18 de novembro de 2011

Adágios


  

É tão fria a palidez do mundo quando a vida parte.
Quando os olhos se estendem para dentro dos fantasmas.

É tão fria!

Há segundos em que a morte não me estranha
e me pressinto dela,
coisa insignificante e pequena.
Sinto-a a roçar-se-me na pele
a colocar os dedos no sangue das minhas feridas
a rir-se da surpresa dos meus lábios
do medo a nascer-me cascata dentro da boca.
Nesse momento,
num frágil e fugaz momento
deixo de saber se ainda sou,
até que outra alma abandona as mãos dentro das minhas
e estar, passa a ser tudo o que na verdade vale a pena
para que nenhumas mãos
perto de mim
vivam sozinhas.


A morte de Garcia Lorca
óleo sobre tela de Guilherme de Faria - 1959

15 comentários:

Filoxera disse...

É nesses frágeis e fugazes momentos que a vida se justifica. Quando alguém repousa as suas mãos nas nossas.
E a vida é uma sequência de momentos...
Beijos.

Dulce disse...

Querida João,

Passar para as palavras momentos de vida
importa fazê-lo porque nos trás de volta ao conforto que é darmo-nos..
para que como tão bem escreves "e estar, passa a ser tudo o que na verdade vale a pena
para que nenhumas mãos
perto de mim
vivam sózinhas.."

Nas tuas mãos me enlaço e deixo ficar, bem sei..fico bem.

Beijinho grande e muito amigo.

Dulce

Lídia Borges disse...

A fragilidade e o gelo contido num momento em que enfrentamos os nossos reais limites, em que tomamos a consciência de que às vezes o "nada poder fazer" nos pesa como um fardo insuportável. Transformar este maus momentos numa possibilidade de aprendizagem e crescimento humano é próprio de quem sabe valorizar a Vida e tudo o que nela é belo e sublime.


Um beijo

Rosa Carioca disse...

E como existem mãos que nos trazem à vida...

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Quando leio coisas assim, pasma-se-me a alma de encanto na forma, e interioridade na substância.

Muito, muito bom...

António Gallobar disse...

Olá querida amiga João

Imaculado este poema... a juntar a muitos outros com que nos delicias, por mais perturbadoras que possam ser as palavras, sempre achas um jeito de as sublimar.

Beijinho

Nota: Só ontem me chegou à mão o livro verde, espero que tenha gostado da experiencia.

Jaime Latino Ferreira disse...

MARIA JOÃO


Minha Querida Amiga,


... para que todas as mãos
em mim
se saciem


Beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 19 de Novembro de 2011

Sonhadora disse...

Minha querida

Nesses momentos em que sentimos um frágil fio nos prender deste lado...uma mão dá o aconchego que necessitamos.
Como sempre a tua alma escreve-se.

Deixo um beijinho com carinho
Sonhadora

Ana Martins disse...

Maria João, boa noite!
E quantas vezes "...estar passa a ser tudo o que na verdade vale a pena..."

Adorei!

Beijinho,
Ana Martins

Bergilde disse...

Existem coisas que o racionalismo nunca conseguiu e jamais conseguirá explicar.Acredito que a morte seja uma delas.
Abraço carinhoso,

manuela baptista disse...

muito abandono

para palidez tão fria


desejo, é um desejo apenas

que as mãos que nos chamam do outro lado, tenham a quentura das que aqui nos deixam ir

um beijo, Maria João

BRANCAMAR disse...

Maria João,

Mesmo no limite, estar é tudo o que realmente vale a pena...

Beijos
Branca

retrato... disse...

e é tão confortante quando sabemos que há "outras mãos" que querem as nossas com elas.

bj...nho

soberba escolha nos ofereces, Garcia Lorca. obrigado

AC disse...

Maria João,
Há um ténue fio a separar a queda iminente da grandeza da transposição dos abismos. Caminhar nesse delicado equilíbrio é procura permanente da sabedoria necessária para enfrentar o espectro. Mas surgirá sempre um momento em que a queda é inevitável.

Beijo :)

Virgínia do Carmo disse...

Que mais posso dizer da tua imensa alma, João? Se todas as tuas palavras a transpiram, comovidamente?

É tão fria a palidez do mundo quando a vida parte. Mas ainda bem que as tuas mãos existem.

Beijinho imenso e muitas saudades