24 de novembro de 2010

Mulher imensa



Que fazes tu, mulher
Ao brilho dos teus olhos
Quando empardecidos
Se rendem à salga da vida
Na espera do amparo de um anjo?

Que fazes tu, mulher
Ao que te lateja no peito
Silenciado e dormente,
Incandescente
Quando o tempo te consome?

Diz-me, que cor têm as cinzas
Do leito onde adormeces
E desfaleces cansada
Quando o corpo se esvazia de nada!

Diz-me a que te sabem os lábios
Quando tens de morder as palavras
Vazias, geladas de solidão
Devolvidas e retalhadas
Do tanto que nelas plantaste
Em forma de coração!

O que fazes tu, mulher imensa
Do que guardas na lembrança
E não dizes, apenas

Para que a tristeza,
Não te faça perder a esperança?



18 de novembro de 2010

Para te dizer o quanto te quero




Para te dizer o quanto te quero
Invento o etéreo verbo

A palavra perfeita
Na sintaxe de um poema,
Farpado da alma a doer

Como uma laçada feita ao peito
Cordão de uma ponte só nossa,
Suspensa
Sobre um rio alucinado
Que invadindo louco todas as margens
Nos afoga a alma e nos afasta

Contendo -te...
De mergulhar na doçura dos meus olhos

Impedindo-me...
De te dizer o quanto te quero



( Foto pessoal )

14 de novembro de 2010

Na dobra da noite



Na dobra da noite, é o silêncio que me toca a ponta dos dedos e me leva até à janela. Eu fico ali, de vida debruçada, madrugada fora à espera de mim.

Sei-me pé-ante-pé, com o vértice de uma estrela preso ao peito, seguindo o rasto redondo do mundo.

Quando por fim me abraço, no afago quente de um reencontro, já o sol me espera para se entrançar no meu cabelo, enquanto a lua se despede do meu olhar levando com ela tudo o que me ensinou sobre solidão.


10 de novembro de 2010

Estaremos nós preparados?



Por estes dias, em que a chuva e o vento me levaram a pensar profundamente no sentido das minhas inquietações e, perante a degradação da condição económica do país, dei comigo a interrogar-me se, na verdade, estaríamos nós preparados para viver com muito menos e se, apesar disso, conseguiríamos encontrar o equilíbrio necessário para sermos felizes.
Não podendo negar esta possibilidade, tendo em conta que ela se torna cada vez mais evidente, importa reflectir urgentemente, nas nossas rotinas e estilos de vida e questionarmo-nos de uma forma sensata e consciente sobre a nossa individual realidade.
Estaremos preparados, para deixar de viver com muitas coisas, cuja necessidade foi criada por nós, rendidos à força do marketing ou de uma sociedade demasiado competitiva e consumista?
Seremos capazes de deixar de comprar por impulso o que simplesmente não é essencial, mas consola o prazer imediato ou o direito que achamos ter, igual aos demais?
Saberemos distinguir o que é uma necessidade e o que é um mero capricho?
E o que achamos ser essencial para nós, será isso uma completa evidência?
Acredito que as gerações mais antigas, estejam preparadas para esta provação, por força do tempo e da realidade que já viveram. E as mais recentes, que cresceram na explosão da modernidade e do facilitismo e que vêm agora desmoronar, o castelo que lhes permitiram construir em tão frágeis alicerces, estarão?
Cada um fará a sua própria reflexão, na consciência de que em cada um de nós e em cada economia familiar, têm de ser encontradas soluções mais simples e menos dispendiosas, para continuar a usufruir da vida no que ela tem, em essência, de melhor para nos dar.

Porque há ecos que sendo reflexos, são versos poéticos, maravilhosas aguarelas ....
Este, ofereceu-me a Manuela Baptista. Guardo-o ao peito e partilho-o convosco, por ser em permanência, eterna essência.

"
era bom
o cantar da água no ribeiro e o cheiro a sabão azul e branco
descascar quilos de marmelos, pesar açucar e canela, mexer um enorme tacho com uma colher de pau
ir a pé para a escola
jogar à bola no meio da estrada
acender a lareira e não ver televisão
conversar à noite até o sol romper
ter um forno de lenha para cozer o pão
e entender o tempo de cada estação!
restituam-me o silêncio e o direito de cantar, que eu
devolvo a pressa e a máquina de lavar "


6 de novembro de 2010

Voltará a ser primavera


Adensa-se o céu
na contemplação dourada dos plátanos
que vencidos pelo cansaço e no desejo de noite,
se vergam ao pasmo das nuvens desfeitas.

É nesse infinito de sombras
que se inebriam as folhas,
regressando ao pó, em círculos e voltas
e a ele se rendem em dádiva
num sopro asfixiado de vida,
alento e alimento,
no esperado rigor da geada.

Por isso, e no adil do inverno,
sorri de esperança, a raiz cravada na terra
porque quente é a seiva dormente
e isso, sendo um pouco de nada
é tudo o que tem o tronco despido,
para se manter erguido,
acreditando
que voltará a ser primavera.


2 de novembro de 2010

Fala-me de amor



N
o tempo findo das borboletas,
fala-me de amor...

Dos teus dedos soletrados no meu rosto
enquanto durmo
e das acácias que me deixas sonhar
presa a ti .

Fala-me do laço das asas
no delírio das aves
e da mansidão dos teus olhos
quando me beijas.

Fala-me de amor
e deixa-me morrer
enquanto te oiço.


28 de outubro de 2010

Cumplicidade


É ser do ventre,
a polpa de fruto diferente
e ser no gesto cruzado,
o reflexo nascente,
verso de um mesmo lado.

É ser presente, no olhar de frente
e ser fio de luz que brilha
num sol já iluminado.
É ser beijo e aguarela
tela de mundo inteiro,
é ter nas mãos um canteiro,
onde cresce trigo doce
e seara de centeio.

É partilhar ternura
num jardim, a duas mãos semeado,
é sentir perfumado o futuro
num coração que pula,
com outro a ele agarrado.



À Teresa e à Inês....
simplesmente porque festejam seis anos de cumplicidade!!
(As fotos pretencem-lhes e a sua publicação, teve autorização prévia)

26 de outubro de 2010

Tango triste


René Magritte - The Lovers (1928)


Há corpos que dançam sem a rítmica alquimia da pele, no desacerto da vida.
E sem saberem dos compassos, deixam cair nos ombros as franjas de uma alma exposta às gotas da chuva, e nela se alagam até a inevitável insensibilidade da medula.
Ignoram o tom e o dom de se enlaçarem numa mesma melodia e rodopiam em voltas inversas, onde os rostos se transfiguram em claves sem sol, numa longínqua, fria e solitária partitura.
Arrastam-se a tropeçarem no tempo, movidos numa dança sem sincronia, com as notas de um tango a contraírem-lhes os lábios que sangram de sede, silêncio e melancolia.

Há corpos cansados
moribundos de si,
que não dançam,
apenas balançam
agarrados.


21 de outubro de 2010

Pétalas em laço


Colho do sol
A cálida fonte que me entregas
De seiva a despoletar-me na pele
O pulsar rosáceo de vida
Ao longe
O cantar das águas em viagem
Semeando em mim
A sílaba que é voz e gesto
De uma força adormecida
Ergo-me do chão
Presa ao coração de um pássaro
E das pedras que me feriram as mãos
Soltam-se os detalhes
Pétalas em laço
Onde se aninha a alma que sou
E com ela te abraço


18 de outubro de 2010

Isto dá que pensar (7)


Para que não se viva
nem mais um segundo
sem sentido...


Mas que o sentido da vida
seja encontrado
em cada segundo!