1 de fevereiro de 2011
Imperfeição
27 de janeiro de 2011
Para que reze (de novo) a história...
Filho da Azinheira, como gostava sempre de dizer, nasceu naquela pequena aldeia do concelho de Oleiros, num tempo em que o mundo se circunscrevia ao perímetros dos pinheiros a perder de vista . Estes rodeavam as casas feitas de pedra e divisórias em madeira que hoje em abandono e ruínas ainda lá permanecem, apenas para fazer lembrar a história.Em pequeno era traquinas, dizem!
Filho de gente pobre, guardava cabras com os irmãos, depois de chegar da escola, pelo meio daqueles montes e vales onde o pai era resineiro.
A mãe, cuidava da horta onde às vezes também plantava linho e tratava do porquito, que mais tarde haveria de salgar, curar os seus presuntos e os enchidos que dariam sustento à família.
Sempre mostrou orgulho pelos pais, e pela suas origens. Sempre nos transmitiu isso.
Aventurou-se por Lisboa ainda muito novo, apoiado pelo irmão mais velho. Foi empregado de mesa, e aproveitou ao longo da vida, todas as oportunidades para se tornar exímio nessa arte.
Foi militar de paz e de guerra, e foi nessa guerra que acabou por permanecer sobrevivo , sem nunca lhe ter encontrado, verdadeiramente, um sentido.
Foi um especialista na minúcia da construção de um selo. Foi um homem rigoroso, orgulhoso e por vezes austero.
Nem sempre compreendeu e nem sempre foi compreendido. Mas foi um homem simples na sua essência, que soube transmitir, por linhas direitas e tortas, os valores do dever e da honra, da humildade e do trabalho.
Nem sempre foi a melhor pessoa, o melhor marido ou o melhor pai. E soube reconhecê-lo.
Fez um percurso, o seu percurso. Com ele condicionou outros, é verdade. Mas também foi condicionado!
Não deixou de aproveitar a segunda oportunidade que a vida lhe deu para ser diferente. E conseguiu. Orgulhou-se de o ter feito e eu também!
Foi meu Pai!
Faz hoje dez anos que partiu, e com tudo o que foi e o que viveu, continuará sempre presente na memória e na vida das suas filhas.
23 de janeiro de 2011
Cordão de água
Dos seus olhos, do espaço inundado pela linha de água que envolve o caule dos nenúfares, viu-a sentada na escarpa a desfolhar folha a folha, as páginas do seu próprio poema.
Cinquenta páginas, cinquenta vidas, cinco flores nos sentidos de uma só mão e na outra, a silhueta redonda mundo.
Ouviu-lhe a oração das contas, rosário de dores e sonhos, presos ao mastro de uma frota de caravelas perdidas, em terras de mouros, carregadas de esperança, dentro do seu próprio tempo.
Soube-a doce e salina no entrelaçar do cordão de água, movimento pendular dos dias em espera.
Escutou-lhe o saber do corte dos cachos, da colheita fértil das searas e do perfume das pétalas caídas.
Ofereceu-lhe de beber, mas ela já era água.
Estendeu-lhe a mais fina das algas, mas ela era já, o fio mais precioso de Ariana.
Falou-lhe das palavras escritas no silêncio, mas eram já silêncio todos os seus versos.
E nada mais tendo para lhe restituir de sol, desprendeu de si a lágrima dourada caída de uma das cinco pontas de uma estrela e, de mansinho, colocou-a no alinhamento da constelação que celebra a vida, sinal e vértice perfeito da luminosidade daqueles olhos. Colocou-a ali, para que fosse a luz do seu caminho e lhe revelasse a transparência fina, para além da poeira das incógnitas.
Depois, em silêncio, regressou ao lado de lá do espelho, ao leito do seu próprio rio e cravou os joelhos nos seixos seculares, onde guardava todos reflexos.
18 de janeiro de 2011
Momentos...
12 de janeiro de 2011
A viagem
Partiu destemida pela noite dentro, sem xaile que lhe cobrisse o espanto de se descobrir nas sombras. Queria perceber-se no perfil sinuoso de cada uma das fases da lua e virar do avesso todas as costuras do tempo. Queria saber-se inteira, ver-se sangrar em cada aresta, na rugosa imperfeição que sentia pertencer-lhe, tão eterna.
