2 de abril de 2013

O teu nome, nada mais


Mirjam Delrue


Pouso os olhos no teu nome*, pai
É tudo o que tenho; o teu nome
Essa conjugação imperfeita da tua vida na minha
Como um eco mudo e cego que me rasga
Um fundo mais fundo onde não existe o teu rosto
Nem as tuas mãos a sulcar o meu caminho
Nem o teu afago na minha memória.
É tudo o que tenho de teu, pai
O teu nome e nada mais.
Nenhum fio de lembrança, nenhum nó, nenhum laço
Nenhum prumo, nenhum rumo
Nada que esteja ancorado à tua voz
E que eu tenha amado ou esquecido para me salvar.
Por isso o meu peito é um espaço exíguo
De estilhaços gastos
E talvez o teu único pecado seja
Não teres pousado os olhos no meu nome, pai
E não saberes que eu sou
Sangue teu a gotejar
Sobre esta dor azeda de viver
Sentindo a tua falta.

* in: "Sou, e Sinto" de Virgínia do Carmo - p.49

9 comentários:

Dete disse...

Que lindo Maria! Tanta tristeza, ternura e solidão mescladas com beleza. .. Um abraço.

Rogério Pereira disse...

Há coisas que eu penso
E há um poeta que escreve
Assim mesmo, como eu pensei
É para isso que servem os poetas
Escreverem sobre o que nos vai na alma
no pensamento, na memória

Bem hajam

Mar Arável disse...

Uma ternura

sem mais palavras

Bjs

Lídia Borges disse...


"Nada que esteja ancorado à tua voz"

Tão pouco do tanto que deveria ser ser.

Um beijo

Andy disse...

tão intensa a tua voz a transbordar...
há saudades que vivem no silêncio mais profundo daquilo que somos.
belíssimo, amiga!

beijo carinhoso

Sandra Subtil disse...

Este poema rasgou-me por dentro. Lindo!

Maria João Mendes disse...

Tocante, uma falta
Palavras ditas do coração
Um despejar de alma,
Uma dor…com nome.

Apesar de palavras doloridas
Belo, teu poema.

Beijo :)

Branca disse...

às vezes a saudade aperta e solta-se em versos loucamente lindos, embora doridos, como estes.

Um poema que nos toca profundamente.

Beijos

Virgínia do Carmo disse...

Profundamente belo o nascimento das palavras que substanciam com perfeição o que nunca será perfeito.

Gostei tanto...

Um imenso beijo