26 de julho de 2011

Vento inquieto





No arrepio das águas
chega o vento,
inquieto e frio
à procura da serenidade das coisas simples
que outrora impregnavam a pele dos barcos
e hoje, já não moram em lugar nenhum.
São apenas,
fracção ínfima do verbo amar
intento perplexo
entre mundos alucinados
que morrem, rente aos mastros
sem nunca terem sabido
como hastear uma bandeira.


23 de julho de 2011

Autenticidade



Woman with Eyes Closed -  Lucien Freud (2002)


Mesmo que no céu voem pássaros de belas plumagens e em terra, as flores se sintam pequenas ante tamanha beleza, a autenticidade é uma vela que nos revela, neste tempo obscuro onde tudo é efémero.
Sagrada é a vida e ela, é que é bela. 
Grande,  
é apenas o que de fértil deixamos germinar dentro dela.





18 de julho de 2011

Mistérios vindos do mar


 Não sabia muito bem como chegara até ali, não se recordava sequer de ter dado ao cérebro as coordenadas do mar, mas era à sua frente que se encontrava, atraída pelo desejo maior de se livrar da angústia.
Não havia nada nem ninguém que a entendesse melhor que o mar. Só ele recebia tudo o que se lhe derramava da alma sem a questionar ou julgar, sem se impressionar com a falta de formalidade do discurso ou com as palavras avulsas, ausentes de rigoroso sentido.
Era apenas ele que a ouvia, num silêncio partilhado, comunhão de água.
Dizia-lhe ele, que tudo o que ia, voltava. Voltava devolvido, diferente, envolto nas algas verdes que saram a erosão do tempo nas rochas. Sopradas do vento norte, trazia-lhe as palavras maternas, sábias, também elas fortalecidas pelas ondas da vida:  “ À tempestade segue-se sempre a bonança, minha filha”.
Sabia-o, mas deixava-se engolir pela incerteza que lhe sugava a força de acreditar nisso.
Estava cansada, era sempre o cansaço que vestia pela manhã e que lhe pesava nos ombros vergando-os no sentido do chão. O esforço com que vencia a inércia de si própria, só à noite o estendia junto a si, em descanso, lado a lado com a ruína dos amores fracassados e o vazio das ausências.

Estava só.
Tinha amigos, poucos. Já não tinha pais e nunca tivera filhos. Era tronco de uma árvore infrutífera, esquecida num pomar abandonado. Só os corvos descobriam nela o abrigo das noites frias, mas rapidamente esvoaçavam. Fugiam, ou ela os espantava, já não sabia. Havia alguma coisa que sempre temera nas aves negras.

Era uma mulher só, para além de sozinha .
Não era por isso estranho que amasse a solidão. Conhecia-a bem e jamais se sentira enganada por ela. Jamais ela lhe prometera outra coisa diferente,  para além do constante e impalpável silêncio de si mesma. Mas às vezes, tantas vezes, sufocava-a. Agigantava-se dentro dela e tomava conta dos espaços exíguos por onde flutuavam os seus sonhos. Desejos humanos e inconfessavelmente femininos. Espalhava-se por todo o lado, escurecendo janelas, encerrando portas, invadindo as paredes até consumir todo o ar respirável. Até ao desmaio quase irrecuperável da esperança.
Naquele dia estava assim, asfixiada e dormente, sedenta de maresia.
Rodou a chave e o motor do carro parou. Pensou sair , sentar-se no paredão, mas a sensação antecipada do contacto da pele com a pedra fria e húmida, fê-la arrepiar-se. Estremeceu, e isso tornou-a mais frágil e desprotegida ainda, numa ampliação desmesurada de auto-comiseração que a envergonhava a si mesma.
Abriu um pouco a janela, ouviu o som do mar a afagar-lhe os ombros, pronto para o amparo da queda. Sem resistência, deixou os braços caírem em cima do volante, neles escondeu o rosto e, completamente indefesa, abandonou-se em si, num pranto convulsivo e incontrolável.
Permaneceu assim não sabe por quanto tempo, até que foi sentindo que o mar levara dela a espuma dos dias mais tristes e lhe restituía, serenamente, a força vinda dos corais em troca de tudo o resto que lhe doía.
Foi nessa altura que ergueu os olhos e viu, preso no pára-brisas, um pequeno papel com algo escrito. Saiu do carro, olhou à volta mas não viu ninguém. Pegou no papel, limpou o rosto molhado à manga do casaco e, com o coração a bater, no ritmo apressado de uma ansiedade surpreendente e estranha, leu:

"Tenha fé.
O tempo resolve tudo.
Felicidades. “

Passaram muitos anos.
Ela não deixou de estar só e de amar a solidão. Continua a procurar o mar e é ele que continua a ouvi-la, como sempre fez. Não, ele nunca lhe disse quem foi que lhe deixou, naquele dia, aquela mensagem. Mas ajudou-a a compreender cada uma das palavras escritas naquele papel, como uma verdade que toda a gente precisa de saber quando, na vida, tudo é menor que desespero.


