
[Rio Alva - Avô ]
esquecidas no verde das colinas
e no musgo da história
suspensa
Neles, nos rios
embalam o canto
no encanto de serem água, apenas
gotas de um mundo maior
em lágrimas mudas

[Rio Ceira - Góis]
Na cor doce e suave do toque, o seu cabelo era mel e havia um brilho amendoado nos seus olhos, onde pressenti esconderem-se as pontas soltas de doze outonos de solidão. Era uma menina e chorava.
“ Não devia ter nascido!”- disse-o como quem solta do peito o derradeiro sopro, contraindo-se na espera de um eco inverso. Mas foi um grito o que senti, um grito que se me colou sangue adentro, até à dor impossível nas minhas entranhas.
Abracei-a.
“ Princesa, não é culpa tua!”.
O olhar dela agarrou-se ao meu. Náufrago. Salvo do abismo eminente por falta de um colo, de um beijo, de um afago. Salvo da vertigem recente, no mergulho negro de uma jangada de comprimidos. Salvo da desistência, no vergar da tenra esperança. Salvo para tudo, quem sabe o quê…
Desejei levá-la comigo, para lhe perpetuar na alma a força dos rochedos.
Desejei ter na mão uma magia própria, capaz de tocar o coração desabitado dos pais dela e de todos os outros também. Corações desertos de memórias e perdidos de si . Lembrar-lhes que é preciso sentir-se amado e desejado, para se conseguir aceitar da vida o que nos açoita e nos rouba o sol, ás vezes. Dizer-lhes que nenhuma gaivota voa livre, no saber desesperado de terra ausente que a acolha e a aconchegue dos cansaços do vento e da espuma alvoraçada do mar.
Desejei....
Mas sei tão bem, que há dias em que o sonho é o traço possível no horizonte imperfeito e outros em que o pesadelo é uma equação insolúvel.
Abracei-a de novo. Procurei dentro da emoção apertada, as palavras certas. Palavras isentas de ocos sentidos e outras banalidades. Nada. Só o abraço e o silêncio, possuíam a lógica do gesto próprio para aquele momento. Na dor, ofereci-lhe o óbvio e nada mais.
“ És tão bonita, e é tão bom viver…”.
Apertou-me contra si e, com o rosto cansado apoiado no meu ombro, disse-me baixinho:
“ Eu não queria…, eu não quero morrer. Mas estou tão triste..”
…
Hoje, passados alguns dias, busco a serenidade impossível na utopia dos desejos. Sei que ela virá, porque outros olhos me esperam. Olhares brilhantes ou baços, com outras dores, à espera dos meus braços e das palavras que, tantas vezes, não encontro.
Na procura, cruzo-me com Fernando Pessoa e descubro na sua poesia, o abraço que preciso para chorar.
“ A miséria do meu ser “
A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer.
Que roda fora da pista.
Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.
É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível.
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?
Fernando Pessoa
Por entre as fendas dos muros...
ouvem-se os lamentos
no ranger das amarras
e rasga-se a cal
pela força dos punhos
Nas fendas dos muros...
renasce a esperança do grito
temperado de sal
e o ruir das muralhas
no sopro nos medos
Das fendas dos muros...
escorre a seiva em cascata
ao abraço das mãos
que prolongam a vida
no encontro dos dedos
Fotos Pessoais
No meu tear
Junto os fios de seda branca
E neles, fio os dias
Mesclados de sonhos e palavras
Pétalas e folhas de um girassol
Que inquieto
Vai tecendo nas noites frias
O amparo desta alma de poeta
E nela sossega
Quando a vida
É um denso e inefável nevoeiro
... quando a punição de um crime é feita com outro crime.
Não existe nada, para além de insanidade!!
Sonegada a beleza de te recriares, pensamento
Juras conhecer os baldios e os riachos frescos
Que limitam o pulsar das tuas veias.
Choras e ris e sangras por fim
No desesperado deserto que te seca a alma.
E porque não tens força para te segurar nas manhãs,
Nos gestos, nos rios ou no que sobra deles
Tornas-te órfão das carícias sepultadas no tempo
Acreditando que da tua seara
Crescerá a côdea diferente
Que abalará toda a terra.
Engano teu
Coisa mesquinha
Já é tarde!
Fecha o portel que nos abriga
e vem comigo,
açoitar a noite malfadada,
espantar os corvos e a penumbra
e aqueles que de lava quente se alimentam,
enquanto nos lamentamos.
Já é tarde!
Fugiram as horas e o cantar das cigarras
e a luz vestiu-se negra,
consumida pelo nada.
Deitemo-nos nas cinzas mornas,
será aí, confinados à mais pequena ostra
e no tremor do corpo em convulsão,
que faremos a inversão do tempo
e por entre as nesgas do sol,
renasceremos pérolas raras
enquanto de mãos dadas diremos
Está na hora!