15 de janeiro de 2014

Roda de fiar




Gira a roda no mesmo sentido
que o linho se ajusta
e vestindo o sonho
torna-o coisa palpável
à distância do teu desejo.
Aprende a esperar que o novelo cresça
sem que a firmeza se perca
do propósito dos teus dedos.
É nas linhas da tua mão que a vida se tece
no tempo que é, neste agora que urge.
O futuro é um movimento circular
e tu um fuso que roda
até que o fio construa, na roca, a meada
que há-de ser da tessitura
o teu melhor retalho
no ciclo constante do mundo.





31 de dezembro de 2013

Ao passar



Todo o sonho é feito de luar
Dessa luz que trespassa  a noite rasa
E se revela a sombra no rasto de quem passa
Dá também ao chão a lisura do caminho.



BOM ANO!

a sonhar...



25 de dezembro de 2013

Bom Natal




Não é difícil, por estes dias, vestir o coração de espírito natalício.
A grande dificuldade é fazer com que assim permaneça ao longo de todo o ano.

BOM NATAL !



4 de dezembro de 2013

Nasceu Dezembro




Nenhum céu nos basta, mas mesmo assim
Dezembro continua a nascer
agarrado ao coração por um ramo de azevinho.
Por todo o lado as palavras quentes rodopiam
e apesar do gelo
o mundo perde cantos e arestas
sem diferenças entre ruas e ruelas.
E vemo-lo a embrulhar-se em fitas coloridas
bolas doces e afectos;
tristezas que sorriem
ao ritmo intermitente da claridade nas janelas.
Nenhum céu nos basta, é certo
porque ébria e fria é a neve a cair no inverno.
Mas que importa: é Dezembro
e quem sabe, talvez
a ponta de uma estrela nos caia
bem no centro do peito
e seja ela a chama iluminada
que entre rochedos e musgos
rasgue a noite de novo
e nos leve a uma outra estrada
onde jamais se perca o sentido
do celeste azul que cobre a humanidade;
razão primeira de todos os presépios.


1 de dezembro de 2013

Sementes que saciam


São sempre felizes os dias em que o poeta semeia a palavra que germina: o verbo que alimenta e sacia.
Foi assim, ontem, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga.
E eu, orgulhosamente, estive lá!


Uma certa luz

Há dias em que os corações
amanhecem abertos à claridade.
Então, são inúteis as palavras
porque a luz é vidro e corta
gume ou fio de sol
desejoso de ser noite.

Lídia Borges, Sementes Daqui, Poética Edições (Nov. 2013)



20 de novembro de 2013

A ver o mar















Quando o vento roda a sul
o peito erguido de uma gaivota
ela sabe que o destino
é feito da amplitude das asas.
Segue, a ver o mar.
E todo o céu é seu.
E toda a maresia
lhe cabe na memória.
De prata
apenas o chão de água;
o resto, o resto é sol
é vida
claridades, e penas a voar.


(foto de Gabriela Chagas)

5 de novembro de 2013

Caminho seguro




Afago os teus passos
e levas-me ao tempo em que os dias não morriam
apenas descansavam nos teus braços
e a noite era o tempo de sonhar com mais caminho.



25 de outubro de 2013

Do indizível



Nunca disse tanto como agora; acredita!
As palavras aninham-se dentro dos lábios, seguras de que só as mãos conhecem o caminho certo, isento de significados dúbios.
Agora, oiço a dimensão oculta do mundo, na ponta dos dedos, e vejo melhor o quanto o ruído nos cega.




20 de outubro de 2013

Ao cair da flor



É tua a rosa
o perfume excelso de cada uma das suas pétalas
o queixume eterno da sua floração breve.
Pertencem-me os espinhos
todos
o caule digno e aprimorado
e a terra
onde todas as estações acontecem.




16 de outubro de 2013

Réquiem à beira do inverno



Quando uma haste se parte
é sempre inverno no interior das árvores.
Ninguém vê
mas as raízes também choram a inevitabilidade
e nem o silêncio da terra as conforta.
É sempre assim:
as folhas nunca sabem preparar o peito
para sentir saudade.