21 de abril de 2012

Saberes de pele



Nos lábios que deixei na infância
Havia um sabor diferente
Um saber terno de céu e de mar
Tão instintivo e primordial
Quanto o seio materno
Ou o mel das abelhas
Uma sede que me fazia sonhar
De mansinho por dentro das nuvens
À procura dos anjos sem lágrimas
E desse astro maior
Capaz de iluminar os dias tristes
E todos os degraus do mundo.

Havia nessa altura
Uma história de homens que me era desconhecida
Um gosto de sangue e sal que eu nunca experimentara
E no entanto
Vivia ao meu lado
Tão junto à minha pele
Que quando a vi, escrita nos meus olhos
Achei que tinha nascido comigo.




15 comentários:

A.S. disse...

Tudo nos é tão próximo Maria João... e tudo nos é tão breve!...


Abraços!
AL

Rogério Pereira disse...

É preciso ressuscitar
saberes do céu e do mar

Sabes, poeta?
Consegues passar ao lado
do saudosismo
e trazer tua memória.

Não é fácil...

Lídia Borges disse...

A memória da infância relaciona-se quase sempre com o mito da perfeição, um mito de belas asas brancas. As asas da inocência de que já falava Almeida Garrett:

"Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu."
[...]

Um beijo

Mel de Carvalho disse...

Há (bem sabes), uma memória colectiva a que acedemos, uma memória de pele, um caminho de alma. Por isso (também por isso), sabemos distinguir os nossos iguais nos caminhos sinuosos da vida...

Bem-hajas, Joãozinha. A tua escrita dignifica a arte de ser palavra.

Beijo
Mel

ponto e virgula disse...

momentos que vivem tão perto e tão distantes... que só a memória os vê.




a...té

Cris Tarcia disse...

Maria José, que lindo!

Beijos e uma boa semana

Filoxera disse...

A história salgada que brota dos nossos olhos é tão poética como a nossa forma de estar na vida...
Um abraço terno, amiga.

Mar Arável disse...

Quando as palavras brotam em flor

são belos jardins
pétalas de colher

BRANCAMAR disse...

Querida Maria João,

Não estive por cá no fim de semana, mas ainda vi na sexta-feira à noite esta tua menina-pura, com asas de ir ao céu, como o poema de Almeida Garrett, de que a Lídia fala.

Os teus versos deixaram-me presa à criança que sempre existe em nós e não devemos deixar morrer, porque é ela que mesmo espantada com as "...histórias de homens que lhe são desconhecidas" tem a força e a pureza de atravessar a vida sempre com voos de luz e paz, sem nunca esmorecer.

Beijinho grande
Branca

Bergilde disse...

Saber de inocência que todos precisamos mais que nunca hoje buscar.
Lindo como tudo que escreves!
Abraços,

Ana Martins disse...

Maria João,
Crescemos quase sem dar por isso e quando experimentamos esse gosto de sangue e sal, quase esquecemos a criança que um dia fomos.
É bom acordar em nós as memórias de infância e nunca deixar que a criança que ainda pulsa cá dentro, adormeça de vez.

Beijinho,
Ana Martins

Rosario disse...

essa memória de todos no teu olhar de criança, faz de ti esse ser especial que és. e põe nos teus dedos palavras sábias que nos unem na alma de criança que (ainda) nos habita. bem-hajas.

beijinho, João

Virgínia do Carmo disse...

É tanto o que nos habita.

E tão profunda e sábia a tua poesia, querida João.

Beijinho enorme

AC disse...

Há algo da infância que nos acompanha para sempre, uma espécie de âncora repleta de poesia...

Beijo :)

Hanaé Pais disse...

Que nunca ninguém destrua os sonhos da infância.
São eles que dão brilho, cor, aroma, sabor e alegria, a todos os outros dias.