1 de novembro de 2009

O último pão por Deus


Era com a Fá e com a Belita que todos os anos eu percorria as ruas do meu bairro e arredores, com o saquinho apertado na mão. Mais velhas e mais afoitas, elas iam sempre à frente enquanto eu, querendo fazer-me pequenina, escondia-me atrás delas.
Porta a porta, nenhum batente ou campainha escapava à vontade irresistível de saber, qual a surpresa que nos reservavam as mãos gentis que quase sempre franqueavam a entrada.
Gostava daquele ritual e deixava sempre que a alegria das minhas amigas de infância me contagiasse. Mas havia alguma coisa no pedido de pão por Deus, que me empurrava para terceiro lugar na fila. Não sabia explicar, mas era como uma falsa declaração de fome que na realidade eu nunca tinha sentido. Uma mentira autorizada em nome da tradição, a que todos achavam graça. Ou quase todos.

- Então Maria João, não abres a tua saquinha?

E sem saber se primeiro agradecia ou abria o saco, fazia as duas coisas ao mesmo tempo e lá dentro misturava a vergonha com as castanhas e as bolachas já desfeitas, mais os rebuçados que melavam as romãs, as maçãs, os escudos e os centavos .
Um a um, conhecidos e desconhecidos, amigos e parentes eram chamados à oferenda e raras eram as portas que não se abriam. Os sorrisos adoçavam os pequenos nadas que enchiam as nossas saquinhas e a pouco e pouco, faziam-me sentir menos culpada por pedir algo que eu achava não necessitar.
E assim foi, durante pelo menos três ou quatro anos, sempre no dia 1 do mês de Novembro.
A última vez, calhou-me a mim bater àquela porta. Tinha oito anos e não conseguia já esconder-me atrás de ninguém.

- O que querem vocês, miúdas?

- Vimos pedir pão por Deus - disse eu quase a medo.

- Vocês têm cá uma lata… então com um corpinho já tão jeitoso para trabalhar, vêm pedir pão, logo no dia em que o padeiro não trabalha!? Tenham mas é juízo!

Fomos embora, mas apenas elas continuaram. Eu voltei para casa. Lá , o pão nunca faltava, mesmo nos dias em que era feriado.
No caminho, fui a pensar que realmente não estava certo, pedir pão quando não se tinha fome, mesmo que fosse em nome de Deus. Mas também não estava certo, falarem assim, daquela maneira, com as criancinhas!

12 comentários:

Adolfo Payés disse...

Me has dejado en silencio con tu post.. Esta precioso.

Un gusto leerte..



Un abrazo
Saludos fraternos

Que tengas una muy buena semana...

Carlos Albuquerque disse...

Lá fui eu ao meu baú das recordações,depois de ler este texto desenhado com palavras libertas, saltitantes, como meninas correndo de cabelos ao vento. Mesmo na observação crítica (onde encontro tolerância e não azedume) cá está a sua alma sensível, Maria João!
Só conheci a tradição do "pão-por-deus", no dia de Todos-os-Santos, já adulto, em Portugal. Em Luanda não havia o costume.
De acordo com pesquisa que fiz na Wikipédia (o seu a seu dono), o "pão-por-deus" remonta ao tempo do terramoto de 1755,quando os que sem nada ficaram, pediam, aos que continuavam a ter, um "pão-por-deus". Por lá encontrei isto, que me fez sorrir:
"O gorgulho gorgulhote
Lhe dê no pote
E lhe não deixe
Farelo nem farelote"
Regresso enriquecido desta visita ao seu blog. Mais aprendi sobre as nossas tradições!
Quanto ao tratarem assim as criancinhas, como diz,ontem como hoje, assim somos, lamentavelmente!
Desculpe o ter-me alongado.
Um beijo. Bom Domingo

António Gallobar disse...

Excelente o seu trabalho como sempre, hoje falando das nossas tradições e das recordações de criança.

