26 de outubro de 2010

Tango triste


René Magritte - The Lovers (1928)


Há corpos que dançam sem a rítmica alquimia da pele, no desacerto da vida.
E sem saberem dos compassos, deixam cair nos ombros as franjas de uma alma exposta às gotas da chuva, e nela se alagam até a inevitável insensibilidade da medula.
Ignoram o tom e o dom de se enlaçarem numa mesma melodia e rodopiam em voltas inversas, onde os rostos se transfiguram em claves sem sol, numa longínqua, fria e solitária partitura.
Arrastam-se a tropeçarem no tempo, movidos numa dança sem sincronia, com as notas de um tango a contraírem-lhes os lábios que sangram de sede, silêncio e melancolia.

Há corpos cansados
moribundos de si,
que não dançam,
apenas balançam
agarrados.


21 comentários:

Dulce AC disse...

"há corpos..
que ignoram o tom e o dom
de se enlaçarem numa mesma melodia.."

Querida Amiga,

Quanta verdade nestas palavras que tão clariventes nos dizem quão triste é não saber ser esse tom no dom que todos porventura possuímos..

Muito bonito Maria João.

E o "tango" acompanha-nos
no sentir as tuas palavras,
tão fortes.

Muitos beijinhos num abraço amigo.

dulce

AC disse...

E é uma tristeza ver esses corpos assim, sem chama que os mova, num (des)tango eivado de tristeza...

Beijo :)

António Gallobar disse...

Olá amiga Maria João

Mais um belo tema, excelentemente trabalhado, ao som do tango... tango triste, como diz, onde os corpos não dançam, apenas balançam agarrados ao som de tão bela musica da mais pura sedução, onde os amantes se entregam qual quadro de René Magritte, de olhos vendados, sem querer saber das consequencias


Beijinho e parabens

Nova Civilização disse...

Amiga,

Maravilhoso!!!

Quantas verdades em sua poesia,

lindo... lindo . Espetacular!

beijinhos no coração

Gisele

manuela baptista disse...

balanço alheado

para que lado
deslavado
tropeçado

há tangos que são uma vida!

um beijo, Maria João

manuela

Lídia Borges disse...

Repleto de sombras que lutam como se tivessem gente dentro de si.
Inquietante, este tango triste!


Um beijo

. intemporal . disse...

.

. telepatica.mente ... .

. leio hoje aqui palavras que ainda ontem me estiveram no pensamento .

. alquimia . compassos . franjas .

. e com elas rabisquei um poema que não cheguei a escrever .

.

. porque dentro dos corpos que dançam há certamente pensamentos que se entre.laçam na linha d`água .

.

. um beijo, maria joão .

.

. paulo .

.

Sofá Amarelo disse...

Na contracção do tempo são as danças mais vulgares, aquelas em que se balança mas não se dança, dão-se passos mas desencontrados como a noite do dia ou como o Sol da Lua... são as danças em que o dom e o dom da melodia tropeçam no tempo...

Angela Ladeiro disse...

Muito gratificante vir ler o que tão bem sabes escrever. Gostei muito

Jaime Latino Ferreira disse...

TANGO ALEGRE


Há outros corpos porém
que embalados
no que dançam
sons cantados
vindos daqui e de além
quando dançam enlaçados
no que balançam
vão bem


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Outubro de 2010

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mjoãoamiga

Tangos são sempre corpos que se enlaçam, a maioria das vezes não sabendo para onde vão. Tango é Buenos Aires, é Gardel, é bandoñol.

A expressão ultimamente tem andado muito abandalhada, por via da polítiquice, muito pior do que o deus-me-livre. Mas, há mais marés que marinheiros...

Amiga

Chego aqui por intermédio do nosso Amigo AC e estou muito satisfeito por te ter encontrado. O teu blogue é muito interessante, e bem escrito. O que, para mim, que sempre ganhei a vida a produzir prosa tão honesta quanto possível, (sou jornalista e dizem que também escritor, dizem…, e aos 69 anos não me sinto velho) é motivo acrescido de satisfação.

