Já nos conhecíamos há algum tempo.

Em vários segundos de muitas horas, ele havia fixado o olhar em mim. Olhos mortiços de tristeza.
Não tinha sido fácil comunicar com ele, o mutismo da dor permaneceu ainda durante bastante tempo desde o primeiro dia em que o vi... aquele dia!
Eu estava de serviço, quando ele chegou para ser internado, fui eu que o recebi.
Ruben, 8 anos, encontrado por uma vizinha, junto da mãe que jazia inerte no chão da sala. Disseram que foi difícil fazer com que os seus pequenos braços largassem o pescoço da mãe. Não tinha mais ninguém.
Durante dias, não comeu, não falou, não chorou!
Ninguém conseguia comunicar com ele. Todos o tentavam.
Passei a oferecer-lhe, todos os dias em que estava de serviço, uma folha branca com uma estrela desenhada, para ele pintar e desenhar se quisesse . Sempre que me ia embora fazia-lhe uma festa na cabeça e dizia-lhe: "Gosto muito de ti !"
Começou por me olhar furtivamente, ignorando a folha. Depois pintou a estrela com o lápis castanho e riscou tudo com o preto.
Ao fim de alguns dias, fixou o meu olhar rapidamente e entregou-me a folha com um menino desenhado, um menino sem braços... a estrela não estava pintada.
Perguntei-lhe se podia pintar a estrela e ele anuiu timidamente com a cabeça.
Pintei a estrela... verde.
Conhecíamo-nos então, já há algum tempo.
Naquela Sexta-feira , ele agarrou a minha mão depois do meu gesto carinhoso na sua cabeça e eu não consegui dizer a seguir, a frase de sempre.
Ele tinha-a dito de outro modo.
No dia seguinte entrei no seu quarto, faltava pouco para a meia noite, o início do meu turno. Pensava que ele estava a dormir. Observei-o, aconcheguei-lhe a roupa e preparava-me para sair... quando oiço a sua voz; sumida, trémula: " És o meu anjo da guarda?"
Ignorei a pergunta, emocionada e disse: " Sou eu Ruben !".
" Eu sei" , respondeu ele e deu-me um pequeno pedaço de papel rasgado.
" Dorme..." , sussurei " Vou ver os outros meninos e já venho aqui ao pé de ti".
Saí do quarto, feliz pela conquista da comunicação. Uma luzinha acabava de se acender, a ponte estava em construção.
Abri a mão onde guardava o pedaço de papel que o Ruben me havia dado...
Era a estrela da folha do dia anterior, pintada de amarelo. Por baixo dizia: " Eu também".