18 de julho de 2011

Mistérios vindos do mar


 Não sabia muito bem como chegara até ali, não se recordava sequer de ter dado ao cérebro as coordenadas do mar, mas era à sua frente que se encontrava, atraída pelo desejo maior de se livrar da angústia.
Não havia nada nem ninguém que a entendesse melhor que o mar. Só ele recebia tudo o que se lhe derramava da alma sem a questionar ou julgar, sem se impressionar com a falta de formalidade do discurso ou com as palavras avulsas, ausentes de rigoroso sentido.
Era apenas ele que a ouvia, num silêncio partilhado, comunhão de água.
Dizia-lhe ele, que tudo o que ia, voltava. Voltava devolvido, diferente, envolto nas algas verdes que saram a erosão do tempo nas rochas. Sopradas do vento norte, trazia-lhe as palavras maternas, sábias, também elas fortalecidas pelas ondas da vida:  “ À tempestade segue-se sempre a bonança, minha filha”.
Sabia-o, mas deixava-se engolir pela incerteza que lhe sugava a força de acreditar nisso.
Estava cansada, era sempre o cansaço que vestia pela manhã e que lhe pesava nos ombros vergando-os no sentido do chão. O esforço com que vencia a inércia de si própria, só à noite o estendia junto a si, em descanso, lado a lado com a ruína dos amores fracassados e o vazio das ausências.

Estava só.
Tinha amigos, poucos. Já não tinha pais e nunca tivera filhos. Era tronco de uma árvore infrutífera, esquecida num pomar abandonado. Só os corvos descobriam nela o abrigo das noites frias, mas rapidamente esvoaçavam. Fugiam, ou ela os espantava, já não sabia. Havia alguma coisa que sempre temera nas aves negras.

Era uma mulher só, para além de sozinha .
Não era por isso estranho que amasse a solidão. Conhecia-a bem e jamais se sentira enganada por ela. Jamais ela lhe prometera outra coisa diferente,  para além do constante e impalpável silêncio de si mesma. Mas às vezes, tantas vezes, sufocava-a. Agigantava-se dentro dela e tomava conta dos espaços exíguos por onde flutuavam os seus sonhos. Desejos humanos e inconfessavelmente femininos. Espalhava-se por todo o lado, escurecendo janelas, encerrando portas, invadindo as paredes até consumir todo o ar respirável. Até ao desmaio quase irrecuperável da esperança.
Naquele dia estava assim, asfixiada e dormente, sedenta de maresia.
Rodou a chave e o motor do carro parou. Pensou sair , sentar-se no paredão, mas a sensação antecipada do contacto da pele com a pedra fria e húmida, fê-la arrepiar-se. Estremeceu, e isso tornou-a mais frágil e desprotegida ainda, numa ampliação desmesurada de auto-comiseração que a envergonhava a si mesma.
Abriu um pouco a janela, ouviu o som do mar a afagar-lhe os ombros, pronto para o amparo da queda. Sem resistência, deixou os braços caírem em cima do volante, neles escondeu o rosto e, completamente indefesa, abandonou-se em si, num pranto convulsivo e incontrolável.
Permaneceu assim não sabe por quanto tempo, até que foi sentindo que o mar levara dela a espuma dos dias mais tristes e lhe restituía, serenamente, a força vinda dos corais em troca de tudo o resto que lhe doía.
Foi nessa altura que ergueu os olhos e viu, preso no pára-brisas, um pequeno papel com algo escrito. Saiu do carro, olhou à volta mas não viu ninguém. Pegou no papel, limpou o rosto molhado à manga do casaco e, com o coração a bater, no ritmo apressado de uma ansiedade surpreendente e estranha, leu:

"Tenha fé.
O tempo resolve tudo.
Felicidades. “

Passaram muitos anos.
Ela não deixou de estar só e de amar a solidão. Continua a procurar o mar e é ele que continua a ouvi-la, como sempre fez. Não, ele nunca lhe disse quem foi que lhe deixou, naquele dia, aquela mensagem. Mas ajudou-a a compreender cada uma das palavras escritas naquele papel, como uma verdade que toda a gente precisa de saber quando, na vida, tudo é menor que desespero.


21 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MARIA JOÃO


Querida Amiga,

Resolver:

Encontrar resposta para ...

Resolução:

( ... )

Transformação;

... Intrepidez; coragem;

... [Álgebra] Cálculo para achar a solução de um problema;

... [Medicina] Desaparecimento insensível de um tumor;

... [Música] Mudança ou passagem de um acorde para outro, de uma nota para outra.

( ... )


E quando tal acontece tudo ganha uma outra cor ...

... mais luminosa!

Um beijinho e uma boa semana


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Julho de 2011

AC disse...

