Se a noite cair em mim
E me fizer rendida à terra,
Inesperadamente
Eu serei de novo
Flor do cardo
A beber da saudade dos teus olhos
A indizível serenidade
Do amor eterno.
Filho da Azinheira, como gostava sempre de dizer, nasceu naquela pequena aldeia do concelho de Oleiros, num tempo em que o mundo se circunscrevia ao perímetros dos pinheiros a perder de vista . Estes rodeavam as casas feitas de pedra e divisórias em madeira que hoje em abandono e ruínas ainda lá permanecem, apenas para fazer lembrar a história.Dos seus olhos, do espaço inundado pela linha de água que envolve o caule dos nenúfares, viu-a sentada na escarpa a desfolhar folha a folha, as páginas do seu próprio poema.
Cinquenta páginas, cinquenta vidas, cinco flores nos sentidos de uma só mão e na outra, a silhueta redonda mundo.
Ouviu-lhe a oração das contas, rosário de dores e sonhos, presos ao mastro de uma frota de caravelas perdidas, em terras de mouros, carregadas de esperança, dentro do seu próprio tempo.
Soube-a doce e salina no entrelaçar do cordão de água, movimento pendular dos dias em espera.
Escutou-lhe o saber do corte dos cachos, da colheita fértil das searas e do perfume das pétalas caídas.
Ofereceu-lhe de beber, mas ela já era água.
Estendeu-lhe a mais fina das algas, mas ela era já, o fio mais precioso de Ariana.
Falou-lhe das palavras escritas no silêncio, mas eram já silêncio todos os seus versos.
E nada mais tendo para lhe restituir de sol, desprendeu de si a lágrima dourada caída de uma das cinco pontas de uma estrela e, de mansinho, colocou-a no alinhamento da constelação que celebra a vida, sinal e vértice perfeito da luminosidade daqueles olhos. Colocou-a ali, para que fosse a luz do seu caminho e lhe revelasse a transparência fina, para além da poeira das incógnitas.
Depois, em silêncio, regressou ao lado de lá do espelho, ao leito do seu próprio rio e cravou os joelhos nos seixos seculares, onde guardava todos reflexos.
Partiu destemida pela noite dentro, sem xaile que lhe cobrisse o espanto de se descobrir nas sombras. Queria perceber-se no perfil sinuoso de cada uma das fases da lua e virar do avesso todas as costuras do tempo. Queria saber-se inteira, ver-se sangrar em cada aresta, na rugosa imperfeição que sentia pertencer-lhe, tão eterna.
Naquilo que lhe pareceu durar o breve movimento das pálpebras, fechou os olhos e soube do medo à espreita do intervalo vacilante dos seus passos. Mas logo à frente, aquela vontade, atraindo-a, como uma verdade atómica, para o fundo de si, sem receio de sentir todos os ângulos no contorno das dúvidas ou, as diferentes texturas que a habitavam, há tanto tempo já.
Algo lhe apontava ali, a direcção do sol que haveria de penetrar de mansinho, em cada frincha desbravada da sua escuridão e iluminaria, um a um, todos os seus espaços. Algo lhe dizia que só assim, poderia entender o magnetismo das estrelas e o quanto aceitar-se, pode ser o mais doce e sereno início de uma viagem feliz, de braço dado com o mundo.
Quando deixaste o amor suspenso
num trémulo segundo de uma hora incerta,
tentei beijá-lo com a estrofe mais suave,
a mais singela e a mais perfeita,
para que não voasse.
Não sabia ainda que na tua alma já não vivia o verso,
nem que a minha vida deixara de ser poema.
Depois disso
o silêncio tornou-se um hino
e eu
um anjo aprisionado
na minha própria harpa.
Os anos passam, sucedem-se... uns tão apaticamente iguais, outros tão dramaticamente diferentes.Com a amizade, o carinho e a gratidão de sempre, para todos...
BOM ANO !