Naquilo que lhe pareceu durar o breve movimento das pálpebras, fechou os olhos e soube do medo à espreita do intervalo vacilante dos seus passos. Mas logo à frente, aquela vontade, atraindo-a, como uma verdade atómica, para o fundo de si, sem receio de sentir todos os ângulos no contorno das dúvidas ou, as diferentes texturas que a habitavam, há tanto tempo já.
Algo lhe apontava ali, a direcção do sol que haveria de penetrar de mansinho, em cada frincha desbravada da sua escuridão e iluminaria, um a um, todos os seus espaços. Algo lhe dizia que só assim, poderia entender o magnetismo das estrelas e o quanto aceitar-se, pode ser o mais doce e sereno início de uma viagem feliz, de braço dado com o mundo.
6 de janeiro de 2011
Hoje...
4 de janeiro de 2011
Sem poesia
Quando deixaste o amor suspenso
num trémulo segundo de uma hora incerta,
tentei beijá-lo com a estrofe mais suave,
a mais singela e a mais perfeita,
para que não voasse.
Não sabia ainda que na tua alma já não vivia o verso,
nem que a minha vida deixara de ser poema.
Depois disso
o silêncio tornou-se um hino
e eu
um anjo aprisionado
na minha própria harpa.
30 de dezembro de 2010
A propósito do Novo Ano
Os anos passam, sucedem-se... uns tão apaticamente iguais, outros tão dramaticamente diferentes.Mas existem anos felizes. Ou anos com dias felizes. Ou dias com momentos de felicidade.
O que importa é que existam, que se sintam e façam sentir e não passem por nós vazios ou nós, por eles, sem sentido.
Todos os anos se festeja, de uma forma ou de outra, o segundo de transição da soma de todos os dias que se gastaram nas nossas vidas e a vinda de outros tantos.
Que se festeje pois, mas mais do que isso...
Que se festeje a chegada de mais trezentas e sessenta e cinco oportunidades de fazermos um pouco mais e melhor...
Por nós, para que brilhe mais a nossa lua, vivendo alto;
Pelos outros, para que sintam que os gestos que parecem banais, são afinal fundamentais;
Pela protecção e preservação do mundo, para que não deixe de ser o melhor lugar para viver.
Que se festeje a alegria de não ver perdida a esperança de mudar o que está ao alcance das nossas mãos, quando sabemos que não podemos mudar o mundo.
Que se brinde com lágrimas ou risos o maravilhoso privilégio que é viver. Viver a sonhar e a partilhar. Viver perdendo e ganhando. Viver a crescer e a dar. Viver a amar.
Que cada um de nós, seja a gota de água, o raio de sol, a luz maior que faz a diferença. Que ame cada dia do novo ano, espelhando um sorriso, e que nenhum segundo se desperdice.
Escrevi este texto há um ano atrás e hoje, porque não encontraria outras palavras que dissessem mais ou melhor, o que vos desejo para o novo ano, reedito-o.
Sei que se anunciam dias difíceis, dias que vão apelar mais à nossa resiliência e ao nosso sentido solidário. Estejamos atentos e aproveitemos isso para crescer em humanidade.
Talvez não possamos em 2011, vir a ter tudo o que desejamos, mas que dia a dia, o próximo ano nos permita ter, exactamente, o que precisamos. Isto, parecendo ser pouco, será sem dúvida, o bastante para sermos felizes.
Com a amizade, o carinho e a gratidão de sempre, para todos...
BOM ANO !
27 de dezembro de 2010
Fazes-me falta
À beira de mim,
reduto do que sou
anelo de existência,
ajoelho-me no mar
e nele entrego o meu pretérito,
dor assilábica
de todas as rezas de invernia.
Espero-te,
como quem espera o regresso dos deuses
no resgate das conchas
E sei,
porque simplesmente sei,
que é cíclica a melodia
das ondas,
enquanto aguardo no cais
o silêncio manso
da tua chegada.
Mesmo que errante no ocaso
será a surpresa da tua voz
que dançará na minha pele,
como um hino perfumado
tremulando na alma
até à colheita,
do doce manto de tulipas brancas
que há muito crescem
serenas
à tona d' água,
crendo no beijo colorido
dos teus olhos.
Só elas sabem
o quanto me fazes falta.
19 de dezembro de 2010
Basta acreditar
Que esta seja, mais uma oportunidade de nos prepararmos para isso!
Para todos....
Com a amizade e o carinho de sempre...