Maria João,
No fundo todos estamos despertos para os pequenos detalhes, partículas que podem fazer a diferença em equilíbrio precário...
A sua alma é linda e límpida!

Beijo :)

antonio ganhão disse...

O mar sempre foi assim, vem até nós e quando se retira leva consigo muita da nossa inquietude.

Rogério Pereira disse...

"...ouviu o som do mar a afagar-lhe os ombros, pronto para o amparo da queda."

Quem sente assim o mar só pode sentir a solidão como coisa passageira...mesmo que intensa. Por vezes estamos menos sós do que se pensa...

O bilhete?
Será que o mar também sabe escrever?
(para mim sabe, fique a saber)

Maria disse...

Não direi que o tempo resolve tudo, mas atenua as dores. E isso pacifica-nos.
Também procuro no mar a tranquilidade que preciso para viver. É o fascínio das águas...

Um abraço.

Andy disse...

Encontrei-me em vários momentos deste tão belo conto.

Beijinho, querida amiga!

BRANCAMAR disse...

Maria João,

O Mar é o sítio onde desaguam todas as mágoas e alegrias, é um sítio mágico.

Também nós vimos encontrar neste teu sítio a magia das palavras certas, quer sejam em prosa ou poesia.

Desculpa, vinha ainda comentar o texto anterior e fiquei por aqui, o meu ritmo anda lento, o cansaço vence-me, mas não estou esquecida de sempre voltar, volto amanhã.

Beijos
Branca

Vieira Calado disse...

Viemos do mar, não é?

Se o soubermos interpretar

ele ensina-nos tudo!


Bjsss

Lídia Borges disse...

Hoje acordei a pensar que o acto de crescer (enquanto pessoa) é quase sempre doloroso. Mas, voltando a moeda verifico que sem dor não há crescimento, logo estes momentos que todos temos em arquivo constituem as provas de que fomos submetidos à "máquina" dolorosa do amadurecimento. Sem eles (os momentos) não seríamos forçosamente quem somos. O mar liberta-nos, prendendo-nos...
Para além disto, quero dizer-te, João, que não me enganei quando "decidi" ver-te como alguém muito especial.

Um beijo

Mel de Carvalho disse...

Dos mistérios marítimos mais insondáveis, talvez a pacificação de Ser seja, quiçá, um dos maiores...
E dou comigo a pensar, minha amiga, que, breve, breve, vou querer ver estes textos de prosa reunidos. Para começar. E mais não digo :)

Beijito daqui, João. A minha gratidão, sempre!
Mel

Cris Tarcia disse...

Maria João, amei seu conto.

Beijos

Rosa Carioca disse...

O mar é cúmplice!
Gostei imenso do texto.

manuela baptista disse...

e se o mar tivesse sido mais corajoso do que ele, ou o outro
que seria ele ou não

e

tenha fé, abra-me essa porta deixe-me entrar, o tempo resolve tudo menos a solidão

as felicidades são plurais e infinitamente particulares

como a escrita da Maria João

um beijo

manuela

Virgínia do Carmo disse...

No desespero todos nos confrontamos com esta solidão extrema. Ainda bem que há palavras que nos salvam.

[As tuas são sempre salvíficas]

Terno beijinho e muitas saudades!

N. Barcelli disse...

Gostei imenso do teu conto, em particular da narrativa e do final surpreendente.
Parabéns pela excelência deste teu pequeno conto.
Beijo, querida amiga.

O Profeta disse...

Calcei luvas, branca e negra
Afastei os braços ao abraço
Encontrei um pássaro feliz
As uvas são amargas no Mês de Março

Anos, dias, vidas que se perdem da vida
Voltaram com o Sol as Andorinhas do Mar
Quantas vagas correram adiante
Quantas perdidas penas entre o partir e chegar

Terno beijo

Dulce AC disse...

Resolverá o tempo tudo..?

Ou seremos antes nós com tempo a olhar o mar e vislumbrar lá longe num novo olhar um outro tempo..

Ter fé.
Acreditar...

Como gostei Maria João..maravilhoso.

Beijinho grande.
dulce

Sonhadora disse...

Minha querida

Passando para deixar o meu carinho e agradecer a amizade de sempre neste dia do amigo.
Tenho um miminho no lado direito do meu blogue.

Beijinhos
Sonhadora

. intemporal . disse...

.

.

. por isso . as lágrimas estão todas no âmago do mar .

.

. confidente de quem tem a apenas a terra inteira . e um pouco mais de azul .

.

. um beijo .

.

.

Mar Arável disse...

Um texto doce expressivo

que faz o que a poesia tem de fazer

interroga não resolve

O mar lá estava
a ouvi-la a emitir sons
numa folha de papel

Considere-se uma eleita

Bjs

Tere Tavares disse...

Maria João,
O mar é chão palpável, é aragem de palavras. Adorei o conto.

Beijos