
Fluídas e claras
Pingadas do sol das auroras
E do perfume das rosas bravias
Que florescem, fieis ao seu tempo
Esquecidas do impiedoso frio dos invernos.
Chegam no bico dos pássaros
Regressados ao ninho
E como um colo
Aquecem o espaço silencioso dos meus lábios
Reanimando palavras...
Todas as palavras que antes me pareceram inúteis.







13 de maio de 2012

Asa peregrina




Não tenho braços que cheguem ao fim do mar
Mas é inteiro este corpo
Que num lago se faz asa peregrina
Assim te louvo

Aqui te rezo
Neste altar de céu e terra.





12 de maio de 2012

Ser feliz a cuidar de quem sofre





Ser Enfermeira, fazer parte daqueles que se tornam mais Gente a cuidar de Gente, e sabem transformar os momentos em que a existência se torna tão breve e frágil, em oportunidades de coragem, vida e esperança, só pode ser um enorme privilégio e um incomensurável orgulho.



2 de maio de 2012

O abraço da memória


Margarida Cêpeda

Imóveis sob o pó, descansam agora os espaços e os gestos, como extensões permanentes  dos corpos que neles se moveram. Trajectos maiores que a própria vida. 
Ouves-lhes as vozes enquanto passas, e sentes acordar do silêncio o nome certo das coisas que julgavas teres esquecido. Esta é a casa que tem o coração nos teus olhos, e onde permanecerás sempre menina dentro dos seus braços. Já não existe tristeza aqui, antes um colo onde a saudade se aninha com fome de reencontro, e a tua alma não se sente só. 
Existe um mundo nesta casa onde cresceste. Um mundo dentro de outro mundo, tão infimo quanto a terra perante o universo inteiro, tão particular quanto o movimento em que te respiras. Daqui nasceu o chão para tu seres caminho e todas as florestas com que te cruzaste depois, não foram mais do que atalhos para regressares aqui, a este abraço da memória.


21 de abril de 2012

Saberes de pele



Nos lábios que deixei na infância
Havia um sabor diferente
Um saber terno de céu e de mar
Tão instintivo e primordial
Quanto o seio materno
Ou o mel das abelhas
Uma sede que me fazia sonhar
De mansinho por dentro das nuvens
À procura dos anjos sem lágrimas
E desse astro maior
Capaz de iluminar os dias tristes
E todos os degraus do mundo.

Havia nessa altura
Uma história de homens que me era desconhecida
Um gosto de sangue e sal que eu nunca experimentara
E no entanto
Vivia ao meu lado
Tão junto à minha pele
Que quando a vi, escrita nos meus olhos
Achei que tinha nascido comigo.




12 de abril de 2012

Do centro das árvores



Há tornados a nascerem do centro das árvores
Tácitos murmúrios de vento
Capazes de expulsarem raizes do fundo da terra
De as dizerem
Como eu digo
Sem que as flores desistam de serem fruto
Nem as promessas, lugares felizes
Onde acordamos a memória de sermos
Mais do que uma chaga cerzida
À flor da pele, pronta a sangrar de novo
Há um tempo que vive
No centro das árvores
Um tempo que persiste
E espera o tempo, serenamente
Porque só a morte tem pressa.



5 de abril de 2012

Partilhar





Partilhar com o outro o que se tem, por muito pouco que isso possa parecer, será  sempre um enorme gesto de amor autentico.

Páscoa Feliz !



31 de março de 2012

Vazia de azul





No mar

a espuma amarga
uma revolta
um fundo mais fundo
areia coberta de pedras

e  na minha boca

uma voz ferida
resignada
vazia de azul
a morrer-me de silêncio.


27 de março de 2012

Nuvens pesadas



« Nuvens pesadas suspensas sobre muitos homens não os deixam pensar.
Ainda que ergam a cabeça, estão isentos de ideias, de contrições e de amor.

É uma formula: um homem dedica o seu dia à escuridão do gesto, submete o corpo aos instintos mais pesados, toma banho de pijama, não olha pela janela nem atravessa pontes.

E o resultado: um dia de chumbo em excesso para o somatório de cicatrizes,
um nível abaixo do penteado.

A liberdade é, nestes casos, o maior desperdício de um homem-livro, uma tirania difícil de inalar.


