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25 de outubro de 2013

Do indizível



Nunca disse tanto como agora; acredita!
As palavras aninham-se dentro dos lábios, seguras de que só as mãos conhecem o caminho certo, isento de significados dúbios.
Agora, oiço a dimensão oculta do mundo, na ponta dos dedos, e vejo melhor o quanto o ruído nos cega.




21 de maio de 2012

Espaço vivo



A realidade é um espaço vivo onde construímos a eternidade.
Um espaço onde o sol espera sem cansaço o seu próprio tempo de sorrir. E fá-lo, até que tudo seja claridade, e guardemos no fundo dos olhos o verdadeiro nome das coisas.




Imagem:
Vladimir Kush - " Waiting for Luck"  

5 de abril de 2012

Partilhar





Partilhar com o outro o que se tem, por muito pouco que isso possa parecer, será  sempre um enorme gesto de amor autentico.

Páscoa Feliz !



27 de fevereiro de 2012

No avesso das máscaras


                       René Magritte, Le double secret, 1927, óleo sobre tela.

Somos a metade que é, e a outra que procura ser e se desconhece.
A que chega e a que parte, na troca de dias e noites a unirem uma só realidade à beira do crepúsculo. 
E nunca são iguais os mesmos rios no avesso das máscaras, porque diferentes são os rostos que plantamos nas margens, num tempo em que não nos sabemos e sofremos por nos tornarmos conscientes disso.



18 de fevereiro de 2012

Mutismos


" Girl with a Pearl Earring " de Johannes Verme

Das paisagens que trago comigo, há um campo de malmequeres silvestres de que nunca te falarei.
Sabes, é que as palavras às vezes afastam-nos e eu escolho emudecer de verbos para que me oiças.

Que farias tu no meu campo de malmequeres silvestres?



2 de fevereiro de 2012

Minimidade



   Sou
      este átomo.
      Depois não sei,
      não sei o que é ser outra coisa para além de um átomo.



20 de dezembro de 2011

O Natal




E eis que se aproxima
assim,
como quem semeia uma luz possível no coração de cada um
e torna mais visível o caminho por onde vamos.





Ft - "O Semeador de Estrelas" - Kaunas, Lituânia

12 de dezembro de 2011

O tempo dos presépios



É tão breve o tempo dos presépios.
É tão estreita a frincha da janela,  por onde deixamos entrar o céu,  a cintilar em cada um dos quatro cantos de uma solidão espessa e indizível.
De peito quase aberto, acertamos a sintonia dos compassos da humanidade, e os olhos demoram-se mais no interior silencioso das coisas. Há agora, um desejo maior de sermos, a luz que aquece o coração de todos os flocos de neve e a pele que veste o corpo rasgado dos afectos.
Mas é tão efémero o tempo dos presépios, que me excedo já em nostalgia e procuro em mim, o trilho certo para a eternidade dos momentos.  



6 de dezembro de 2011

O inverno dos pássaros



Quando o tempo arrefece e  as horas parecem mais pequenas e mais vazias, detenho-me na alma das aves que se abrigam dentro das próprias asas. Há um desespero estranho colado ao silêncio das suas penas. Há uma solidão velada e fria no canto rasante, sem voo, nem melodia.
É Dezembro.
Em Dezembro, continuo a espantar-me com tudo o que não sei sobre o inverno dos pássaros.





29 de novembro de 2011

Só as vírgulas rasgam desertos



Há dias em que nos sentamos no último degrau e olhamos o lugar vazio onde perdemos a vontade de ser alguma coisa. Abandonamos os braços no sentido do chão e damos ao cansaço o ombro silencioso e estéril de todas as desculpas.
Há noites escuras em que a lua desenha no céu uma vírgula, para nos lembrar do arado que só rasgando o chão consegue lavrar todos os desertos.



4 de novembro de 2011

Partículas de mar



Somos apenas partículas de mar.
Gotas de água de um oceano imenso.
Esquecermo-nos disso,  é viver inutilmente nas margens de uma vida sem nunca encontrar uma foz que nos abrace.




31 de outubro de 2011

Nascidos nas mãos




Nas nossas mãos, do lado de dentro das linhas, nasce de nós a poética mais bela.
Por muito tempo que leve a nascer, o tempo é o fermento das melhores searas. E nós, a emergência de sermos no gesto que nos descreve.




25 de setembro de 2011

Amo-te!




Amo-te!
Amarei todas as folhas onde os teus olhos repousem.
Ignorarei a chegada do vento onde se aninham  os invernos e, quando te parecer que a natureza te abandonou, encontrarás no meu coração o contorno dos meus lábios.
Saberás então, que há palavras que nunca são inúteis.




24 de agosto de 2011

Gestos




Pega na folha amarelecida onde somaste os dias e espreme-a, até sentires caírem dentro de ti todos os gestos moribundos de que te esqueceste. É deles que tens de cuidar antes que a vida te morra, e tu com ela, sem te dares conta.



23 de julho de 2011

Autenticidade



Woman with Eyes Closed -  Lucien Freud (2002)


Mesmo que no céu voem pássaros de belas plumagens e em terra, as flores se sintam pequenas ante tamanha beleza, a autenticidade é uma vela que nos revela, neste tempo obscuro onde tudo é efémero.
Sagrada é a vida e ela, é que é bela. 
Grande,  
é apenas o que de fértil deixamos germinar dentro dela.





12 de abril de 2011

De mulher para mulher



Se te falarem no brilho de cada um dos teus cabelos ou da beleza pintada nos teus olhos, não te esqueças da solidão que semearam em ti e te empardeceu o corpo, enquanto procuravas a cor certa para não chorar.

Só assim, conseguirás ver-te inteira em qualquer espelho, sem que o reflexo da lua te cegue e te impeça de pincelar a branco, todos os cinzentos que te habitam.

Depois...
depois sim, deixa que te cresçam as asas na grandeza que em ti encontras.


1 de fevereiro de 2011

Imperfeição



Aceitar a imperfeição de alguém, é compreender a nossa própria condição, e o quanto todos somos incrivelmente parecidos, embora julguemos que não.