É tão fria a palidez do mundo quando a vida parte.
Quando os olhos se estendem para dentro dos fantasmas.
É tão fria!
Há segundos em que a morte não me estranha
e me pressinto dela,
coisa insignificante e pequena.
Sinto-a a roçar-se-me na pele
a colocar os dedos no sangue das minhas feridas
a rir-se da surpresa dos meus lábios
do medo a nascer-me cascata dentro da boca.
Nesse momento,
num frágil e fugaz momento
deixo de saber se ainda sou,
até que outra alma abandona as mãos dentro das minhas
e estar, passa a ser tudo o que na verdade vale a pena
para que nenhumas mãos
perto de mim
vivam sozinhas.
A morte de Garcia Lorca
óleo sobre tela de Guilherme de Faria - 1959