20 de novembro de 2013

A ver o mar















Quando o vento roda a sul
o peito erguido de uma gaivota
ela sabe que o destino
é feito da amplitude das asas.
Segue, a ver o mar.
E todo o céu é seu.
E toda a maresia
lhe cabe na memória.
De prata
apenas o chão de água;
o resto, o resto é sol
é vida
claridades, e penas a voar.


(foto de Gabriela Chagas)

5 de novembro de 2013

Caminho seguro




Afago os teus passos
e levas-me ao tempo em que os dias não morriam
apenas descansavam nos teus braços
e a noite era o tempo de sonhar com mais caminho.



25 de outubro de 2013

Do indizível



Nunca disse tanto como agora; acredita!
As palavras aninham-se dentro dos lábios, seguras de que só as mãos conhecem o caminho certo, isento de significados dúbios.
Agora, oiço a dimensão oculta do mundo, na ponta dos dedos, e vejo melhor o quanto o ruído nos cega.




20 de outubro de 2013

Ao cair da flor



É tua a rosa
o perfume excelso de cada uma das suas pétalas
o queixume eterno da sua floração breve.
Pertencem-me os espinhos
todos
o caule digno e aprimorado
e a terra
onde todas as estações acontecem.




16 de outubro de 2013

Réquiem à beira do inverno



Quando uma haste se parte
é sempre inverno no interior das árvores.
Ninguém vê
mas as raízes também choram a inevitabilidade
e nem o silêncio da terra as conforta.
É sempre assim:
as folhas nunca sabem preparar o peito
para sentir saudade.





12 de setembro de 2013

Um poema para ti




Eu gostava de saber escrever um poema para ti
Uma rima bonita feita de versos brancos
Que falasse das noites e dos dias
Em que trabalhando juntos, lado a lado
Cerzimos dores, sarámos feridas;
Os meus olhos seguindo as tuas mãos
O teu exemplo guiando o meu cuidado.

Se eu soubesse escrever um poema sobre ti
Eu saberia como dizer:
Do saber diferente que é arte
Uma arte de dar e de acolher
De como se vive uma vida dentro da outra
Ou de outra ainda que nasce
Ou de outra ainda que se ampara ao morrer.
De como a meia-lua de um sorriso
Nossa candeia
É o segredo visível no nosso peito guardado
Que tantas vezes transforma em força
A fraqueza de um corpo doente
Às nossas mãos confiado.

Ah, se eu soubesse escrever um poema para ti
Eu diria muito mais do que isto
Se para tal me chegassem as palavras.
Talvez até só juntasse as sílabas do silêncio
Aquele silêncio das coisas que sabemos
E não precisam ser ditas, quando são partilhadas.

Se me pedissem para escrever um poema para ti
Talvez eu não dissesse nada
E lhe desse como título
Simplesmente, obrigada!




25 de agosto de 2013

Ruínas




Quanto mais ando, melhor vejo
a expressão antiga que respira, ainda
dos espaços abertos das casas em ruínas;
vozes de outros tempos que permanecem
dormentes entre as pedras.

Aqui e além, espalhados pelo soalho velho
ouvem-se os gemidos de angústia
que cobriam outrora todas as migalhas de pão
que a fome não viu, caindo desamparadas
para regozijo dos pássaros.

Os velhos não esqueceram a voracidade dos abutres
nem a persistência que deram ao voo 
ante a fraqueza das asas;
e dizem-no:
com as mãos cheias dos  dias que precisaram chorar 
de corpo desabrigado, para chegarmos até aqui
e os olhos rasos, da água viva que sacia
os lábios de quem nada teme.

Talvez por isso haja tanta ternura no seu olhar.

Talvez por isso eu me entristeça mais
agora, que vejo melhor o abandono tombar
sobre a sage telha que abriga, ainda
de fumo e cinza
a frágil vida
erguida na ignorância dos homens.


(foto pessoal)

3 de agosto de 2013

Eu em ti



O lugar que procuro
é um recanto vivo dentro da tua memória.
Um lugar que te seja força e amparo
e onde eu me possa guardar
história da tua história;
não pelo que fui ou pelo que vi
e nem ainda pelos caminhos que trilhei,
mas por aquilo que me ergueu quando caí
e por me ter dado a tudo quanto amei.




31 de julho de 2013

Raízes claras



Descias ao fundo do rio
de olhos mirrados,
temendo o discurso dos peixes,
e a boca entreaberta
buscando um outro fôlego
na respiração lenta dos dias.

Do que de lá trazias
nunca me falaste,
mas bastava-me ver-te regressar
da pureza das águas,
                                [sereníssima]
retomando o caudal da tua vida,
para saber o sentido do canto
que entoava das tuas mãos de silêncio.

Foi assim que aprendi a depurar a mágoa
e hoje adoço de humanidade tudo o que digo.
                           
                        [a dor, tal como tu, deixo às pedras confiada]



19 de julho de 2013

Voo raso




Antes do dia escurecer
havia uma promessa de voo no levantar da névoa
e um peito aberto a estremecer de riso.
Mas todos os caminhos sabiam
dos passos agarrados à terra;
e todos os silêncios, de horizontes perdidos.
Foram os corvos que trouxeram a noite: disseste.
E eu entristeci.
Quebradas as asas
rasante é a viagem.