12 de setembro de 2013

Um poema para ti




Eu gostava de saber escrever um poema para ti
Uma rima bonita feita de versos brancos
Que falasse das noites e dos dias
Em que trabalhando juntos, lado a lado
Cerzimos dores, sarámos feridas;
Os meus olhos seguindo as tuas mãos
O teu exemplo guiando o meu cuidado.

Se eu soubesse escrever um poema sobre ti
Eu saberia como dizer:
Do saber diferente que é arte
Uma arte de dar e de acolher
De como se vive uma vida dentro da outra
Ou de outra ainda que nasce
Ou de outra ainda que se ampara ao morrer.
De como a meia-lua de um sorriso
Nossa candeia
É o segredo visível no nosso peito guardado
Que tantas vezes transforma em força
A fraqueza de um corpo doente
Às nossas mãos confiado.

Ah, se eu soubesse escrever um poema para ti
Eu diria muito mais do que isto
Se para tal me chegassem as palavras.
Talvez até só juntasse as sílabas do silêncio
Aquele silêncio das coisas que sabemos
E não precisam ser ditas, quando são partilhadas.

Se me pedissem para escrever um poema para ti
Talvez eu não dissesse nada
E lhe desse como título
Simplesmente, obrigada!




25 de agosto de 2013

Ruínas




Quanto mais ando, melhor vejo
a expressão antiga que respira, ainda
dos espaços abertos das casas em ruínas;
vozes de outros tempos que permanecem
dormentes entre as pedras.

Aqui e além, espalhados pelo soalho velho
ouvem-se os gemidos de angústia
que cobriam outrora todas as migalhas de pão
que a fome não viu, caindo desamparadas
para regozijo dos pássaros.

Os velhos não esqueceram a voracidade dos abutres
nem a persistência que deram ao voo 
ante a fraqueza das asas;
e dizem-no:
com as mãos cheias dos  dias que precisaram chorar 
de corpo desabrigado, para chegarmos até aqui
e os olhos rasos, da água viva que sacia
os lábios de quem nada teme.

Talvez por isso haja tanta ternura no seu olhar.

Talvez por isso eu me entristeça mais
agora, que vejo melhor o abandono tombar
sobre a sage telha que abriga, ainda
de fumo e cinza
a frágil vida
erguida na ignorância dos homens.


(foto pessoal)

3 de agosto de 2013

Eu em ti



O lugar que procuro
é um recanto vivo dentro da tua memória.
Um lugar que te seja força e amparo
e onde eu me possa guardar
história da tua história;
não pelo que fui ou pelo que vi
e nem ainda pelos caminhos que trilhei,
mas por aquilo que me ergueu quando caí
e por me ter dado a tudo quanto amei.




31 de julho de 2013

Raízes claras



Descias ao fundo do rio
de olhos mirrados,
temendo o discurso dos peixes,
e a boca entreaberta
buscando um outro fôlego
na respiração lenta dos dias.

Do que de lá trazias
nunca me falaste,
mas bastava-me ver-te regressar
da pureza das águas,
                                [sereníssima]
retomando o caudal da tua vida,
para saber o sentido do canto
que entoava das tuas mãos de silêncio.

Foi assim que aprendi a depurar a mágoa
e hoje adoço de humanidade tudo o que digo.
                           
                        [a dor, tal como tu, deixo às pedras confiada]



19 de julho de 2013

Voo raso




Antes do dia escurecer
havia uma promessa de voo no levantar da névoa
e um peito aberto a estremecer de riso.
Mas todos os caminhos sabiam
dos passos agarrados à terra;
e todos os silêncios, de horizontes perdidos.
Foram os corvos que trouxeram a noite: disseste.
E eu entristeci.
Quebradas as asas
rasante é a viagem.



27 de junho de 2013

Diz-me



Diz-me.

Diz-me que o presente
é este fio de luz que prende o meu cabelo,
este sol que aquece a raiz da minha nuca
e me enlaça p'la cintura
como um resgate do tempo
à viagem das águas.

Diz-me que nada mais há 
senão este agora
em que os pássaros festejam
as penas que vestem
e eu me rendo
à rara felicidade de me saber viva.

Diz-me que esta,
apenas esta,
é a verdade que procuro
e jamais temerei o final
neste princípio.



20 de junho de 2013

Nada de novo




Um livro aberto 
sobre uma sombra amarrotada em cima da cama, 
pode nada dizer de novo; eis a surpresa: nada de novo.



16 de junho de 2013

À procura de si




O homem estendeu-se nu sobre a areia
e temendo a invasão dos seixos
deixou-se incrustar em vida salgada
e confundiu-se entre as pedras.

Hoje, à beira de um coração sedento
 procura a  humanidade que deixou
 frágil e  ao acaso
boiando à mercê da erosão do tempo.



13 de junho de 2013

O sono dos barcos




De que matéria são
os sonhos dos barcos que dormem
na lisura da areia?
De que tempestades esperam 
ser salvos
pelas gaivotas que ainda têm asas?




3 de junho de 2013

Palavras à beira do mar


Picasso - Os pobres à beira do mar ( 1903 )

Antes da revolta do mar
as gaivotas, em desespero, guardavam as asas
e cobriam-se de sargaço para que ninguém soubesse
que decidiam morrer antes do fim das palavras.

Dentro do vento, as vozes das mulheres
anunciavam o fim do mundo
tecendo e destecendo o silêncio
com que protegiam o corpo da bruma
e mirradas de colo, agarravam-se ao ventre
na antecipação da angústia.

Na praia, só os meninos
desenhavam o sol dentro das conchas
enquanto  as casas desmoronavam
com o peso do sal sobre as pálpebras
e os homens, presos às estacas
vigiavam o gemido das ondas
quebradas na dureza dos rochedos
e amedrontavam-se como nunca
dentro dos próprios punhos.

Antes da revolta do mar
a terra era uma chaga
a esvair-se de humanidade
e foi preciso semear poesia
à boca de todas as marés
para que o grito amadurecesse
e o mar cantasse o hino
de um coração de lava transbordante
que  desembaraçado de algas e fantasmas
num estrépito se elevou, vivo
a encimar o mastro de uma nova caravela.