Dão-lhe poesia e ele escreve tempestades.»


MENDES, Sílvio (2011: p. 46), Inéditos in: Golpe d'Asa
fotografia de Carlos Gotey

21 de março de 2012

Poesia



Disseram-te que sem palavras morrerias
num ponto qualquer indefinido
de tristeza.
Por isso vens, todos os dias
nascer à beira do lago dos poemas
para que os poetas, descalços
te contemplem
e sorvam da  pureza dos teus verbos
os  versos
capazes de nutrir o coração dos homens.



16 de março de 2012

Talvez me arrume...



Acordo para lá das horas, quando o dia já se viveu pela metade.
Uma espécie de caos instala-se em mim, invade-me as têmporas, cega-me os olhos, e rouba-me a harmonia em que sempre me protejo, como num casulo vazio de dúvidas.
Não sei o que me preocupa e, no entanto, tenho a mente ocupada de palavras, como se uma rebelião se anunciasse dentro do meu cérebro. Tropeço em mim e, na desordem, procuro organizar este amontoado de pensamentos que me interrogam, desarrumando as coisas certas. Olho-me ao espelho e não gosto de me ver aqui. Olho o meu corpo e não entendo, o que faço eu, regressada em atraso, a este espaço que me é cubículo de palavras. Queria não o ter habitado. Queria não ter voltado. Queria ser livre para me poder estender sobre as nuvens e deixar tombar, na terra ainda humedecida pelo choro da noite, este peso que me rouba o movimento espontâneo de mim mesma, sobre a superfície corpórea das coisas, onde me penso. Onde sou. Onde penso que sou.
Mas a terra já secou, na metade do dia que deixei morrer de inutilidade.
Escrevo.
Escolho ver-me no desenho das letras. O sol já vai alto, e talvez seja mais fácil descobrir na forma das minhas sombras, a mesquinhez da minha existência, e render-me assim, à grandeza do verbo que vive da eternidade do tempo em que se soletra, nos olhos de alguém. Escrevendo, talvez encontre utilidade nas mãos agarradas a estes braços que já se saturaram de mim, e solte dos dedos, uma espécie de ânsia de voar, aprisionada por esta minha natureza solitária. Escrevendo, talvez me arrume junto do entendimento das coisas inexplicáveis e, talvez, quem sabe, alguém me veja por dentro.



12 de março de 2012

Instantes escassos





Abre as mãos
e recebe a espuma do mar
são assim os dias felizes
claridades diluídas na concha das tuas mãos
instantes escassos
suspensos no movimento permanente das marés
a resistirem à fragilidade dos teus dedos.

Abre as mãos e abriga na alma
o que em ti fermentará
até ser
a vastidão do oceano que procuras.


9 de março de 2012

O que é extraordinário é a vida.



“ O que acho cada vez mais extraordinário é a vida!  A maravilha que é estarmos vivos.
É das coisas realmente excepcionais, estarmos vivos e lidarmos com vivos. Isso é que é o fundamental da minha experiência.
E agora, com esta experiência de doença que tenho tido, tenho aprendido o valor de certos pequenos instantes."


3 de março de 2012

Jardim de amores-perfeitos



Desfez-se o afogo das paredes
O sol arrumou-se no peito
E aqueceu o inverno das coisas.

Sem pressa

A cor foi tomando conta das memórias cinzentas
E a névoa levantou-se do meio das árvores

Coada no tempo

Escorrida
 Do silêncio nocturno da alma dos poetas.

De céu aberto
O jardim revela-se
Um coração arado de terra doce
Terra que é mãe, 
Sorriso eterno de primavera
Que traz no regaço o saber ameno
Onde florescem os amores-perfeitos.




27 de fevereiro de 2012

No avesso das máscaras


                       René Magritte, Le double secret, 1927, óleo sobre tela.

Somos a metade que é, e a outra que procura ser e se desconhece.
A que chega e a que parte, na troca de dias e noites a unirem uma só realidade à beira do crepúsculo. 
E nunca são iguais os mesmos rios no avesso das máscaras, porque diferentes são os rostos que plantamos nas margens, num tempo em que não nos sabemos e sofremos por nos tornarmos conscientes disso.