27 de maio de 2011

Reinvente-se o grito



Um dia…

Talvez um dia

Se preencham os vazios
Com palavras eruditas
E no pó levantado do chão
Se descubram os deuses
Que obstinadamente
Se mantêm de pé.

Talvez um dia

Os olhos não ceguem
Na descrença dos gestos
Os arados não gemam
De solidão
Nem os mastros se rendam
Ao abandono das marés.

Mas hoje

É urgente que as bocas se encham de espigas
E frutos maduros
E mesmo na ausência de vento
Se reinvente o grito
Como o desfraldar de uma asa
Emanado
Do pundonor de uma bandeira.


19 de maio de 2011

Para que não me esqueça de ti



Quando o tempo adormece
Dentro da tua cabeça
E o que choras
É apenas a saudade que te arrasta,

Deixa que os teus os passos sejam lastro
Da polpa de uma árvore mansa
Sabendo que a paz
Tem a cor do teu cabelo
E da vida,
Te sobram distraídos os minutos
Na lentidão das palavras
Que abandonas
Ao ritmo da tua memória confusa

Já não há veredas que te doam
Nem segredos por inventar
Já não há rio
Onde deixes cair
O pingo de vida que tens,
Suspenso na ponta dos teus dedos

Por isso o pousas no meu rosto
Para que não me esqueça de ti



15 de maio de 2011

Foi assim....



Há momentos em que nada do que eu possa dizer
diz o tanto que eu quero....












Obrigada!
 

3 de maio de 2011

Do outro lado do espelho


 Desprendo de mim as palavras e dou-as a ler,
para que elas possam ser, um novo detalhe nos vossos olhos.


"Do outro lado do espelho" é o meu 1º livro.
Um livro de poesia que tem a chancela da editora  Lua de Marfim, e que,  tendo nascido do incentivo das Vossas leituras e da generosidade das Vossas palavras, muito me honraria a Vossa presença no seu lançamento.
Esse evento, terá lugar no próximo dia 14 de Maio, no Auditório do Campo Grande -56 em Lisboa, pelas 16 horas.
Ladeada  pela escritora Mel de Carvalho e pela jornalista Otília Leitão, lá estarei à Vossa espera.






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29 de abril de 2011

Flor da Vida


Nas gotas redondas de uma água não antes tão cristalina, bebeu a essência de ser, simplesmente, uma asa a voar no sentido do infinito. No centro de si, uma força contraía para o fundo da alma a razão de todas as coisas que se abraçam à misteriosa energia do amor.

Abriu o sorriso e sentiu-se singular.

Voltas? – perguntou em silêncio.
Mas não era de regressos que falava o encontro das mãos, mas sim da posição exacta das pétalas , quando se descobre a sintonia do universo.
Abraçaram-se.
Agarraram-se os dois à pele que, possuindo a mesma geometria, desfazia todas as névoas feitas de arestas irregulares e que restituía aos olhos, a circunferência pura do brilho dos cristais.
Humildemente,entregaram ao vento o que pensavam e souberam-se um imenso mar, irradiando nas ondas o idioma que as palavras desconhecem.
Nada mais simples foi preciso dizer, enquanto o ventre crescia de novo e os pássaros anunciavam a descoberta do enigma, contido na flor da vida.



19 de abril de 2011

À espera que me respires















Na exaustão dos dedos
a desfiarem rosas,

repito-me,

no murmúrio das contas
perfumadas
pelo perdão das sílabas

enquanto os verbos fogem
para longe da boca,
prolongando nela o silêncio
de não te saber dizer
o que mais me dói
sem que me trema o coração.

Frágil andor
na procissão dos afectos.

E assim serei,
a mais serena brisa
à espera que me respires.



Na procissão dos afectos, desejo a todos, uma serena, doce e santa Páscoa.
Bem Hajam!


12 de abril de 2011

De mulher para mulher



Se te falarem no brilho de cada um dos teus cabelos ou da beleza pintada nos teus olhos, não te esqueças da solidão que semearam em ti e te empardeceu o corpo, enquanto procuravas a cor certa para não chorar.

Só assim, conseguirás ver-te inteira em qualquer espelho, sem que o reflexo da lua te cegue e te impeça de pincelar a branco, todos os cinzentos que te habitam.

Depois...
depois sim, deixa que te cresçam as asas na grandeza que em ti encontras.


5 de abril de 2011

Guardado nos corais



Naufraga de ti,
Foi na areia junto ao mar
Que incrustei os lábios
E a tua sede.
E foram tantas as marés,
Que hoje apenas os corais
Sabem
Do quanto te amei em silêncio
Na depuração das águas.
Só eles conhecem o aúste
Que trago em seiva
À tua espera,
Como um cais,
Tecido nas redes do tempo
 E na visão antecipada
Do regresso dos barcos
Ávidos de beber.


Foto : José Carlos Dias Gomes - Olhares.com

28 de março de 2011

O gemido dos teus olhos


Não era o fogo que fazia gemer os teus olhos
Apenas  mágoa,
Que sem saber porque nascera
Amparava o desfolhar das camélias
Como se elas fossem,
O único chão possível
Para acolher a nossa alma a morrer de angústia.

23 de março de 2011

Há sempre uma manhã





Na morte das noites densas
há sempre uma manhã
que crê no regresso das andorinhas
e na dor sublimada dos poetas.
É o beijo do vento
no eclodir das folhas que hão-de vestir
de novo
os ramos nus
como as palavras vestem os versos,
musas, a bordar desígnios
nas asas feridas das borboletas.