4 de setembro de 2011

Desassossego



Sinto-te na boca
pronto a nascer voz dentro de um poema
e no entanto,
decides aninhar-te
entre salivas e silêncios
no leito cálido e manso das minhas veias.
Temes,
que a dor antecipada das sílabas
morra na margem dos meus lábios,
sem saberes
de toda a verdade na génese do mundo
ou que o meu sorriso,
adoce a indignação dos homens
muito antes da revelação nua dos plátanos.
Só não sabes,
que do corte vertical do tempo
colho para ti
um regaço de aguarelas
e todos os aromas de Outono
e nas mãos,
guardo a idade das folhas
onde escreverei
os teus maiores desígnios.



 " Mudança de estação" - Aguarelas de Marah Amaral
 

19 comentários:

Filoxera disse...

Dizer ou calar?
este teu post remete-me para uma frase que, há tempos, me saiu de rompante e que nunca mais larguei:
"Silêncio, quando partilhado, é comunicação íntima".
Beijos.

Ana Martins disse...

Maravilhada, Maria João! Li, reli e voltei a ler, lindo!

Beijinho,
Ana Martins

Tere Tavares disse...

Folhas com asas, nuances delicadas a desnudarem-se límpidas como a nudez.
Beijo Maria.

Virgínia do Carmo disse...

João, guardas como ninguém a idade das folhas. Mas tens em ti todas as primaveras.

Beijinho imenso, amiga

Rosa Carioca disse...

Quantas vezes nos sentimos assim...

antonio ganhão disse...

Os grandes poemas são como os afectos vêm do profundo do nosso ser, rejeitando a superficialidade.

Lídia Borges disse...

Doce, colorida e muito serena esta tela pintada pela voz atenta do poeta.

Beijo meu

L.B.

Bergilde disse...

Sensibilidade profunda traduzindo em versos toda essa introjeção.
Abraços,

Cris Tarcia disse...

Maria João, encantada com tua sensibilidade, como sempre.

Beijos

Mar Arável disse...

... e assim na doçura das palavras

se desnudam as árvores
e prepara o Outono

Bjs

Jaime Latino Ferreira disse...

MARIA JOÃO


Minha Querida Amiga,


Sei
pelo contrário
que o tempo
é um armário
onde se guarda o berçário


Um beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Setembro de 2011

manuela baptista disse...

dos plátanos

nua é a idade de cada poema

vertical, o desenho do sangue que retorna ao coração


um beijo

manuela

Sotnas disse...

Olá Maria João, desejo que tudo esteja bem contigo!

Quando no exato momento, mesmo em silêncio, os estudados e movimentos da natureza a se desnudar do não mais necessário para receber outros elementos em total pureza devia nos servir de exemplo. Pois em certos momentos agir no tempo exato, mesmo um imperceptível movimento se faz entender mais que dezenas de palavras vazias!

Belíssimo escrito teu, onde se faz notar tua sensibilidade e percepção da vida!

E eu agradecido por tuas sempre gentis visitas e comentários e também pela felicitação, deixo meu enorme desejo que você e todos ao teu redor tenham sempre intenso e feliz viver, um enorme abraço e até mais!

BRANCAMAR disse...

Belíssimo Outono de afectos em todos os tons do amor!

Belíssimo, Maria João.

Beijinhos

Branca

Nilson Barcelli disse...

As tuas mãos devem guardar tantas coisas... porque quando as abres para a escrita fazes excelentes poemas. Como este...
Gostei muito, querida amiga Maria João.
Beijos.

Vieira Calado disse...

Olá, boa noite!

Obrigado pelos seus amáveis votos.

Bjsss

Sonhadora disse...

Minha querida

Hoje passando para oferecer o meu selinho de 2 anos de blogue, feito com o carinho das vossas palavras e com a amizade dos vossos comentários, que me enchem o coração de calor.

Beijinhos
Rosa

Professora Lu disse...

Ando num desleixo tremendo. Minha vida não anda, corre freneticamente, e com isso me perco e sem que eu me perceba acabo deixando de lado as pessoas que aprendi a admirar e ter um carinho especial. Perdoe-me a ausência...
Mas você como sempre uma poetisa sem igual. Amo tua escrita.
Um beijo grande,
Lu

AC disse...

(Des)encontros, às vezes em contra-mão...
Maria João, as palavras, em si, têm uma vida muito própria. Gosto muito da sua escrita.

Beijo :)