14 de agosto de 2010

Reconciliação



Sentou-se à beira do mar. Estava exausto, pronto a desfazer-se da pele que trazia e, no entanto, não estava certo de estar pronto para receber a seguinte. Na incógnita, viu-se inseguro.
Tentava lembrar-se dela, do exacto momento em que rasgara a lembrança como uma fotografia e guardara os pequenos pedaços, algures dentro de si.
Tinha sido mais fácil esquecer. Ao longo dos anos tinha aprendido, que há feridas que doem menos se nos esquecermos que existem. Mas, sabia agora também, que essas, as esquecidas, nunca saram.
Não, não se lembrava do rosto dela. Apenas alguns traços numa linha descontínua. Sabia-lhe apenas das mãos, do desenho das veias que as alimentavam, o formato das unhas nos dedos e o carinho que delas nascia; imenso, pleno e generoso, a envolvê-lo em todos os momentos da sua vida. Todos, até ao dia em que o recusou.
Não, também já não se lembrava das palavras. Tantas que ouvira e dissera, doces e agrestes. Nem do olhar que, sem nunca ter percebido bem porquê, evitara.
Mas reconheceria o seu cheiro, num jardim de jasmins e madressilvas, no final do Inverno e saberia seguir a sua voz, como o dedilhar de uma harpa, no meio de uma multidão.
Tudo lhe parecia agora presente, incrustado na alma. Uma alma diferente que se revelava dentro dele, sem aviso.
- Vou ser pai !!
O grito lançado ao mar, à sua sabedoria imensa e o eco a repetir-se dentro do coração que pulava. O olhar vagueava ao ritmo das ondas, num vai e vem que parecendo igual, jamais o seria. E abriam-se as janelas de par em par , no desenho do sorriso feito riso que pendurava ao peito.
E de novo a angustia da ausência dela, ou da sua ausência na vida dela, ou o doloroso esquecimento dos dois.
Imaginou o filho a crescer, como ele havia também crescido. Imaginou-se a protegê-lo, como ela também o havia protegido. Pensou no vento que transforma as marés, pensou no tempo, pensou nela e uma lágrima escorregou, incauta, face abaixo.
Como posso ser um bom pai se não fui um bom filho? Como posso alegrar-me pelo futuro se me entristeço pelo passado? - E a pele a despegar-se dele, a largá-lo.
Dos olhos nascia então um mar que ao outro se acrescentava e na areia, desfaziam-se noites e dias de gélida e teimosa solidão.
No silêncio seu, despiu-se da roupa e, desnudado de tudo, entrou mar adentro com as palavras não ditas a queimarem-lhe a boca. Sorveu a espuma e o sal, trocando a vergonha, o medo e o orgulho.
O sol caía a pique, quando se ergueu da profunda transparência e, por fim, caminhando, desenhou o regresso nas pegadas que foi deixando.
Com os pés ainda nus, mas já firmes na rocha quente, olhou para trás e observou o ziguezague dos seus passos. Naquele momento, percebeu que à porta que agora se abria, escancarada, a franquear-lhe o caminho, a mãe esperava, há já uma eternidade, pelo seu abraço.
E foi para aí que seguiu, sem mais demoras, para lá chegar com o raiar da aurora e no colo dela, no amor dos seus braços, fazer as pazes com a vida, fazendo as pazes com ela.


Fotos pessoais



18 comentários:

manuela baptista disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
manuela baptista disse...

da mãe que nos abraça

à mãe

que abraçámos um dia

entre as duas existe o filho, a filha

existimos nós

reconciliados com as várias peles que vamos largando em todas as marés!

por este retrato das peles de uma vida

obrigada, Maria João!

beijinhos

Manuela

ps. desculpe o comentário eliminado!
mas a vida, além das peles

também vai largando erros de distracção, este foi meu...:))

Sonhadora disse...

Minha querida
Não tenho palavras para tão belo texto, apenas a emoção com que o li.

Beijinhos
Sonhadora

Menina Marota disse...

Fica-se sem palavras a ler-te.
Belo!
Venho aqui muitas vezes ler e nunca tive coragem de comentar, mas hoje algo forte me obrigou a abrir a caixa dos comentários com emoção e dizer-te o quão belo é este texto. Parabéns.

