Um dos imperativos da vida é desejar que a memória não se perca.
15 de junho de 2014
30 de abril de 2014
Versos do lago
Naquele lugar
haverá sempre versos
que demoram
entre uma chávena de chá
e o colo das tardes
entrançadas em palavras.
Escrevem-se no aroma das frésias,
no interior de um fruto amadurecido
lentamente,
e guardam-se no segredo do lago
como se fossem paisagem inacabada
de um poema completo
que nunca sabe como dizer-se.
13 de abril de 2014
Homens e bichos
Distingue o canto e a ave
porque uma fábula é
um conto inventado:
só isso!
A tua história é a
dos Homens
daqueles que querem
ser Homens.
Não a dos bichos!
Não a dos bichos...
12 de abril de 2014
Rosas de abril
O tempo aquece mudo
num tempo de florir rosas.
Lindas, leves
tão graciosas essas rosas.
São como pálpebras coloridas
a acordar no cimo de viçosos caules
que bailando na tímida brisa primaveril
fazem do sonho a gavinha
um milagre novo a florir em abril
como pão de bem querer
no regaço de uma rainha.
27 de fevereiro de 2014
O azul é céu todos os dias
Os dias não são sempre iguais. Dizes-me,
embora não o sintas.
Dizes-me para saberes como se
segura a tristeza com o cansaço, para a arrancares dos lábios antes que as
palavras se azedem na tua boca sem céu. Dizes-me (eu sei) pensado que também
eu preciso de acreditar nisso.
À tua volta, a terra é um fundo
negro , cada vez mais negro, e a claridade de cada dia é coisa pequena. Tão
pequena que mal a sentes; tens os olhos presos a uma escuridão sem candeia.
Talvez por isso a tua pele tenha a cor pardacenta de uma folha de papel
esquecida, amarrotada e inútil, sem nada que pareça ter valido a pena. Tudo nela
escrito; porém, sem que entendas o significado das linhas, dos sulcos, dos
poros, da transpiração inevitável da tua vida. Sem que percebas que te deixaste
levar para a quase morte dentro desse vazio de terra negra, onde o verde dos
prados se transformou em cinza, numa secura própria dos desertos da alma.
Dizes-me que não são iguais: os
dias, e vejo-te moribundo à procura de uma árvore grande. Uma árvore com raízes
e ramos e folhas, e os frutos abrigados nelas, à espera de amadurecer,
sabedores da doçura do tempo.
Aperta nas mãos isso que dizes. Espreme
cada palavra até lhe saberes o sentido, e o eco for inteiro na tua língua.
Ainda há árvores a crescer,
sabias?! Não, não aí, nessa terra onde abandonaste o corpo para envelhecer,
nessa ravina de má memória onde te lembras, não!
Mesmo à beira do abismo, neste
lugar de pedra descarnada que nos fere e nos desnuda a todos, o sol ainda nos
abraça; ainda beija o chão e aquece; ainda alegra o canto das aves; ainda faz
brilhar no olhar a cor imutável do céu. É aqui, antes da queda, que as árvores crescem, sem desespero, com as
raízes presas às rochas. Às vezes, crescem curvadas pelo peso do vento, à noite.
Mas crescem, dignas, enquanto tiverem seiva. Enquanto lhes rangerem os galhos,
sabem do tronco que se eleva à procura do azul: esse azul que persiste, no cimo de qualquer
paisagem pintada em qualquer tela . O azul que é céu todos os dias, embora
alguns sejam diferentes só porque têm nuvens.22 de janeiro de 2014
Coisas certas
Nada é deixado ao acaso.
Uma casa é um casulo
com as paredes a ressoar.
Tudo em espera
pelos olhos capazes de ver;
tudo em espera
a ciciar memória.
Nada é deixado ao acaso.
As coisas simples ficam, simplesmente
suspensas
até se saberem certas;
até se saberem no
tempo de serem
por credo e vontade
imagos, prontas a acontecer.15 de janeiro de 2014
Roda de fiar
Gira a roda no mesmo sentido
que o linho se ajusta
e vestindo o sonho
torna-o coisa palpável
à distância do teu desejo.
Aprende a esperar que o novelo cresça
sem que a firmeza se perca
do propósito dos teus dedos.
É nas linhas da tua mão que a vida se tece
no tempo que é, neste agora que urge.
O futuro é um movimento circular
e tu um fuso que roda
até que o fio construa, na roca, a meada
que há-de ser da tessitura
o teu melhor retalho
no ciclo constante do mundo.
31 de dezembro de 2013
Ao passar
Todo o sonho é feito de luar
Dessa luz que trespassa a noite rasa
E se revela a sombra no rasto de quem passa
Dá também ao chão a lisura
do caminho.
BOM ANO!
a sonhar...
25 de dezembro de 2013
Bom Natal
Não é difícil, por estes dias, vestir o coração de espírito natalício.
A grande dificuldade é fazer com que assim permaneça ao longo de todo o ano.
BOM NATAL !
4 de dezembro de 2013
Nasceu Dezembro
Nenhum céu nos basta, mas mesmo assim
Dezembro continua a nascer
agarrado ao coração por um ramo de azevinho.
Por todo o lado as palavras quentes rodopiam
e apesar do gelo
o mundo perde cantos e arestas
sem diferenças entre ruas e ruelas.
E vemo-lo a embrulhar-se em fitas coloridas
bolas doces e afectos;
tristezas que sorriem
ao ritmo intermitente da claridade nas janelas.
Nenhum céu nos basta, é certo
porque ébria e fria é a neve a cair no inverno.
Mas que importa: é Dezembro
e quem sabe, talvez
a ponta de uma estrela nos caia
bem no centro do peito
e seja ela a chama iluminada
que entre rochedos e musgos
rasgue a noite de novo
e nos leve a uma outra estrada
onde jamais se perca o sentido
do celeste azul que cobre a humanidade;
razão primeira de todos os presépios.
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