27 de dezembro de 2010

Fazes-me falta




À beira de mim,
reduto do que sou
anelo de existência,
ajoelho-me no mar
e nele entrego o meu pretérito,
dor assilábica
de todas as rezas de invernia.

Espero-te,
como quem espera o regresso dos deuses
no resgate das conchas

E sei,
porque simplesmente sei,
que é cíclica a melodia
das ondas,
enquanto aguardo no cais
o silêncio manso
da tua chegada.

Mesmo que errante no ocaso
será a surpresa da tua voz
que dançará na minha pele,
como um hino perfumado
tremulando na alma
até à colheita,
do doce manto de tulipas brancas
que há muito crescem
serenas
à tona d' água,
crendo no beijo colorido
dos teus olhos.

Só elas sabem
o quanto me fazes falta.


19 de dezembro de 2010

Basta acreditar




Basta acreditar,
e prolongaremos o espírito do Natal
a todos os dias do ano...



Que esta seja, mais uma oportunidade de nos prepararmos para isso!

Para todos....
Com a amizade e o carinho de sempre...



14 de dezembro de 2010

Simples poça de água



Trago ao peito,
a linha descontínua
do traçado de um mapa
e todos os dias cegos,
talhados à força do impulso.
Trago nas mãos
a rocha, lava liquefeita,
travo amargo de todos os medos
que gotejam no tempo,
o fermento dos nós
no laço dedos.
No regaço,
trago um espaço
onde dançam as estrelas,
prenhes de todo o brilho do mundo,
no prolongamento do céu.
O mesmo céu, plúmbeo
que tantas vezes
me inunda a mágoa, de mar
e a vida, de néctar da uva,
sabendo-me...
simples poça de água
berço das gotas da chuva.


8 de dezembro de 2010

Onde vive o Menino Jesus



Sempre soube que o Menino Jesus vivia dentro de cada um de nós.

O que só descobri depois, é que nem todos acreditamos verdadeiramente nisso em todos os dias do ano...


" (...)
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos os dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda. (...)"

Alberto Caeiro
( Poema do Menino Jesus )

4 de dezembro de 2010

Musgo norte














Cresce a norte
o musgo verde dos presépios
e procuro nas mãos pequenas,
a magia dos sonhos de infância.
Fala-me a terra
da fome das crianças,
presa ao massacre dos pinheiros
e das figuras de gelo
agonizando, tão frias.
No céu, sem brilho
chora uma estrela perdida
e chove noite
sem vontade de ser dia.
Em mim,
caem-me lágrimas nos dedos
e seca o musgo, no sal
sem vontade de Natal.



1 de dezembro de 2010





O que te torna desumano não é o teu medo
mas a tua ignorância!

Só por isso me discriminas, 

e nem reparas
como é igual a linha redonda dos nossos olhos.



28 de novembro de 2010

Isto dá que pensar (8)


Há gestos que parecem difíceis,

simplesmente porque nos esquecemos

de os incluir nos nossos dias...



... e eles são, em simplicidade,

aqueles que devolvem à nossa vida

a humanidade que tantas vezes nos falta.


24 de novembro de 2010

Mulher imensa



Que fazes tu, mulher
Ao brilho dos teus olhos
Quando empardecidos
Se rendem à salga da vida
Na espera do amparo de um anjo?

Que fazes tu, mulher
Ao que te lateja no peito
Silenciado e dormente,
Incandescente
Quando o tempo te consome?

Diz-me, que cor têm as cinzas
Do leito onde adormeces
E desfaleces cansada
Quando o corpo se esvazia de nada!

Diz-me a que te sabem os lábios
Quando tens de morder as palavras
Vazias, geladas de solidão
Devolvidas e retalhadas
Do tanto que nelas plantaste
Em forma de coração!

O que fazes tu, mulher imensa
Do que guardas na lembrança
E não dizes, apenas

Para que a tristeza,
Não te faça perder a esperança?



18 de novembro de 2010

Para te dizer o quanto te quero




Para te dizer o quanto te quero
Invento o etéreo verbo

A palavra perfeita
Na sintaxe de um poema,
Farpado da alma a doer

Como uma laçada feita ao peito
Cordão de uma ponte só nossa,
Suspensa
Sobre um rio alucinado
Que invadindo louco todas as margens
Nos afoga a alma e nos afasta

Contendo -te...
De mergulhar na doçura dos meus olhos

Impedindo-me...
De te dizer o quanto te quero



( Foto pessoal )

14 de novembro de 2010

Na dobra da noite



Na dobra da noite, é o silêncio que me toca a ponta dos dedos e me leva até à janela. Eu fico ali, de vida debruçada, madrugada fora à espera de mim.

Sei-me pé-ante-pé, com o vértice de uma estrela preso ao peito, seguindo o rasto redondo do mundo.

Quando por fim me abraço, no afago quente de um reencontro, já o sol me espera para se entrançar no meu cabelo, enquanto a lua se despede do meu olhar levando com ela tudo o que me ensinou sobre solidão.