9 de abril de 2010

Entre as ondas e os compassos


Entre o vai e vem das ondas que suavemente se espreguiçam na areia em tarde calma, revela-se em mim, como surgido do nada, um silêncio cristalino, limbo doce que há muito procurava.

Neste calmo e terno paraíso, onde me torno abrigo de borboleta, intervalo, nada me perturba e tudo é imensa melodia. A paz é um manto, tecido a fios de seda que bordaram nele o tempo, de cores soltas e vivazes de alegria. Traços de azul e branco, em fugazes olhares de terra e de verde maresia.

Aqui, sou tudo e nada, certeza revelada de quem já conhece todas as horas, todos os segundos. Breves, profundos.
Aqui entendo, porque tantas vezes, mas tantas, senti o corpo espartilhado, na mente indigente a vaguear.

Acredito que a imprevisibilidade não existe. Somos a verdade só nossa, recôndita, oculta, perdida… ou a nossa vontade, grande ou pequena, no querer ou não querer, que lavra o pensamento e desenha a vida com cor, sabor ou fragrância, ou então, com nada que valha a pena.

Sim, encontrei esse lugar, onde sossegam agora, todos os cansaços, todas as viagens, todas as horas ocas, todas as procuras e todos os medos.
Esses, os medos, lanço-os na ventania, como quem espanta o pó de um livro esquecido e meio lido, com um sopro morno de vida.
Esses, que suportei noite e dia, mais de noite até, porque sendo ela fria, me acautelei da geada, num outro universo, feito de prosa e verso, sonho e melancolia.
Aí, fui e sei que sou, guerreira sem temores, senhora de Avalon, um leme, uma concha, cordão de conta sumida, um simples lampião, um terço ou um berço ou qualquer coisa esquecida.

Hoje e agora, no abraço forte e quente deste sol que me aninha, envolvente, a carícia chega do mar em sinfonia.
Tacteio-lhe a partitura e o voo rasante de todos os pássaros, e entre dois compassos espraiados, de rios e mares e vagas de danças plenas, silencio-me, no suave embalo de uma barca ou caravela, desenhada na viela de uma escrita, em que as palavras são maiúsculas de afectos e de vida, pintadas em letras pequenas.


E nascem-me ondas nos dedos, em arrepios, frios … sonhos e segredos!


13 comentários:

Adolfo Payés disse...

Un gusto disfrutar de tus letras.



Un abrazo con mis
Saludos fraternos de siempre...
Que disfrutes del fin de semana..

Teresa disse...

É o efeito da Primavera, sentimo-nos em paz connosco e com o mundo, permeáveis à vida.
Bjs e bom fim de semana.

Mariazita disse...

Amiga
Um texto repleto de poesia, em que a alma se abre em ondas suaves, expondo os seus receios e anseios, as suas alegrias e ousadias.
Tal como a senhora de Avalon aqui reinas e dominas as águas do lago.
A D O R E I !

Beijinhos

Mel de Carvalho disse...

Sabes, João, costumo dizer que sou uma borboleta, que, porque ama demasiado as cores do fogo, a luz e o brilho, quer sempre vê-lo de mais perto e perceber-lhe o vai e vem de cada uma das suas labaredas... e, porque audaz, e porque perto, tantas e tantas vezes queima as asas. Restam as caixas. Seguras, protectoras... E o mar, minha amiga. O mar que é infinito e do qual um Deus Maior me fez cativa. A começar nos olhos que lhe são iguais - ora verdes, ora cinza ...ora serenos, ora exaltados ... mas sempre água. E verbo...E onda e compassos (o teu texto: belo, belo ... )

É bom saber (tão bom) que existem caixas onde borboletas frágeis como eu se podem acoitar. Na frescura e no azul das palavras. E dos fios, e das contas que os meus contos e as tuas leituras, tecem, como duas artesãs que somos das e nas palavras.

Beijinho João.
Tua leitora e tua (convicta) amiga,
Mel

A.S. disse...

Maria João...

Deliciei-me com a leitura deste belissimo texto poético!
Senti-me um pássaro em rasante voo, partilhando contigo as ondas que te nascem nos dedos, os arrepios de frio... os sonhos, os segredos!


BeijOOO
AL

Nova Civilização disse...

Amiga,

O seu texto nos faz querer repousar... sentir a brisa do mar e ficar somente no sossego da alma!

Muito lindo!!!

adoro a sua poesia,

beijinhos no coração

Gisele

Virgínia do Carmo disse...

Talvez todos sejamos sobressalto e medo, confusão e desalento, mas todos somos muito mais paz e encontro, força e reconciliação...

Beijinho

Cris Tarcia disse...

Maria João, como é bom ler os seus textos.

Beijos e uma linda noite

José Quintela Soares disse...

Olhar o mar é sempre um exercício relaxante e retemperador.
E mesmo quando está bravo, serena.

Mariazita disse...

Maria João
Fico tão feliz quando gostas dos meus posts!
Como tu dizes sempre que gostas...fazes-me sempre feliz - lógico!
Já podes entrar à vontade no "Histórias". Eu não restringi o acesso, apenas tive que fechar o blog para poder resolver um problemita que andava lá a sassaricar :) E como estes dois últimos dias tive muito pouco tempo para PC...foram dois dias de porta fechada.
Mas já está tudo ok. Podes entrar à vontade que não te acontece nada de mal...

Beijinhos

Meg disse...

Maria João,

Este é um texto para ler e sentir.
E sentir a paz que transmites nas palavras tecidas com tanta sabedoria.
Também eu gostava de encontrar um lugar como o teu... quam sabe um dia, quando menos esperar.
Lindíssimo mais este post.

Beijinhos para ti

Sofá Amarelo disse...

Os compassos da Vida chegam quase sempre em ondas cristalinas bordadas de silêncios fugazes lançados na ventania, tal como os medos que sopram em horas ocas... mas logo a carícia da espuma das ondas embarca num suave embalo da escrita desenhada com palavras maiúsculas de afectos...

. intemporal . disse...

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. calo.me e escuto.te .

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. sendo sílaba de um verbo tão teu .

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. beijo, Maria João .

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. paulo .

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