3 de junho de 2013

Palavras à beira do mar


Picasso - Os pobres à beira do mar ( 1903 )

Antes da revolta do mar
as gaivotas, em desespero, guardavam as asas
e cobriam-se de sargaço para que ninguém soubesse
que decidiam morrer antes do fim das palavras.

Dentro do vento, as vozes das mulheres
anunciavam o fim do mundo
tecendo e destecendo o silêncio
com que protegiam o corpo da bruma
e mirradas de colo, agarravam-se ao ventre
na antecipação da angústia.

Na praia, só os meninos
desenhavam o sol dentro das conchas
enquanto  as casas desmoronavam
com o peso do sal sobre as pálpebras
e os homens, presos às estacas
vigiavam o gemido das ondas
quebradas na dureza dos rochedos
e amedrontavam-se como nunca
dentro dos próprios punhos.

Antes da revolta do mar
a terra era uma chaga
a esvair-se de humanidade
e foi preciso semear poesia
à boca de todas as marés
para que o grito amadurecesse
e o mar cantasse o hino
de um coração de lava transbordante
que  desembaraçado de algas e fantasmas
num estrépito se elevou, vivo
a encimar o mastro de uma nova caravela.



9 comentários:

Mar Arável disse...

O mastro mais alto da vida

Bjs

Lídia Borges disse...


Ao longe uma vela de Esperança. Salve-se!

Um beijo

Brígida Luz disse...

Porque é imensa a tua poesia,
deixo palavras de um outro autor, também ele imenso,
também ele um dos maiores:

"... esse dia, esperança de amanhã, poderá chegar e estarei
[dormindo.
hoje, sou um pouco de alguma coisa, sou a água salgada
que permanece nas ondas que tudo rejeitam e expulsam
na praia. as gaivotas sobrevoam o meu corpo vivo. os meus
cabelos submersos convidam o silêncio da manhã, raios de sol
[atravessam
o mar tornados água luminosa. aqui, estou vivo e sou alguém
[muito longe."

José Luís Peixoto
in [A Criança em Ruínas]


Beijinho, Maria João :)
Continuação de uma boa semana

A.S. disse...

As palavras na praia, permanecem incólumes perante a fúria das marés, consagrando o poema, enquanto a espuma das ondas se apaga num último suspiro...


Belo Poema Maria João!
Um beijo,
AL

heretico disse...

grato pela presença.

gostei muito do poema e vejo por aí "rostos" amigo.

voltarei, se me permite

abraço

António Gallobar - Ensaios Poéticos disse...

Olá querida amiga

Mais um belo poema, um retrato fiel deste povo que somos, feitos de mar e de sonhos, onde apenas os miúdos desenham o sol... Maravilhoso

Beijinhos

AC disse...

Semear poesia...
Que grande conceito, Maria João!
(Este poema é um monumento de palavras)

Beijo :)

Mariazita Azevedo disse...

Querida Maria João
Não te desculpes por não teres estado presente no próprio dia da postagem – dia 6.
Sabes que os amigos não têm hora para chegar, e são sempre recebidos de braços abertos. É assim que te acolho, sempre.
Não é nada ridículo pensares que quem amamos vive sempre dentro de nós, pois comigo é exactamente isso que se passa.
O meu Amor continua intacto, e acredito que assim ficará até ao fim dos meus dias.
Que, com o passar do tempo, surja uma maior conformação, aceito. Que a dor se torne mais suportável… também admito.
Mas o Amor não sofre alteração, por muito tempo que passe.
Muito obrigada, querida, pela tua presença e pelas tuas palavras de apoio e carinho.
Beijinhos com muita amizade.

Este teu poema é, simplesmente, FABULOSO! Dos melhores que tens escrito.
Parabéns!

PS – A minha próxima postagem será amanhã, dia 14, como habitualmente.

Maria João Brito de Sousa disse...

Gostei tanto, Maria João... mas ando "mirrada" de palavras... e de poesia, consequentemente... esgotei-as ou esgotei-me nelas. Talvez um dia possa voltar a semeá-las...


O meu abraço!