19 de abril de 2011

À espera que me respires















Na exaustão dos dedos
a desfiarem rosas,

repito-me,

no murmúrio das contas
perfumadas
pelo perdão das sílabas

enquanto os verbos fogem
para longe da boca,
prolongando nela o silêncio
de não te saber dizer
o que mais me dói
sem que me trema o coração.

Frágil andor
na procissão dos afectos.

E assim serei,
a mais serena brisa
à espera que me respires.



Na procissão dos afectos, desejo a todos, uma serena, doce e santa Páscoa.
Bem Hajam!


12 de abril de 2011

De mulher para mulher



Se te falarem no brilho de cada um dos teus cabelos ou da beleza pintada nos teus olhos, não te esqueças da solidão que semearam em ti e te empardeceu o corpo, enquanto procuravas a cor certa para não chorar.

Só assim, conseguirás ver-te inteira em qualquer espelho, sem que o reflexo da lua te cegue e te impeça de pincelar a branco, todos os cinzentos que te habitam.

Depois...
depois sim, deixa que te cresçam as asas na grandeza que em ti encontras.


5 de abril de 2011

Guardado nos corais



Naufraga de ti,
Foi na areia junto ao mar
Que incrustei os lábios
E a tua sede.
E foram tantas as marés,
Que hoje apenas os corais
Sabem
Do quanto te amei em silêncio
Na depuração das águas.
Só eles conhecem o aúste
Que trago em seiva
À tua espera,
Como um cais,
Tecido nas redes do tempo
 E na visão antecipada
Do regresso dos barcos
Ávidos de beber.


Foto : José Carlos Dias Gomes - Olhares.com

28 de março de 2011

O gemido dos teus olhos


Não era o fogo que fazia gemer os teus olhos
Apenas  mágoa,
Que sem saber porque nascera
Amparava o desfolhar das camélias
Como se elas fossem,
O único chão possível
Para acolher a nossa alma a morrer de angústia.

23 de março de 2011

Há sempre uma manhã





Na morte das noites densas
há sempre uma manhã
que crê no regresso das andorinhas
e na dor sublimada dos poetas.
É o beijo do vento
no eclodir das folhas que hão-de vestir
de novo
os ramos nus
como as palavras vestem os versos,
musas, a bordar desígnios
nas asas feridas das borboletas.




17 de março de 2011

Só por hoje



Só por hoje
só a vida vale, só ela importa.

O mundo é uma folha que se rasga
enquanto os homens morrem
tombados
como baralhos de cartas
e as árvores choram desventradas,
raízes expostas
reduzidas a nada
expulsas à força pelo centro da terra
sem armas, sem guerra
só silêncio, sal e mais nada.

Só por hoje
só a vida é, só ela importa
e nada mais há
que esta frágil existência.

8 de março de 2011

Escreve-se mulher



Escreve-se eternidade
com um olhar diferente,
quando são ventre
todas as palavras,
e a vida,
um tempo tão escasso
lamacento ou areado,
a escapar-se num fino espaço
indagando felicidade.


Escreve-se mulher
nesse olhar em frente
nascente de toda humanidade.



1 de março de 2011

Inspiração em Sophia



Luz e sol e pintura
sobre o telhado à noite a lua cresce
abro os olhos como um barco pelas ruas
no entanto outonece

Sophia de Mello Breyner Andresen, ilhas


Outonece tantas vezes, no azul
de uma sinuosa aguarela
perde-se a lua do sol
enquanto ele procura por ela

Maria João de Carvalho Martins


23 de fevereiro de 2011

Ser bago de trigo maduro


Não sei quando parto.

Há tanto que sou já
da tua luz,
o débil rasto
de uma enorme e alva claridade…

E se sigo ainda neste corpo
que é apenas matéria presente
da alma que vagueia
como um rio
fluido, calmo e transparente
é porque insisto ser,
bago de trigo maduro
orgulho da tua seara,
até que parta
e leve
tudo o que restar de mim
preso nas mãos,
para escrever o teu nome
por onde voarem os meus olhos.


17 de fevereiro de 2011

Perto do chão



Na surpresa de um relâmpago, viu-se a deitar fora os punhos de renda. Cravou as unhas na terra, lamentou todas as ervas daninhas e estendeu rendidas as palavras que há uma eternidade se atropelavam na boca.

Chorou.
A alma nunca é um espaço vazio e a dor é uma teia que se enleia, à volta de uma lágrima muda, tantas vezes a vida inteira.

Tão perto do chão quanto do peito trazia a vida, sentiu o colo da terra a apontar-lhe o olhar na direcção do voo das águias e percebeu que, dentro de si, grande era tudo o que não escondia em lugar nenhum.