8 de maio de 2010

Envelopes de coragem


Era sempre o dia mais esperado, aquele que trazia o sol para dentro de casa, embora a inevitável noite voltasse, quase de seguida. Mas o que importava mesmo, era aquele momento único em que todas as inquietações desapareciam por breves minutos, e crescia a ilusão de ser e ter um pouco mais.
O Patrão chamara-a e entregara-lhe o envelope, dizendo: “Continuamos a contar contigo”.
Quatrocentos e dez euros e vinte cêntimos. Apertou o sobrescrito nas mãos e pensou em todos os dias que o relógio, obstinada máquina do tempo, lhe ditava o imperativo maior de levantar o corpo da cama morna, onde dormia só.
Pensou nas horas em que as costas lhe reclamavam repouso e ela, ignorando-as, continuava na apanha da batata, ou na monda nas estufas.
Pensou na solidão e nas pernas cansadas.
Pensou na sorte que tinha, de não ter sido despedida e sem um ai ou qualquer outra queixa, prendeu tudo lá dentro, no lugar mais fundo de si, em memória de António que o Senhor o tivesse em descanso. Ele haveria de se orgulhar dela, como lhe prometera quando o fora a enterrar. Por via de todo o amor que lhe dera, nunca mais haveria de ter outro homem e faria dos filhos, gente nobre e valente.
Pensou no sorriso dos dois meninos a saírem de casa pela manhã, de mochila às costas e barriguinha cheia de cevada e pão com doce de tomate, feito por si.
Quatrocentos euros tinham que chegar, que os outros dez, mais os vinte cêntimos, já estavam destinados para pagar a água.
A caminho de casa, passou pela mercearia do bairro, comprou o pão de centeio e pediu ao Sr. Manuel que lhe trocasse o ordenado em notas de vinte. Era assim mais fácil dividir o pouco e menor a sensação do nada.
Em casa, com o sol ainda a aquecer-lhe a alma, pegou nos envelopes de papel já moído. No da renda da casa, juntou cem aos duzentos e cinquenta euros que já lá estavam, da sua pensão de viúva. Contou mais três notas de vinte e colocou-as no seguinte, para a luz e gás. Voltou a pensar no sorriso dos filhos e pôs de parte quarenta euros, para os sapatos novos do João e para o blusão do Pedro. Iria à feira, talvez desse para mais alguma coisa. O resto, guardou-o no terceiro envelope junto com o abono, para comprar a sobrevivência. Para eles, claro, e para os coelhos e galinhas que medravam na capoeira e mais para o adubo das alfaces e para os tomateiros que haviam ficado encomendados.
Se calhar, não chegava...
A noite caía novamente, fria, a ensombrar-lhe o olhar e a vida. Ainda deixou cair duas lágrimas, lambeu-lhes o sal e secou-as com a manga do casaco. Renunciaria à tristeza com todas as forças, tal qual sua mãe, noutros tempos. Arrumou tudo na gaveta da mesinha de cabeceira e saiu para a horta.
Enquanto apanhava as laranjas, e as couves para a sopa da janta, pensou na alegria dos filhos que em breve chegariam a casa e se abraçariam a ela e decidiu falar no dia seguinte com a Alzira, sua amiga de infância. Ela haveria de lhe arranjar umas escadas para lavar ao domingo, lá nos prédios novos onde trabalhava.
Por Deus, haveria de chegar!


22 comentários:

António Gallobar disse...

Olá Maria João

Li este seu belissimo texto, quase revejo na integra, as dificuldades do nosso povo, e pelo que estamos a passar, no magro salario que não chega, na história dos envelopes tão real, que chega a ser quase comovente, agora o que falta é deixar a imaginação soltar-se e continuar a escrever, quem sabe se a amiga Alzira em vez de escadas lhe apresenta um namorado para dar um pouco de alegria a esta vida triste.

Beijinho, adorei naturalmente, continuo ausente mas presente.

Bom fim de semana

Sonia Schmorantz disse...

Para as mulheres que também são pai e mãe de familia, este é um drama diário, rezar antes de deitar que surjam pequenos milagres que as ajude a levar a vida adiante, dando o melhor para seus filhos.
Obrigado pelo carinho
beijo

Nova Civilização disse...

Amiga,

cheguei a ver a face sofrida e temerosa da mulher e a sua gratidão a lhe acompanhar. Quantas mulheres, hoje, lutam pelo pão de cada dia. Mulheres fortes que vão a luta... pelos filhos, filhos que as fazem levantar a estarem prontas para mais um dia de luta, de suor, sem reclamar.E ao sentir que vale a pena ver cada sorriso em seus rostinhos, cada beijinho que nos dão. Só por amor!

Seu texto nos faz entrar na história, visualizar os personagens, o lugar... Perfeito. Tens um talalento especial,

Obrigada por partilhar esse seu bonito dom com todos nós.

beijinhos,

Gisele

Sofá Amarelo disse...

Porque a força não está no que se diz mas no que pensa e no que se faz... história de 'sobrevivência' salpicada de laivos de ternura e de esperança, quando o Sol não é mais que um pequeno raio por entre as nuvens na Vida... há quem acredite que as nuvens se podem dissipar... e acreditar é sempre o princípio de tudo...

Sandra disse...

ESTOU COM SAUDADES.


