1 de março de 2011

Inspiração em Sophia



Luz e sol e pintura
sobre o telhado à noite a lua cresce
abro os olhos como um barco pelas ruas
no entanto outonece

Sophia de Mello Breyner Andresen, ilhas


Outonece tantas vezes, no azul
de uma sinuosa aguarela
perde-se a lua do sol
enquanto ele procura por ela

Maria João de Carvalho Martins


23 de fevereiro de 2011

Ser bago de trigo maduro


Não sei quando parto.

Há tanto que sou já
da tua luz,
o débil rasto
de uma enorme e alva claridade…

E se sigo ainda neste corpo
que é apenas matéria presente
da alma que vagueia
como um rio
fluido, calmo e transparente
é porque insisto ser,
bago de trigo maduro
orgulho da tua seara,
até que parta
e leve
tudo o que restar de mim
preso nas mãos,
para escrever o teu nome
por onde voarem os meus olhos.


17 de fevereiro de 2011

Perto do chão



Na surpresa de um relâmpago, viu-se a deitar fora os punhos de renda. Cravou as unhas na terra, lamentou todas as ervas daninhas e estendeu rendidas as palavras que há uma eternidade se atropelavam na boca.

Chorou.
A alma nunca é um espaço vazio e a dor é uma teia que se enleia, à volta de uma lágrima muda, tantas vezes a vida inteira.

Tão perto do chão quanto do peito trazia a vida, sentiu o colo da terra a apontar-lhe o olhar na direcção do voo das águias e percebeu que, dentro de si, grande era tudo o que não escondia em lugar nenhum.



14 de fevereiro de 2011

Hoje canta o poeta...








VINICIUS DE MORAES





Soneto do amor total

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.


... na sua própria voz.



9 de fevereiro de 2011

Flor do Cardo



Se a noite cair em mim
E me fizer rendida à terra,
Inesperadamente
Eu serei de novo
Flor do cardo
A beber da saudade dos teus olhos
A indizível serenidade
Do amor eterno.



3 de fevereiro de 2011

Erosão dos afectos



Desfazem-se, pedras,
na fricção lenta dos dias,
umas nas outras
até serem pó,
erosão dos afectos
despojados
de calor e de chama.
São almas em queda,
sofridas e sós,
partículas de cinza
iludidas e cegas
presas aos nós
de quem já não ama.
As vozes,
outrora mel escorrido dos lábios
são agora o rio infecto,
cuspido,
da alma a lamber
o melodrama
do nada que valha a pena
ser vivido.



1 de fevereiro de 2011

Imperfeição



Aceitar a imperfeição de alguém, é compreender a nossa própria condição, e o quanto todos somos incrivelmente parecidos, embora julguemos que não.



27 de janeiro de 2011

Para que reze (de novo) a história...


Filho da Azinheira, como gostava sempre de dizer, nasceu naquela pequena aldeia do concelho de Oleiros, num tempo em que o mundo se circunscrevia ao perímetros dos pinheiros a perder de vista . Estes rodeavam as casas feitas de pedra e divisórias em madeira que hoje em abandono e ruínas ainda lá permanecem, apenas para fazer lembrar a história.
Em pequeno era traquinas, dizem!
Filho de gente pobre, guardava cabras com os irmãos, depois de chegar da escola, pelo meio daqueles montes e vales onde o pai era resineiro.
A mãe, cuidava da horta onde às vezes também plantava linho e tratava do porquito, que mais tarde haveria de salgar, curar os seus presuntos e os enchidos que dariam sustento à família.
Sempre mostrou orgulho pelos pais, e pela suas origens. Sempre nos transmitiu isso.
Aventurou-se por Lisboa ainda muito novo, apoiado pelo irmão mais velho. Foi empregado de mesa, e aproveitou ao longo da vida, todas as oportunidades para se tornar exímio nessa arte.
Foi militar de paz e de guerra, e foi nessa guerra que acabou por permanecer sobrevivo , sem nunca lhe ter encontrado, verdadeiramente, um sentido.
Foi um especialista na minúcia da construção de um selo. Foi um homem rigoroso, orgulhoso e por vezes austero.
Nem sempre compreendeu e nem sempre foi compreendido. Mas foi um homem simples na sua essência, que soube transmitir, por linhas direitas e tortas, os valores do dever e da honra, da humildade e do trabalho.
Nem sempre foi a melhor pessoa, o melhor marido ou o melhor pai. E soube reconhecê-lo.
Fez um percurso, o seu percurso. Com ele condicionou outros, é verdade. Mas também foi condicionado!
Não deixou de aproveitar a segunda oportunidade que a vida lhe deu para ser diferente. E conseguiu. Orgulhou-se de o ter feito e eu também!
Foi meu Pai!
Faz hoje dez anos que partiu, e com tudo o que foi e o que viveu, continuará sempre presente na memória e na vida das suas filhas.



( Reedito este texto escrito há dois anos, porque há coisas que apenas se escrevem uma vez na vida e permanecem eternas com o passar dos anos. )


23 de janeiro de 2011

Cordão de água


Dos seus olhos, do espaço inundado pela linha de água que envolve o caule dos nenúfares, viu-a sentada na escarpa a desfolhar folha a folha, as páginas do seu próprio poema.
Cinquenta páginas, cinquenta vidas, cinco flores nos sentidos de uma só mão e na outra, a silhueta redonda mundo.
Ouviu-lhe a oração das contas, rosário de dores e sonhos, presos ao mastro de uma frota de caravelas perdidas, em terras de mouros, carregadas de esperança, dentro do seu próprio tempo.
Soube-a doce e salina no entrelaçar do cordão de água, movimento pendular dos dias em espera.
Escutou-lhe o saber do corte dos cachos, da colheita fértil das searas e do perfume das pétalas caídas.
Ofereceu-lhe de beber, mas ela já era água.
Estendeu-lhe a mais fina das algas, mas ela era já, o fio mais precioso de Ariana.
Falou-lhe das palavras escritas no silêncio, mas eram já silêncio todos os seus versos.
E nada mais tendo para lhe restituir de sol, desprendeu de si a lágrima dourada caída de uma das cinco pontas de uma estrela e, de mansinho, colocou-a no alinhamento da constelação que celebra a vida, sinal e vértice perfeito da luminosidade daqueles olhos. Colocou-a ali, para que fosse a luz do seu caminho e lhe revelasse a transparência fina, para além da poeira das incógnitas.
Depois, em silêncio, regressou ao lado de lá do espelho, ao leito do seu próprio rio e cravou os joelhos nos seixos seculares, onde guardava todos reflexos.


18 de janeiro de 2011

Momentos...



Sabes porque te pedi que viesses?

Sorriu ao calor dos olhos dela que de tão ansiosos, lhe queimavam o rosto de interrogação.
Inspirou do silêncio o vaguear sereno de quem tem tempo e nas suas mãos, aninhou as outras. Pérolas protegidas da aragem fria.

Olha, anuncia-se o desabrochar das magnólias!