10 de janeiro de 2012

Redondo é o mundo...



Penosamente, percorreu aquele pedaço de espaço. Escassos metros entre a cadeira, onde há mais de uma hora esperava, e a porta que só agora se abria.
João Cordeiro, advogado de sucesso, recebeu-a com um rosto afável e sorridente. Dizia-lhe a experiência que essa era a melhor forma de preparar alguém para o que de desagradável, às vezes, tinha para dizer.
"Como está Margarida? Obrigado por ter vindo. Faça favor de entrar! "
Ela olhou-o dentro dos olhos, com aquele olhar com que se descobrem as coisas que não conseguem esconder-se por muito que se queira e percebeu assim, que os gestos largos e exagerados do causídico, apenas adiavam a revelação final de uma encenação ridícula sobre o amor.
Sentou-se de novo e avaliou a força que ainda lhe restava. Estava cansada, tão cansada….
Margarida era uma mulher ainda jovem, cuja estima por si própria há muito afogara dentro da decepção de não ser feliz. Casara por amor e desse amor lhe nasceram as filhas. Hoje, elas eram a única razão de todas as guerras por que ainda se determinava lutar. Razão única de estar ali.
Durante anos lutara contra a indiferença de Joaquim, a brusquidão azeda dos seus gestos, as palavras geladas em discussões sem sentido. Lutara contra a opressão das panelas que escondiam as histórias infelizes das gatas borralheiras. Lutara até ao limite, contra a distância dos corpos para além da consumação do vício e a dormência da alma que a tornara insensível ao abuso, à violência consentida do ato. Lutara contra o fim do sonho e a falta de esperança. Talvez por isso estivesse tão cansada.
Um dia, num final de noite, viu-se refletida na parede branca do teto e, vazia de amor, de desejo, de rancor ou de raiva, percebeu que já não sentia mais nada. Nessa manhã, Margarida decidiu que o seu casamento terminara. Ela achava que decidir sobre a sua vida era algo que ainda lhe restava, mas Joaquim jamais concordaria com isso. Ele era o macho, era ele, e só ele, quem escolhia e quem rejeitava. Haveria de nascer quem o abandonasse sem ter sofrido o bastante.
Foi isso que Joaquim decidiu, nessa mesma manhã de guerra anunciada; fazer Margarida sofrer o que ainda lhe faltava. E tudo fez para lhe enfraquecer a vontade e o ânimo, para a reduzir ao tamanho de insecto, esmagando-a depois com o poder e a fúria do desprezo que sentem os homens desprezados.
Quase conseguiu, quando ela aceitou ser a única culpada pelos anos falhados e por todas as infidelidades dele. Quando aceitou não ter sido a mulher e a amante que ele achava merecer. Quando aceitou não merecer.
Margarida aceitara a injúria, a perseguição, a ameaça. Aceitara até, a bofetada dada à porta de sua casa. Fizera-o, com o rosto erguido e as mãos a protegerem as meninas atrás de si.
Aceitar nem sempre é concordar.
Pensava assim para se manter firme. Tão firme, quanto o tremor das pernas o permitia. Mas nunca permitiu que ele lhe dissesse que não era mãe, que não era boa mãe, a melhor mãe para as suas meninas. Isso nunca aceitou. É que há mentiras, que nos esmagam para além do possível, e há verdades que nos fazem crescer as unhas como garras.
"Diga lá então, Dr. Cordeiro, o que quer o pai das minhas filhas, desta vez?"
O advogado pegou no sorriso e guardou-o dentro da gaveta de onde retirou um ar grave e sério, mais adequado ao que se seguia. Pegou nas folhas dactilografadas e deu-lhas a ler.
De paragrafo em paragrafo, Margarida leu com atenção todas as cláusulas daquele acordo e deteve-se naquele que dizia:
- As filhas; Leonor Soares Torres e Inês Soares Torres, ficarão à guarda da progenitora que deterá sobre elas o poder paternal. -
"Ele apenas lhe pede que abdique dos bens que lhe pertencem. Mas não precisa de concordar com isso, Margarida. Não é justo que assim seja e pode ainda lutar pelas suas coisas…. "
Ela olhou-o mais uma vez e viu, o quanto os olhos revelam o que a boca não diz.
"Só isso? As minhas coisas pelas minhas filhas? Coisa tão pouca…", a emoção rodeou-lhe o timbre da voz e ela não foi capaz de dizer mais nada.
João Cordeiro indicou-lhe então a última página, onde um traço à direita e outro à esquerda, esperavam que se firmassem neles as duas vontades. Margarida pegou na caneta , olhou para a ponta esférica de onde, em breve, sairia negra a tinta que escreveria o seu nome.
"Redondo é o mundo e não há nenhuma noite que não se tenha transformado num novo dia.", disse-o em voz alta mais para se ouvir do que para ser ouvida e assinou, desenhando calma e serenamente cada letra , como quem coloca, finalmente, a aquecer-se ao sol a própria sombra.



9 comentários:

Lídia Borges disse...

"Histórias de Vida" e o muito de Vida que uma história bem contada pode ter. Esta mulher representa o tanto que ainda está por fazer para que a tão proclamada igualdade de deveres e direitos seja, nas sociedades modernas, uma realidade. E a justiça? Passivamente, aponta a linha onde se regista a Injustiça.

Um beijo

L.B.

Rogério Pereira disse...

Tocante. De tal forma comovente que não deixo nenhum "lugar comum" dos que me ocorre. Reforço uma frase do seu texto: "Redondo é o mundo e não há nenhuma noite que não se tenha transformado num novo dia."

Que bom terminar a seu contento...

Dulce disse...

"Aceitar nem sempre é concordar.."

Que te dizer João, que mais uma vez foste perfeita na Vida que aqui partilhaste..e ainda bem que por aqui vislumbramos o redondo que é o mundo..na possibilidade de transformarmos a noite num novo dia.

Beijinho grande para ti.

Dulce

Rosário disse...

obrigada por tamanha sensibilidade, querida João. Redonda a vida, como tão bem a vês. Um grande beijinho



Rosarinho

A.S. disse...

Mª João,

É sempre com prazer que caminho por entre as tuas tão deliciosas palavras!...

Bjos,
AL

Mariazita disse...

Bom dia, Maria João
Gostei muito do teu "conto", uma história muito real e comum.
Não há dúvida que o mundo é redondo, e atrás dum dia outro dia vem.
A vida está sempre em movimento, e muitas vezes é preferível abdicar de coisas secundárias e preservar as mais importantes - como o amor próprio, por exemplo...

Bom fim de semana. Beijinhos

Carlos Albuquerque disse...

Não entro para comentar, mas apenas para lhe pedir que passe pela minha cubata.
Obrigado.
Grande abraço

Rosa Carioca disse...

Mais uma história bem real...
Feliz 2012, cheio de escrita!

manuela baptista disse...

há vidas assim e crianças magoadas

e advogados cujo sucesso se deveria pautar, por não deixarem as lutas pelo meio desejando apenas assinaturas que não perturbem demasiado o sistema

um dia
o mundo continuará redondo, mas será mais justo, Maria João

um beijo

manuela