DESCULPE MINHA AUSENCIA.MAS NÃO FOI POSSIVEL VIR ANTES. ESTAVA TAMBÉM COM SAUDADES DE VC.
TENHO QUE DIVIDIR MEU TEMPO EM MIL.
MAS OS AMIGOS MORAM DENTRO DO MEU CORAÇÃO E PENSAMENTO. POR ISSO JAMAIS SERÃO ESQUECIDOS. PASSE O TEMPO, PASSA AS HORAS. MAS VC ESTARÁ COMIGO..MINHAS LEMBRANÇAS SEMPRE ME REPORTAM ATÉ VC. OS HORIZONTES SÃO GRANDES, MAS O AMOR ENCURTA ESTA DISTANCIA.
UM GRANDE ABRAÇO.
SANDRA

Teresa disse...

Infelizmente, há muita gente a passar dificuldades. Outros tantos, não merecem o que recebem. Mundo estranho, este.
Olha, tens um prémio no meu blogue. Passa por lá.
Bjs

as-nunes disse...

Maria João

Talvez que haja dias em que nos sentimos mais frágeis, sei lá mais debilitados psicologicamente.
Um texto como este, uma história de vida que será, seguramente, mais actual que muita gente imagina, contada desta maneira, parece que a estamos a viver, é comovente.
Não tenho vergonha de o dizer. Pouco faltou para me virem as lágrimas aos olhos...

Bom Domingo, minha amiga
António

Mariazita disse...

Amiga Maria João
O teu texto é muito comovente, especialmente se pensarmos que é o retrato de tantas vidas cujos envelopes têm tão pouco lá dentro.
São pessoas assim, que apesar de todas as dificuldades continuam em frente, por amor de seus filhos, que me levam a pensar que nem tudo está perdido, e um dia virá em que o sol brilhará mais tempo para elas.

Beijinhos

Rosa Carioca disse...

Ao ler este texto,lembrei-me da minha infância. Parecia um ritual: quando meu pai chegava em casa com o salário, chamava minha mãe e a mim (desde os oito anos que me lembro), sentávamos à mesa e minha mãe fazia a separação pelos envelopes (água, luz, renda, mercearia...). No fim, meu pai pedia algum para os cigarros e minha mãe repetia a mesma coisa, todos os mêses:- Oh, Henrique, porque não tiraste logo para ti. E meu pai respondia sempre a mesma coisa: -Não. Primeiro, entrego todo o salário a ti, para fazeres a separação. Depois, logo se vê.
No meio deste ritual, eu perguntava se podia ir brincar e meu pai dizia: - Não. Já tens idade para saber como orientar o nosso salário. E aprendi... até hoje... só não uso envelopes...
Belíssimo texto.
E muito obrogada pelo abraço. Eu senti-o.

Ana Martins disse...

Boa noite Maria João,
este é de facto um belíssimo texto, uma história de amor e coragem, e tantas outras semelhantes a esta haverão por aí.
São MULHERES que nunca baixam os braços por amor aos seus.

Beijinhos,
Ana Martins

Vieira Calado disse...

O seu texto muito bem escrito.

Daqui lhe envio um beijinho

José Quintela Soares disse...

Curioso, ao ler o texto lembrei Júlio Dinis e o seu tempo.
Mas afinal esse tempo é ainda hoje.
E não se vislumbra o seu final.

Muito bom.

Angela Ladeiro disse...

Este tema é sempre actual e pensamos pouco nele. Bem haja por tê-lo posto aqui. Um beijinho

Arierref Olenga disse...

Olá,Passei por aqui e gostei do que vi... Gostei o suficiente para me adicionar aos "seguidores" do Blog.

Uma abraço / GW

http://www.generalgw.blogspot.com/

. intemporal . disse...

.

. de dentro para fora . a.penas .

. re.deixo o beijo de sempre, no tom e no dom do re.beijo amplo e total .

.

. paulo .

.

Mar Arável disse...

Uma ternura de texto

a sugerir que se despertem

os rebanhos

Bj

A.S. disse...

Maria joão,

Um fragmento de vida que tantas vezes se repete. Uma vida de privações tantas vezes escondidas, mas que sabemos que existem!
Sublinho a forma descomplexada e frontal com que abordas uma questão crucial, à qual muitos parecem indiferentes! Bem Hajas!!!


Abraços
AL

MCampos disse...

O seu texto é belo, neste mostrar triste de uma realidade tão comum. Só o título seria já um poema. Gostei muito, Maria João, deste seu registo.

Um beijinho e bom resto de semana.

Nilson Barcelli disse...

Também gosto desta tua vertente.
Nem sei de qual gosto mais, da tua prosa ou da tua poesia.
Já sei... gosto mais das duas...
Pois, querida amiga, este teu texto é fabuloso. Na forma e no conteúdo. Gostei muito.
Bom resto de semana.
Beijo.

Cris Tarcia disse...

Maria João, que lindo, uma linda história de coragem.

Beijos

Nova Civilização disse...

Amiga,

vim deixar um beijo e um abraço apertado pelo dia do enfermeiro(12/05)

Parabéns a todas nós!

beijinhos no coração,

Gisele

Meg disse...

Maria João,

Depois das decisões desta tarde, estou seca de palavras depois de ler este texto (retrato).
Felizmente há gente como tu... isso é um bálsamo no meio de tanta safadeza.

Beijo grande