Um abraço

Adolfo Payés disse...

Un mensaje digno y bello de leer. Gracias por compartirlo.

Un placer volver por tu espacio, después de un largo tiempo ausente de los blog..

Un abrazo
Con mis
Saludos fraternos de siempre..

Que tengas un bello fin de semana...

Carlos Albuquerque disse...

Confesso, Amiga Maria João, que não me foi fácil viajar por este texto, tal o desventrar do que somos com que ele se me apresentou...
"Como posso alegrar-me pelo futuro se me entristeço pelo passado?"
Palavras que se me cravaram projectando-me para uma dupla visão de mim próprio - a de ser o que agora sou e a de não ter sido.
A vida é assim, não a culpo, nem me penalizo. Mas quantas vezes digo palavras que só eu oiço e esboço sentimentos que apenas os vejo eu, enviando umas e outros para o passado...
Beijinho

Lídia Borges disse...

Às vezes, é preciso uma luz, um carinho nas mãos do tempo presente para que o instante nos revele o melhor de nós...
É o que acontece neste conto comovente, cheio de poesia.

Gostei muito da sua escrita neste registo, também.
O conto, enquanto género literário, atrai-me bastante.

Um beijo

Nova Civilização disse...

Amiga Maria joão,

há amor maior do que quando nos reconciliamos com a vida?!

Obrigada pela partilha. É tão bom ler os seus textos pois muitas vezes vamos nos encontramos neles...

E a musica que escolheu... muito boa fiquei aqui a viajar,

beijinhos e bom domingo,


Gisele

Fernando Santos (Chana) disse...

Belas fotografias...Excelente texto...
Cumprimentos

BRANCAMAR disse...

Maria João,

Tão lindo este texto de transformação, do despir e renovação da pele, de reconciliação, que às vezes é tão fácil quando temos o coração aberto e outras vezes tão difícil sem percebermos porquê.

E a mãe é sempre aquele colo que nos acompanha toda a vida, mesmo quando já não está connosco, um dos nossos grandes suportes emocionais.
Bela mensagem.
Beijinhos
Branca

. intemporal . disse...

.

. fazer as pazes com a vida é também saber ser selectivo .

. e aprender desde cedo a separar o trigo do joio .

. porque há muito trigo que é joio e há joio que pode ser trigo .

.

. basta querer .

.

. basta querer.se .

.

. mais um belo momento, também ele intemporal .

.

. mais um bel.íssimo texto como só tu sabes esboçar entre sorrisos e prantos .

.

. entre.cantos e en.cantos .

.

. um beijo sempre . maria joão .

.

. uma boa semana .

.

. paulo .

.

mundo azul disse...

________________________________


Que momento tão especial... Com que delicadeza e sensibilidade você nos passou esse texto!


Beijos de luz e o meu carinho...


__________________________________

AC disse...

Texto intenso, dum ajuste de contas interior, onde o mar, simbolicamente, assume o papel retemperador...
Lindo e muito bem conseguido, Maria João!

Beijo :)

Ana Martins disse...

Que texto maravilhoso Maria João,
a reconciliação com a vida só nos pode trazer muitas alegrias.

Beijinhos,
Ana Martins
Ave Sem Asas

Sofá Amarelo disse...

A Vida é simples quando dela sabemos - e queremos - tirar pedacinhos de gritos lançados ao mar porque as ausências na maior parte das vezes não são mais que pequenos retiros onde os nós dos dedos esperam para se cruzarem com outros nós de dedos e assim dedilharem harpas no meio de multidões onde as almas vagueiam ao ritmo das ondas...

A.S. disse...

Maria João...

Esta tua deliciosa narrativa e a talentosa forma como escreves, fez-me vibrar, despertou-me todas as emoções!
Obrigado por estes deliciosos momentos!


BjO´ss
AL

Nilson Barcelli disse...

Querida Maria João, o teu conto é maravilhoso. Abordas vários aspectos da vida com uma narrativa excelente, límpida, agradável e bonita, muito à imagem e semelhança da tua alma.
Um bom resto de semana para ti.
Um beijo.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Maria João

Quanta sensibilidade tresmalhada!... É preciso sentir de mais para se reconhecer que retroceder pode ser o amanhã.

Um texto de excelência com que me identifico.

Abraço