23 de janeiro de 2011

Cordão de água


Dos seus olhos, do espaço inundado pela linha de água que envolve o caule dos nenúfares, viu-a sentada na escarpa a desfolhar folha a folha, as páginas do seu próprio poema.
Cinquenta páginas, cinquenta vidas, cinco flores nos sentidos de uma só mão e na outra, a silhueta redonda mundo.
Ouviu-lhe a oração das contas, rosário de dores e sonhos, presos ao mastro de uma frota de caravelas perdidas, em terras de mouros, carregadas de esperança, dentro do seu próprio tempo.
Soube-a doce e salina no entrelaçar do cordão de água, movimento pendular dos dias em espera.
Escutou-lhe o saber do corte dos cachos, da colheita fértil das searas e do perfume das pétalas caídas.
Ofereceu-lhe de beber, mas ela já era água.
Estendeu-lhe a mais fina das algas, mas ela era já, o fio mais precioso de Ariana.
Falou-lhe das palavras escritas no silêncio, mas eram já silêncio todos os seus versos.
E nada mais tendo para lhe restituir de sol, desprendeu de si a lágrima dourada caída de uma das cinco pontas de uma estrela e, de mansinho, colocou-a no alinhamento da constelação que celebra a vida, sinal e vértice perfeito da luminosidade daqueles olhos. Colocou-a ali, para que fosse a luz do seu caminho e lhe revelasse a transparência fina, para além da poeira das incógnitas.
Depois, em silêncio, regressou ao lado de lá do espelho, ao leito do seu próprio rio e cravou os joelhos nos seixos seculares, onde guardava todos reflexos.


24 comentários:

A.S. disse...

M.João,

Cada reflexo era uma caricia de um raio de sol, último sorriso moribundo resvalando no declive da saudade...
Tudo fogo! Tudo cinzas! Tudo água!


Beijos,
AL

Lídia Borges disse...

Olhar assim do lado de fora, a uma distância segura, o curso da água que vai inundando margens e derrubando barreiras, no seu contínuo passar.
Olhar de longe como o alpinista que para avaliar a montanha se afasta para o vale e daí a vê melhor.

Sublime, a forma de ver e de dizer.

beijo meu

Sonhadora disse...

Minha querida

desta vez fiquei sem palavras, perante a beleza...suavidade e ternura deste texto.

Falou-lhe das palavras escritas no silêncio, mas eram já silêncio todos os seus versos.

Este paragrafo resume tudo, adorei.

Beijinhos com carinho
Sonhadora

Vieira Calado disse...

Bem bonito

o seu texto!

Um beijinho

São disse...

Há prosa mais poética que alguma poesia, de facto.

Boa semana.

manuela baptista disse...

no alinhamento das constelações

cabe apenas
a perfeição de um olhar
as transparências de um estar

os reflexos da antiga escrita dos deuses
que desenhavam sons com os seixos redondos

de um só cordão, o seu!

um beijo

manuela

Jaime Latino Ferreira disse...

MARIA JOÃO


Querida Amiga,

Foi o que me saiu!


Lágrima dourada
e um cordão de água
fazem de si sem mágoa
mulher amada


Um beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Janeiro de 2011

Linda Simões disse...

Maria João

De uma ponta da estrela eu celebro a vida junto aos amigos queridos...

Obrigada pela presença,pela amizade


Um grande abraço,com todo meu carinho

Linda Simões

Mel de Carvalho disse...

João,
inarrável e mágico, quão mágico é o Fio de Ariana que nos conduz, minha amiga, neste Era de Aquário. E nos ensina, a par e passo, a força dos fios que caminham cerzidos na rota e na força de uma conta retornada aos dedos pelos dedos da memória ...

Gratidão pela beleza deste momento, gratidão pelo fio de água reflectido.

Beijo
Mel, [[50].[01.2011],[23]].

retrato disse...

Maria João,

Neste entrelaçado de palavras, todas elas de vincado sentido expressivo, e em que cada uma ilumina a outra, de beleza conjugada... cheguei, numa rapidez incómoda, aos "reflexos.".
Forcei o cursor do rato do pc, na pesquisa de continuação, mas nada, era mesmo o final... "reflexos.".
Não resisti e fugi deles. A minha necessidade estava em voltar ao colorido e perfumado nenúfar. Aí sim, sentar-me e ler, novamente, estas palavras, qual delas melhor que a outra, vestidas de saberes e poesia... "reflexo" do mundo que tens dentro de ti.