Pessoalmente tenho mais lembranças dessas associadas ao dia de reis, onde andava em grupo de casa em casa cantando os reis.

Estas doçuras ou travessuras, acho muito interessantes e fazem com que não se percam os laços entre vizinhança, e hoje eu dia são cada vez mais raras, sobretudo para quem vive nas cidades onde não se conhece praticamente ninguém e estas relações humanas se vão perdendo, por isso é preciso apoiar.

Parabens e beijinho amiga Maria joão

Nova Civilização disse...

Querida Maria João,

Como é mágico recordar a infância. Passado e presente que se encontram.
Gostei de saber um pouco mais sobre a tradição.

Beijos,

Gisele.


Beatriz

"...Sim, me leva para sempre Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ah, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz..."

Maria vai com as outras disse...

Tradição interessante que eu não conhecia. Claro a falta de humanidade não se justifica...

beijos,

Paula

Nilson Barcelli disse...

Nunca passei por isso, porque quando era criança, pelo menos na minha zona, não havia essa tradição.
Mas, mais recentemente, já aconteceu aparecerem crianças a pedir o pão de Deus. Mas nunca levam pão, só guloseimas... este ano não vieram...
se calhar aconteceu-lhes o mesmo que a ti... ou então era o teu grupo que se desfez... eheheh...
Gostei do teu texto. Recorda tempos interessantes da tua infância e soubeste dar-lhe um toque de ternura.
Querida amiga, boa semana.
Beijos.

Spectrum disse...

Pessoalmente nunca pedi por razões várias. desde logo porque fui criado numa família que defende o ateismo com unhas e dentes, depois porque sou envergonhado e, depois, porque não era hábito na zona onde habitava.
Beijo

Suh disse...

Maria.

Apesar de não te conhecer pessoalemente, percebo que és uma pessoa cuja ternura está sempre presente.
Percebo através de tuas palavras o grande ser humano que és!

Um carinhoso abraço.
Suh ;)

Mariazita disse...

Por agora é só um beijinho de boa noite, querida.
Amanhã volto para "falar" contigo.
Ainda tenho umas arestas para limar... mas há-de ir ao sítio :)

Dorme com os anjos.

Beijo cheio de carinho
Mariazita

Mariazita disse...

Querida amiga
O teu relato é uma verdadeira delícia! Fez-me recuar uns anos - não até à infância, que na minha terra não havia esse hábito - mas a uma época em que também eu andei, com mais tês amigas, a pedir, pelas portas, auxílio para os pobres e desprotegidos, em Moçambique.
Jovenzinhas de 18 anos tínhamos a cabeça cheia de ilusões...
Mas isso não é para aqui chamado...
Deixei-me levar pelas recordações.

Voltando ao teu texto - já deu para perceber que gostei muito??? -
penso que com oito anos eras uma criança muito precoce, pela forma como analisaste a atitude desse indivíduo que se recusou a colaborar.
Já fazias adivinhar a mulher de grande valor em que te tornaste.

De facto, pedir sem necessidade, não está certo. Mas muito menos certo está em responder a crianças do modo que esse "senhor" usou, tanto mais tratando-se de uma tradição que ele, por certo, conhecia.

Este é apenas um pequeno exemplo das muitas incompreensões de que as crianças são vítimas.
(sabes que mexem com crianças mexem comigo...)

Que tenhas uma semana cheia de amor.

Beijos e todo o meu carinho
Mariazita

Demóstenes disse...

A sua prosa é realmente deliciosa. Comoveu-me o relato.

Está-se muito bem aqui onde as palavras são acariciadas com delicadeza e trabalhadas com aguçado engenho.

Bem-haja pela oportunidade de conhecer este seu mundo.

Paulo Sempre disse...

Lembro-me de ver um talego (nome de saco de pano usado no Alentejo)quando corria - pela pobre casa da minha bisavó - igual a este (foto). Que saudades...

Beijo