9 de abril de 2009

Pedaço de papel rasgado

Já nos conhecíamos há algum tempo.
Em vários segundos de muitas horas, ele havia fixado o olhar em mim. Olhos mortiços de tristeza.
Não tinha sido fácil comunicar com ele, o mutismo da dor permaneceu ainda durante bastante tempo desde o primeiro dia em que o vi... aquele dia!
Eu estava de serviço, quando ele chegou para ser internado, fui eu que o recebi.
Ruben, 8 anos, encontrado por uma vizinha, junto da mãe que jazia inerte no chão da sala. Disseram que foi difícil fazer com que os seus pequenos braços largassem o pescoço da mãe. Não tinha mais ninguém.
Durante dias, não comeu, não falou, não chorou!
Ninguém conseguia comunicar com ele. Todos o tentavam.
Passei a oferecer-lhe, todos os dias em que estava de serviço, uma folha branca com uma estrela desenhada, para ele pintar e desenhar se quisesse . Sempre que me ia embora fazia-lhe uma festa na cabeça e dizia-lhe: "Gosto muito de ti !"
Começou por me olhar furtivamente, ignorando a folha. Depois pintou a estrela com o lápis castanho e riscou tudo com o preto.
Ao fim de alguns dias, fixou o meu olhar rapidamente e entregou-me a folha com um menino desenhado, um menino sem braços... a estrela não estava pintada.
Perguntei-lhe se podia pintar a estrela e ele anuiu timidamente com a cabeça.
Pintei a estrela... verde.
Conhecíamo-nos então, já há algum tempo.
Naquela Sexta-feira , ele agarrou a minha mão depois do meu gesto carinhoso na sua cabeça e eu não consegui dizer a seguir, a frase de sempre.
Ele tinha-a dito de outro modo.
No dia seguinte entrei no seu quarto, faltava pouco para a meia noite, o início do meu turno. Pensava que ele estava a dormir. Observei-o, aconcheguei-lhe a roupa e preparava-me para sair... quando oiço a sua voz; sumida, trémula: " És o meu anjo da guarda?"
Ignorei a pergunta, emocionada e disse: " Sou eu Ruben !".
" Eu sei" , respondeu ele e deu-me um pequeno pedaço de papel rasgado.
" Dorme..." , sussurei " Vou ver os outros meninos e já venho aqui ao pé de ti".
Saí do quarto, feliz pela conquista da comunicação. Uma luzinha acabava de se acender, a ponte estava em construção.
Abri a mão onde guardava o pedaço de papel que o Ruben me havia dado...
Era a estrela da folha do dia anterior, pintada de amarelo. Por baixo dizia: " Eu também".

11 comentários:

as-nunes disse...

É isso Maria João.
A vida conta-nos muitas histórias, algumas que nós próprios as vivemos mais ou menos intensamente.
Fica-se na expectativa do capítulo seguinte.
Uma Páscoa muito Feliz
Vim aqui ter pela mão da "Mariazinha".
Beijinho
António

Vieira Calado disse...

Olá, amiga!

Venho desejar-lhe

Páscoa Feliz.

Beijinhosss

Mariazita disse...

Querida amiga
Tenho que te dizer, antes de mais nada, que não sou nada de choraminguices.
Emociono-me, como toda a gente, mas as lágrimas costumo engoli-las, não de propósito, sou assim...
Pois o teu relato fez assomar lágrimas aos meus olhos.
Na verdade sou particularmente sensível a tudo que envolva crianças.
Mas o teu texto está tão bem escrito, tão real, tão verdadeiro, que eu consegui "ver" tudo o que descreves.
Fico imaginando a quantidade de episódios que não terás vivido!

E não digo mais nada, amiga.
Preciso ir arejar um pouco, antes de continuar com as visitas aos outros blogs.

Entretanto, deixo-te aqui...

Minha mensagem de Páscoa
Que o domingo de Páscoa seja muito bom, e, se possível, ao lado das pessoas a quem você quer bem.
A Páscoa comemora a ressurreição de Cristo, o seu renascimento.
Por isso nada melhor do que aproveitar este domingo para reflectir, fazer o levantamento da vida para saber se é necessário recomeçar.
Porque, Páscoa é isso, é o momento de renascer - seja para o novo modo de vida, para o amor, para amizade…
Que para nós seja o renovar de amizade, são os meus votos.

Beijinhos
Mariazita

james stuart disse...

Cara amiga,
A leitura deste relato trouxe-me um sentimento óbvio, a necessidade de conhecer a "continuação", ou seja, o que aconteceu depois (ou acontecerá, se o passado ainda é presente). Tens essa obrigação perante os leitores (falo por mim), de revelares o final, seja ele mais triste ou de esperança para o peqeno Ruben.
Beijinho.

O Profeta disse...

Para que a terra não trema
Para que esta Ilha seja de boa guarida
Mil e muitas ave-marias
Para iluminar tanta alma perdida

Em meu peito bate a fé
Sou um caminhante de muda revolta
Olhos presos a este manto verde
Alma que se ergue e fica solta


Boa Páscoa



Mágico beijo

BOTINHAS disse...

Amiguinha Maria João
Temos que conservar o bom humor, sem perder de vista os tempos difíceis que estamos a atravessar.
Só que...andar de "cara fechada" não paga as contas de ninguém.

E para continuarmos numa de sorrisos...aparece amanhã para veres o novo post.

Abraço fraterno
Botinhas

PS - VOTOS DE UMA BOA PÁSCOA
DESCULPA NÃO COMENTAR O TEU POST, MAS É DEMASIADO COMOVENTE.
NÃO SABERIA O QUE DIZER.
MAS DIGO-TE QUE ESTÁ MUITO BEM ESCRITO. IMPECÁVEL!

Mariazita disse...

Querida Maria João
Venho do "Histórias de Encantar" perfeitamente inebriada com as tuas palavras.
Que lindo comentário, minha amiga!
Muito, muito obrigada.
Oxalá não me desiludas???
Tenho a certeza que isso não vai acontecer!
Nunca!

Renovo os votos de uma Páscoa muito feliz e em Paz.

Beijinhos
Mariazita

SILÊNCIO CULPADO disse...

Maria João

É comovente a história que nos contas. Nada me dói mais que ver o desamparo duma criança. Uma espécie de dor interiorizada por um habitat agreste.

Ainda bem que há Marias João que sabem desenhar estrêlas.

Vim desejar-te uma Páscoa Feliz

Mariazita disse...

Querida amiga
Hoje venho apenas agradecer o teu comentário a Anita.
Ela está apaixonada, sim, e, apesar de todas as contingências, vivendo um lindo amor.
Aguardemos a conttinuação...

Feliz Páscoa.

Beijinhos
Mariazita

Oliver Pickwick disse...

Uma história simples e tocante. Um resgate à vida por conta da prática do amor ao próximo, o qual, nos últimos tempos caracteriza-se pela escassez.
A essência da vida reside nas coisas simples, nos pequenos detalhes.
Uma boa Páscoa para você!

lobices disse...

...bonita história de vida
...obrigado pela visita
...um abraço