13 de julho de 2011

A chuva que nos lava



Nem sempre o céu anuncia
a queda da chuva que nos lava;
da  tez madura,
a cor velada do sal que nos consome .
Prendemos no sargaço
a dor espraiada numa foz longínqua,
e deixamo-la morrer
abandonada
no cansaço escoado das marés
a definharem-se nos dedos.

Entre versos,
plantamos à noite, o uivo dos lobos
e  uma roseira pintada de azul.
Construímos no peito um farol de mariposas
regressadas da colheita de aromas raros,
enquanto desenhamos nas suas asas
um sol amarelo ancorado
a  resgatar naufrágios.
Nem sempre o céu anuncia
a  chuva que nos lava,
mas sabemos,
quando já não nos amarga o que choramos.

10 de julho de 2011

Foi assim, de novo...


Porque nenhuma emoção se diz, tão completamente quanto se sente...















Obrigada!



30 de junho de 2011

" Do outro lado do espelho" apresenta-se em Esposende


Esposende é uma cidade especial, cuja beleza se espelha no rio ao encontro do abraço do mar.
É a minha cidade de adopção e de coração. Cidade onde tenho o privilégio de viver e onde encontro, tantas vezes, a tranquilidade e a inspiração para escrever.
É por tudo isto que, juntamente com a Câmara Municipal de Esposende e a Editora Lua de Marfim, tenho o enorme prazer em  convidar-vos para a sessão de apresentação do meu livro " Do outro lado do espelho" que decorrerá nesta cidade, no dia 9 de Julho na Biblioteca Municipal Manuel Boaventura, pelas 18h30.
Mais uma vez, terei a honra de contar com a presença da escritora e poeta Mel de Carvalho, para fazer a apresentação da obra.

Lá estaremos à vossa espera!

Porque a poesia é uma flor, pronta a ser sol na alma de cada um...




Obrigada!





27 de junho de 2011

Grande lição para gente pequena



Grande é a virtude


 De tão grande vontade


E tão pequena eu sou


Perante o teu exemplo


A propósito da prova de Paratriatlo que decorreu no passado dia 25, no âmbito do Campeonato Europeu de Triatlo em Pontevedra. A temperatura do ar era de 40ºC, nenhum dos paratriatletas desistiu e quem assistiu à prova, teve a honra de receber uma enorme lição de vida.
Eu senti-me privilegiada por isso.
Aqui fica o meu aplauso e a minha gratidão a todos eles!


15 de junho de 2011

Anos verdes




Verdes foram todos os anos

Que não colhi,

Porque não sabia

O quanto pode ser doce

O que de amargo

Guardamos,

Se deixarmos

O tempo nascer maduro

E pronto a ser luz

Para além do ninho das pupilas.



6 de junho de 2011

Silêncios



Preciso de te dizer

Todas as palavras

Que bordo para ti em silêncio

E me doem

Como gelo triturado nos dedos

Enquanto me ignoras




1 de junho de 2011

Caminho de água nascente




Eram passos lentos os que trazia.
Lançava-os no chão. Naquele que sabia e no outro que nunca pisara mas onde cresciam as papoilas que um dia haveria de colher. Um dia, um qualquer dia de um qualquer tempo , numa qualquer dimensão.
Eram passos seguros, firmes, mas propositadamente lentos. Neles, ouvia a história das pedras, respirava o aroma cicatrizante do pó da terra e, enquanto guardava nos bolsos o orvalho da noite suspenso nas ervas daninhas , subia-lhe aos lábios o sabor vertical do trigo a oferecer-se-lhe à fermentação da vida.
Do caminho, não lhe importava o rasto, apenas o peso de si própria moldado no barro, qual ânfora a saciar a fome de humanidade. Talvez por isso levasse consigo, pousadas nos ombros, todas as lágrimas que lhe confiavam e mais umas quantas rugas, suas e de outros, porque o saber do tempo era o único tesouro que conhecia.
Um dia, desejou que tudo de si fosse fértil como água nascente, mas nem por isso apressou ou refreou a passada. Se o sol lhe era força a aquecer a alma, respirava mais fundo para a guardar no coração e aí se abrigar das imperfeições do vento norte. Mas quando era chuva o que chegava do céu, erguia o rosto e recebia nele cada gota, como quem bebe um oásis, sabendo que os desertos existem e aí, nem as pedras desejam falar da sua própria história.
Saboreava cada milímetro da sua caminhada como se semeasse e colhesse estrelas e as amasse a todas de igual modo, como filhos diferentes mas de brilho igual.
De quando em vez, uma rodopiante aragem envolvia-lhe os sentidos e via-se então, de braços abertos, numa afinidade de asas com quem nasce a voar. Era assim que planava livre por dentro dos sonhos e descobria que essa era, de todas, a mais bela viagem.
Eram lentos os passos e grandes os sonhos.
Eram imensos os sabores, e isso já era tanto para se sentir feliz.