Obrigado

AC disse...

Maria João,
Profundo mergulho no mais íntimo de nós, na filigrana do sentir, tal é a leveza que nos transporta a sonhos imorredouros, a viagens que tivemos noutras eras e que queremos recuperar...
Tão belo, minha amiga, e tão avassalador...!

Beijo :)

Nilson Barcelli disse...

Maria João, parabéns pela excelência do teu texto. Uma prosa poética que muito poucos se podem gabar de conseguir.
Estás imparável...
Querida amiga, boa semana.
Beijos.

Sofá Amarelo disse...

... e todos os reflexos regressaram em silêncio ao outro lado do rio, através da transparência fina das palavras escritas nas estrelas douradas que perfumaram as pétalas caídas e as searas pendulares dos dias em espera...

BRANCAMAR disse...

Maria João,

é a segunda vez qe leio o teu texto e fico sem jeito para o comentar.

A minha incapacidade de te transmitir por palavras o que tirei das tuas é grande, é como olhar um rio, um mar e não saber dizê-lo, apenas admirar a sua beleza e tirar dele a tranquilidade dos seus reflexos.

Escrever como tu não é para qualquer um, tens um dom especial de pôr a vida de uma forma única em tudo o que aqui nos dás.

Deixo-te um beijinho de muita amizade,

Branca

Filoxera disse...

Acho que este teu post não anda longe do meu.
Sensível...
Gostei.
Beijos.

Dulce AC disse...

"Escutou-lhe o saber do corte dos cachos,da colheita fértil das searas e do perfume das pétalas caídas..."

Lindo. Guardo todas as palavras que li, tuas. Ficou o silêncio que em mim é Luz, de um reflexo que és tu João. És imensidão, vértice perfeito de luminosidade.
Que mais para te dizer..?!

A vida assalta-nos num sorriso ou numa lágrima. A celebração da vida pelas tuas palavras revela-nos sempre um simples abraço...Obrigada pela ternura que sempre fica.

dulce

Mariazita disse...

Li o teu texto duas vezes, e ainda assim não encontro palavras para descrever o que ele me transmite.
É duma beleza tão grande e tão poética que é quase um sacrilégio comentá-lo.
Deixa-me ficar assim quietinha.
Vou lê-lo uma vez mais, antes de ir embora.

Uma semana cheia de dias felizes.
Beijinhos, querida amiga.

Eduarda disse...

Maria João,

Há momentos, ou porque estamos mais fragilizados, ou porque as palavras nos fruem, que a emoção toma conta de nós e não nos deixa falar, exprimir o que sentimos.

Este foi um destes momentos, queda e muda viajando nas tuas palavras, sentindo o tempo das águas.

Desculpa.

bj

Ana Martins disse...

Maria João,
eu estou como a Mariazita, já li o teu texto duas vezes, e comenta-lo é-me difícil.
Qualquer coisa que diga, não vai descrever o efeito que o teu texto teve em mim.
MARAVILHOSO!

Beijinho,
Ana Martins

AC disse...

Maria João,
Voltei para novo mergulho na excelência do texto. Que maravilha, minha amiga!

Beijo :)

. intemporal . disse...

.

.

. simples.mente perfeito .

.

. e o meu comentário reside por ora nas palavras que bem sabes quais são mas que não consigo nem ouso dizer .

.

. um beijo amigo .

.

. paulo .

.

.

manuela baptista disse...

e

deixo aqui, à Mel

um cordão de água
um fio de vento

pelo dia 23 de janeiro, em que distraidamente eu colocara os olhos nas estrelas

sem reparar nos trilhos que a Maria João me mostrou

um beijo para cada uma

manuela

Andy disse...

de suster a respiração, amiga!

Obg por escreveres, nunca o deixes de fazer.

Beijo imenso

Tere Tavares disse...

Pelo fio vincado em "Noite.de.Mel" cheguei ao teu lugar, às tuas palavras-mares que inundam mundos de vida.

Se apreciar lhe deixo um seixo:
http://m-eusoutros.blogspot.com/

Abraço