![]()
Não sabia muito bem como chegara até ali, não se recordava sequer de ter dado ao cérebro as coordenadas do mar, mas era à sua frente que se encontrava, atraída pelo desejo maior de se livrar da angústia.
Não havia nada nem ninguém que a entendesse melhor que o mar. Só ele recebia tudo o que se lhe derramava da alma sem a questionar ou julgar, sem se impressionar com a falta de formalidade do discurso ou com as palavras avulsas, ausentes de rigoroso sentido.
Era apenas ele que a ouvia, num silêncio partilhado, comunhão de água.
Dizia-lhe ele, que tudo o que ia, voltava. Voltava devolvido, diferente, envolto nas algas verdes que saram a erosão do tempo nas rochas. Sopradas do vento norte, trazia-lhe as palavras maternas, sábias, também elas fortalecidas pelas ondas da vida: “ À tempestade segue-se sempre a bonança, minha filha”.
Sabia-o, mas deixava-se engolir pela incerteza que lhe sugava a força de acreditar nisso.
Estava cansada, era sempre o cansaço que vestia pela manhã e que lhe pesava nos ombros vergando-os no sentido do chão. O esforço com que vencia a inércia de si própria, só à noite o estendia junto a si, em descanso, lado a lado com a ruína dos amores fracassados e o vazio das ausências.
Estava só.
Tinha amigos, poucos. Já não tinha pais e nunca tivera filhos. Era tronco de uma árvore infrutífera, esquecida num pomar abandonado. Só os corvos descobriam nela o abrigo das noites frias, mas rapidamente esvoaçavam. Fugiam, ou ela os espantava, já não sabia. Havia alguma coisa que sempre temera nas aves negras.
Era uma mulher só, para além de sozinha .
Não era por isso estranho que amasse a solidão. Conhecia-a bem e jamais se sentira enganada por ela. Jamais ela lhe prometera outra coisa diferente, para além do constante e impalpável silêncio de si mesma. Mas às vezes, tantas vezes, sufocava-a. Agigantava-se dentro dela e tomava conta dos espaços exíguos por onde flutuavam os seus sonhos. Desejos humanos e inconfessavelmente femininos. Espalhava-se por todo o lado, escurecendo janelas, encerrando portas, invadindo as paredes até consumir todo o ar respirável. Até ao desmaio quase irrecuperável da esperança.
Naquele dia estava assim, asfixiada e dormente, sedenta de maresia.
Rodou a chave e o motor do carro parou. Pensou sair , sentar-se no paredão, mas a sensação antecipada do contacto da pele com a pedra fria e húmida, fê-la arrepiar-se. Estremeceu, e isso tornou-a mais frágil e desprotegida ainda, numa ampliação desmesurada de auto-comiseração que a envergonhava a si mesma.
Abriu um pouco a janela, ouviu o som do mar a afagar-lhe os ombros, pronto para o amparo da queda. Sem resistência, deixou os braços caírem em cima do volante, neles escondeu o rosto e, completamente indefesa, abandonou-se em si, num pranto convulsivo e incontrolável.
Permaneceu assim não sabe por quanto tempo, até que foi sentindo que o mar levara dela a espuma dos dias mais tristes e lhe restituía, serenamente, a força vinda dos corais em troca de tudo o resto que lhe doía.
Foi nessa altura que ergueu os olhos e viu, preso no pára-brisas, um pequeno papel com algo escrito. Saiu do carro, olhou à volta mas não viu ninguém. Pegou no papel, limpou o rosto molhado à manga do casaco e, com o coração a bater, no ritmo apressado de uma ansiedade surpreendente e estranha, leu:
"Tenha fé.
O tempo resolve tudo.
Felicidades. “
Passaram muitos anos.
Ela não deixou de estar só e de amar a solidão. Continua a procurar o mar e é ele que continua a ouvi-la, como sempre fez. Não, ele nunca lhe disse quem foi que lhe deixou, naquele dia, aquela mensagem. Mas ajudou-a a compreender cada uma das palavras escritas naquele papel, como uma verdade que toda a gente precisa de saber quando, na vida, tudo é menor que desespero.