8 de dezembro de 2010

Onde vive o Menino Jesus



Sempre soube que o Menino Jesus vivia dentro de cada um de nós.

O que só descobri depois, é que nem todos acreditamos verdadeiramente nisso em todos os dias do ano...


" (...)
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos os dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda. (...)"

Alberto Caeiro
( Poema do Menino Jesus )

4 de dezembro de 2010

Musgo norte














Cresce a norte
o musgo verde dos presépios
e procuro nas mãos pequenas,
a magia dos sonhos de infância.
Fala-me a terra
da fome das crianças,
presa ao massacre dos pinheiros
e das figuras de gelo
agonizando, tão frias.
No céu, sem brilho
chora uma estrela perdida
e chove noite
sem vontade de ser dia.
Em mim,
caem-me lágrimas nos dedos
e seca o musgo, no sal
sem vontade de Natal.



1 de dezembro de 2010





O que te torna desumano não é o teu medo
mas a tua ignorância!

Só por isso me discriminas, 

e nem reparas
como é igual a linha redonda dos nossos olhos.



28 de novembro de 2010

Isto dá que pensar (8)


Há gestos que parecem difíceis,

simplesmente porque nos esquecemos

de os incluir nos nossos dias...



... e eles são, em simplicidade,

aqueles que devolvem à nossa vida

a humanidade que tantas vezes nos falta.


24 de novembro de 2010

Mulher imensa



Que fazes tu, mulher
Ao brilho dos teus olhos
Quando empardecidos
Se rendem à salga da vida
Na espera do amparo de um anjo?

Que fazes tu, mulher
Ao que te lateja no peito
Silenciado e dormente,
Incandescente
Quando o tempo te consome?

Diz-me, que cor têm as cinzas
Do leito onde adormeces
E desfaleces cansada
Quando o corpo se esvazia de nada!

Diz-me a que te sabem os lábios
Quando tens de morder as palavras
Vazias, geladas de solidão
Devolvidas e retalhadas
Do tanto que nelas plantaste
Em forma de coração!

O que fazes tu, mulher imensa
Do que guardas na lembrança
E não dizes, apenas

Para que a tristeza,
Não te faça perder a esperança?



18 de novembro de 2010

Para te dizer o quanto te quero




Para te dizer o quanto te quero
Invento o etéreo verbo

A palavra perfeita
Na sintaxe de um poema,
Farpado da alma a doer

Como uma laçada feita ao peito
Cordão de uma ponte só nossa,
Suspensa
Sobre um rio alucinado
Que invadindo louco todas as margens
Nos afoga a alma e nos afasta

Contendo -te...
De mergulhar na doçura dos meus olhos

Impedindo-me...
De te dizer o quanto te quero



( Foto pessoal )

14 de novembro de 2010

Na dobra da noite



Na dobra da noite, é o silêncio que me toca a ponta dos dedos e me leva até à janela. Eu fico ali, de vida debruçada, madrugada fora à espera de mim.

Sei-me pé-ante-pé, com o vértice de uma estrela preso ao peito, seguindo o rasto redondo do mundo.

Quando por fim me abraço, no afago quente de um reencontro, já o sol me espera para se entrançar no meu cabelo, enquanto a lua se despede do meu olhar levando com ela tudo o que me ensinou sobre solidão.


10 de novembro de 2010

Estaremos nós preparados?



Por estes dias, em que a chuva e o vento me levaram a pensar profundamente no sentido das minhas inquietações e, perante a degradação da condição económica do país, dei comigo a interrogar-me se, na verdade, estaríamos nós preparados para viver com muito menos e se, apesar disso, conseguiríamos encontrar o equilíbrio necessário para sermos felizes.
Não podendo negar esta possibilidade, tendo em conta que ela se torna cada vez mais evidente, importa reflectir urgentemente, nas nossas rotinas e estilos de vida e questionarmo-nos de uma forma sensata e consciente sobre a nossa individual realidade.
Estaremos preparados, para deixar de viver com muitas coisas, cuja necessidade foi criada por nós, rendidos à força do marketing ou de uma sociedade demasiado competitiva e consumista?
Seremos capazes de deixar de comprar por impulso o que simplesmente não é essencial, mas consola o prazer imediato ou o direito que achamos ter, igual aos demais?
Saberemos distinguir o que é uma necessidade e o que é um mero capricho?
E o que achamos ser essencial para nós, será isso uma completa evidência?
Acredito que as gerações mais antigas, estejam preparadas para esta provação, por força do tempo e da realidade que já viveram. E as mais recentes, que cresceram na explosão da modernidade e do facilitismo e que vêm agora desmoronar, o castelo que lhes permitiram construir em tão frágeis alicerces, estarão?
Cada um fará a sua própria reflexão, na consciência de que em cada um de nós e em cada economia familiar, têm de ser encontradas soluções mais simples e menos dispendiosas, para continuar a usufruir da vida no que ela tem, em essência, de melhor para nos dar.

Porque há ecos que sendo reflexos, são versos poéticos, maravilhosas aguarelas ....
Este, ofereceu-me a Manuela Baptista. Guardo-o ao peito e partilho-o convosco, por ser em permanência, eterna essência.

"
era bom
o cantar da água no ribeiro e o cheiro a sabão azul e branco
descascar quilos de marmelos, pesar açucar e canela, mexer um enorme tacho com uma colher de pau
ir a pé para a escola
jogar à bola no meio da estrada
acender a lareira e não ver televisão
conversar à noite até o sol romper
ter um forno de lenha para cozer o pão
e entender o tempo de cada estação!
restituam-me o silêncio e o direito de cantar, que eu
devolvo a pressa e a máquina de lavar "


6 de novembro de 2010

Voltará a ser primavera


Adensa-se o céu
na contemplação dourada dos plátanos
que vencidos pelo cansaço e no desejo de noite,
se vergam ao pasmo das nuvens desfeitas.

É nesse infinito de sombras
que se inebriam as folhas,
regressando ao pó, em círculos e voltas
e a ele se rendem em dádiva
num sopro asfixiado de vida,
alento e alimento,
no esperado rigor da geada.

Por isso, e no adil do inverno,
sorri de esperança, a raiz cravada na terra
porque quente é a seiva dormente
e isso, sendo um pouco de nada
é tudo o que tem o tronco despido,
para se manter erguido,
acreditando
que voltará a ser primavera.


2 de novembro de 2010

Fala-me de amor



N
o tempo findo das borboletas,
fala-me de amor...

Dos teus dedos soletrados no meu rosto
enquanto durmo
e das acácias que me deixas sonhar
presa a ti .

Fala-me do laço das asas
no delírio das aves
e da mansidão dos teus olhos
quando me beijas.

Fala-me de amor
e deixa-me morrer
enquanto te oiço.