19 de agosto de 2010

Na intermitência do voo




- Olá – disse ela.
- Olá – disse ele.
- Quem és tu, tão belo e que fazes aí no cimo do teu vértice?
- Ando no vento à minha procura.
- Posso gostar de ti, se me deixares . Porque não te vens mirar aqui, na minha janela?
- Porque a janela é tua e eu não sei ainda quem sou. Dizes que sou belo, mas eu não me reconheço nesse reflexo. Para gostares de mim, é preciso que eu antes me revele e como me posso revelar se ainda não me descobri? Passarias a gostar de mim pelo que julgas que sou, através da luz dos teus olhos, mas o reflexo é apenas a projecção de um desejo, não a minha realidade.
- E como podes tu encontrar-te no vento? Ele passa tão rápido. Às vezes corre veloz e é frio, outras é apenas uma suave brisa que vem do mar. Como buscas a verdade de ti nessa inconstância?
- Espero com paciência que é a maior de todas as sabedorias e grande companheira do tempo.
- Mas a sabedoria nem sempre traz o que se espera e o tempo é efémero.
- Por isso eu não espero nada em concreto. Se soubesse o que ela me traria, que adiantaria esperar? Sabes, não tenho pressa. É tão bom voar.
- Mas posso gostar de ti à mesma , enquanto te descobres?
- Podes sim, mas eu ficarei teu amigo e depois, que faço eu com os teus olhos, se chorares?
- Porque haveria eu de chorar? Gostar de ti vai-me fazer sentir mas bonita.
- Mas eu não sei ainda quem sou, lembras-te? Posso desiludir-te.
- É verdade isso que dizes…. . Mas sabes, quando estou aqui à janela, às vezes aqueço-me com o sol que brilha alto e outras também me abrigo dos pingos da chuva. Sei que é assim e não tenho medo, nem me desiludo. Se te vir chegar, vou abraçar-te com cuidado e ouvir o que tens para me contar. Se te vir partir, ficarei feliz por ti e prepararei os meus olhos para te ver de novo no regresso.
- E se eu não voltar?
- Oh… se não voltares, talvez aí eu me molhe com a chuva mas, abrigar-me-ei na lembrança deste nosso abraço e o seu calor, secará as minhas penas.



Foto pessoal

15 comentários:

Lídia Borges disse...

Maria João, estou encantada com este diálogo tão próximo de mim.
Vale sempre a pena arriscar. A eternidade pode caber dentro de um instante, por isso vale a pena "gostar" ainda que correndo o risco de acabarmos abrigados na lembrança de um abraço distante.

Beijo meu

Uma PROFESSORA apaixonada.... disse...

Que delicadeza, quanto sentimento!!! Fiquei emocionada...
Um beijo grande,
Lu

AC disse...

Maria João,
Que coisa doce e profunda, em simultâneo!
Vê-se que tem um coração enorme e uma grande crença no melhor das pessoas.
"Banqueteei-me" com o texto. Obrigado.

Beijo :)

Sonhadora disse...

Minha querida
Uma história terna e profunda, adorei.

Beijinhos com carinho
Sonhadora

Adolfo Payés disse...

Profunda y muy sentida tu historia.
Gracias por compartirla.


Un bello momento se pasa en tu espacio..


Un abrazo
Saludos fraternos.

Vanda disse...

Conheço-te bem. E só tu para escreveres um texto tão profundo.
Tinha que o comentar...
Beijinhos, mha Amiga (toda coração!)
Vanda Alves

manuela baptista disse...

Maria João

num agitar de ave

doce e suave

atingiu o vértice
o grau supremo

de um turbilhão molhado
capaz de secar as penas

e gostei muito!

um beijo

Manuela

SILÊNCIO CULPADO disse...

Maria João

Um diálogo lindíssimo do amor possível porque jamais se materializa. Porque pode ser sonhado e inventado. Ir no vento e na ilusão de ser ou de ter sido. Mas nunca experimentando o tormento terreno. Este espaço assaz pequeno para o amor... A menos que a alma seja grande e transponha os limites. A que preço? A que dor? A que grito?
Ainda que haja Primaveras, ainda que haja sorrisos, estas perguntas doem dentro com os momentos vividos.

Abraço saudoso Maria João. Sempre aqui voltarei. Perder a tua amizade era ficar mais pobre.

as-nunes disse...

Um belo diálogo, Maria João.

Li-o dum fôlego e com muita emoção.
Fica-se suspenso, pendente do juízo do tempo, do vento... com a ilusão do etéreo da Eternidade!

Parece que sentimos toda a saudade do Mundo, do que não sabemos o que somos, o que vai ser do nosso tempo, a certeza da incerteza das nossas vidas, a bailar volúvel...quase que a volatilizar-se no espaço sideral!

Um abraço
António

Rafael Castellar das Neves disse...

Excelente...muito bonito e carregado!! Parabéns!!

[]s

Nova Civilização disse...

Amiga,

simplesmente lindo... como és tão doce. Seus textos me fazem levitar.

obrigada. É sempre um prazer chegar até aqui e ler essas suas preciosidades,

beijinhos no coração,

Gisele

Cris Tarcia disse...

Maria João, que texto delicado, encantador. Como tb esta o seu cantinho , adorei a sua foto.

Beijos

Sofá Amarelo disse...

Que poderá haver melhor que andar no vento à procura de pedacinhos de nós próprios! O vento leva e traz as memórias de um tempo que muitas vezes construímos na imagem dos nossos dedos e das nossas lágrimas... É o vento que desdobra a felicidade nos abrigos que as nossas almas precisam...

. intemporal . disse...

.

. do diálogo nasce a luz .

.

. que nos conduz à introspecção do que a.final somos .

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. e saio . na certa certeza de que re.voltarei sempre .

.

. um beijo, maria joão .

.

. paulo .

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Vieira Calado disse...

Um diálogo enternecedor!

Beijinho para si, amiga!