Espero que me retribuas a visita e deixes comentários na Minha Travessa. E, já agora, que te tornes minha (per)seguidora. Não é pedir muito… Obrigado

Qjs = queijinhos = beijinhos


NB – Peço-te desculpa, mas tenho de referir que este é um texto base, ainda que com algumas apreciações individuais e específicas. Infelizmente não sou dono do tempo, e a sê-lo seria uma chatice… Para que não haja dúvidas. Mas, é sincero.

Hanukká disse...

Olá, boa noite, vim dá uma rápida passadinha e deixar um abraço.

Entrego meu caminho ao Senhor
Por fé Ele realizará o desejo do meu coração
Porque se eu andar na sombra...
e mil caírem a minha direita
e outros tantos a minha esquerda eu não serei atingido
Ainda sei que Sua vara e Seu cajado me consolam
Sendo que o justo vive pela fé, Ele é meu amparo
Eu descanso a sombra do onipotente
Grandes maravilhas fará o Senhor por mim,
por isso estarei alegre
Os pensamentos do Senhor, são grandes,
seus sonhos são insondáveis
Ainda mais,
as suas misericórdias se renovam a toda manhã
Como Seu sonhar é maior que o meu,
entrego sim meu caminho ao Senhor,
e o resto Ele fará.
Que tudo seja em honra e glória do Seu nome.
amém.

Carlos Albuquerque disse...

Saúdo este percorrer da prosa pela poesia, com uma escrita de luz, geradora de sentimentos e cores da vida.
Não interpreto, nem uma nem outra, apenas retiro de ambas a ideia de que o mundo poderia deixar de ser a superfície rugosa porque nos movemos.
A sua escrita, Maria João, está cada vez mais arrebatadora.
Beijinhos

A.S. disse...

Maria João,

Num tango triste, definha a paixão, golpeia-se a arte, arrasta-se o caos entre os corpos insanos...

Beijos
AL

BRANCAMAR disse...

Maria João,

Que dizer de tão belo e sentido texto?

Repetiria as palavras breves, do Albino Santos, que tão bem definem este tango triste.

E deixo um beijo, com carinho.
Branca

Carla Farinazzi disse...

Maria João,

Que texto lindo! Como há desencontros e insistências, não? As pessoas insistem, se entrelaçam sem química, e vão vivendo a vida. Não falam a mesma língua, mas insistem na dança, que, nem mesmo tem o mesmo ritmo.
Belíssima tua escrita

Beijo

Carla

Sonhadora disse...

Minha querida

Um texto profundo que toca em muitas feridas que nos acompanham pela vida.

Há corpos cansados
moribundos de si,
que não dançam,
apenas balançam
agarrados.

Apenas se toleram na sombra de cada um.

Beijinhos com carinho
Sonhadora

Ana Martins disse...

Boa noite Maria João,
a intensidade e profundeza deste post, fez-me até arrepiar, é por isso que eu digo que a poesia não se comenta, sente-se, e a sua eu sinto-a de uma forma indescrítivel.

Quanto ao livro, já está na gráfica, o lançamento, em principio será a 20 de Novembro, mas eu depois confirmo.

Beijinhos,
Ana Martins
Ave Sem Asas

f@ disse...

Esta é uma das imagens que me diz !menso sobre o andamento!n ©erto tal o ritmo da chuva no rosto quando as gotas da alma se de © l a r a m ao tempo…


Mas certo é que um bailado tão subtil deixa sempre o corpo flutuar e nos lábios trincados o sussurro dos bailarinos ®es guarda o sorriso…

Mto B E L O este texto…

Beijinhossssssssss

Virgínia do Carmo disse...

Lindo... e doidamente verdadeiro...

Um terno abraço....

Andy disse...

Tanto que me diz o que escreveste, tanto!
Lindo.

Tenho andado assombrada pelo silêncio e a falta de tempo, vamos ver se consigo me orientar.

Beijo amiga!