25 de maio de 2013

Das páginas que se escrevem





Numa página em branco
escreveu a lua, em plena tarde
o caminho de um novo poema
como se todas as direcções
rimassem no universo das coisas.




20 de maio de 2013

Na metade de um sol inteiro




E eis que chego aqui
ao que julgava ser
a metade de um sol inteiro
e, no entanto
é o efeito da penumbra
que torna bem mais claro
nos meus olhos
o valor das coisas belas.


15 de maio de 2013

Vou...



Tenho a mala aberta e a vida ali
espalhada, contigo dentro.
Nada mais tenho para levar comigo, senão
este corpo gasto e um ou outro gesto
deixado ao acaso em cima da mesa.
O tempo consumiu tudo o que dissemos, meu amor
enquanto nos amámos até à exaustão das sílabas.
No vinco gelado do meu rosto, o teu beijo
foi quanto bastou para esgotar todas as manhãs
nas pálpebras cerradas do único adeus possível.




10 de maio de 2013

insignificância




um quase nada
tão pouco
plenitude desmesurada
de um fio raro de água
que se depurou, gota a gota
no fundo dos dias sem esperança.




2 de maio de 2013

A sós comigo


duy huynh

A sós comigo
leio o que o tempo escreveu
nos sulcos vincados do meu rosto.

Rasuro o inútil e escrevo de novo
quem sabe encontre
uma outra narrativa para a minha história.





24 de abril de 2013

Sementes e searas





 Aconteceu, ontem, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga, a entrega do Prémio Literário Maria Ondina Braga. 

A vencedora foi Olívia Marques, com o trabalho poético "Sementes daqui.  O júri, presidido pelo professor Agostinho Rodrigues, fundamentou a sua decisão - tomada por unanimidade de entre 57 trabalhos a concurso -  referindo- se à obra como: "uma estrutura formal coesa e sistemática e com uma riqueza imagética e simbólica ímpares", realçando ainda  "a experiência de grande sensibilidade cultural"  expressa. 

Para quem conhece a escrita de Olívia Marques e   acompanha a publicação de alguns dos seus trabalhos em Searas de Versos,   este prémio não surpreende, porque é o reconhecimento justo da enorme qualidade literária do que escreve.  Para mim, que sou simultaneamente sua leitora e amiga, este é, também, um momento de imenso orgulho e felicidade.  

PARABÉNS!!!


" Pilgrim, in your journey
You may travel far, "






19 de abril de 2013

Afinidades


Iman Maleki


Não preciso ler o que viveste:
é no teu rosto que o tempo escreve
a página inteira
que me aproxima de ti.



11 de abril de 2013

Há tanto ainda...





É preciso saber quando gritar para o interior da terra.

É preciso trazer as raízes para dentro da alma e aí fazer crescer as árvores e ouvir os pássaros.

Não deixemos que só a noite conheça os versos que nos escurecem; é preciso iluminá-los de sol, despi-los das metáforas que nos pesam e dar-lhes asas para que se renovem de cor e esperança.

Há tanto ainda para escrever no peito...






8 de abril de 2013

Tempos quietos





Escrevo do lado de dentro do silêncio.  
Aqui, as palavras pousam-se-me nas mãos
como borboletas; só
apenas e só
para ouvirem o que digo.





2 de abril de 2013

O teu nome, nada mais


Mirjam Delrue


Pouso os olhos no teu nome*, pai
É tudo o que tenho; o teu nome
Essa conjugação imperfeita da tua vida na minha
Como um eco mudo e cego que me rasga
Um fundo mais fundo onde não existe o teu rosto
Nem as tuas mãos a sulcar o meu caminho
Nem o teu afago na minha memória.
É tudo o que tenho de teu, pai
O teu nome e nada mais.
Nenhum fio de lembrança, nenhum nó, nenhum laço
Nenhum prumo, nenhum rumo
Nada que esteja ancorado à tua voz
E que eu tenha amado ou esquecido para me salvar.
Por isso o meu peito é um espaço exíguo
De estilhaços gastos
E talvez o teu único pecado seja
Não teres pousado os olhos no meu nome, pai
E não saberes que eu sou
Sangue teu a gotejar
Sobre esta dor azeda de viver
Sentindo a tua falta.

* in: "Sou, e Sinto" de Virgínia do Carmo - p.49