18 de outubro de 2010

Isto dá que pensar (7)


Para que não se viva
nem mais um segundo
sem sentido...


Mas que o sentido da vida
seja encontrado
em cada segundo!


13 de outubro de 2010

Dias sem norte


Hoje
Sou estátua de sal
Perdida de oceanos
Aos meus olhos
Apenas o lodo das marés
Repousa no sargaço
Que envelhece ao sol
E em terra minha
A alma é a quilha de uma caravela
Sem vento e sem vela
Dobrada sobre si
Em agonia

Hoje
Na ausência de um leme
Sou âncora embotada
Que rasga o tempo
A sangrar por dentro
E no meu sentir salino
Procuro um horizonte
Uma fonte ou gota de água
Que me refaça
Garça doce
Esvoaçante
Abraçando a dor
Mumificada


8 de outubro de 2010

A caminho do céu



Quando eu morrer

Planta o que eu fui

Na escarpa onde me vires caída

E em reminiscência

Eu irei viver em ti

Como uma árvore

A caminho do céu



5 de outubro de 2010

Quando a lua se parte




Aos olhos do Luís, ela era a miúda mais gira da sala de aula.
Achava-a parecida com a Anita dos livros da irmã e por isso, imaginava-a dentro das histórias que já ia lendo, vivendo com ela no íntimo do seu segredo, todas aquelas aventuras.
Nunca foram companheiros de carteira, embora ele o tivesse tentado várias vezes, mas Maria tinha uma amiga especial, a Zé, com quem ia e regressava da escola, lado a lado e era também lado a lado, que ambas partilhavam os primeiros passos nas aprendizagens das letras e dos números.
Estavam na terceira classe e nesse ano, ele tinha conseguido ficar sentado logo atrás dela. Passara assim a ser mais fácil chamar-lhe a atenção por qualquer pretexto. Não importava o motivo, desde que ela se virasse para trás e o olhasse e lhe falasse e… sim, era isso o que mais ansiava, lhe sorrisse.
Maria achava-lhe graça e sentia desde há muito, aquela preferência do amigo por ela. Sabia, embora não conseguisse explicar, que não era por acaso que ele lhe oferecia quase sempre, metade do seu pão com marmelada, à hora do recreio ou, na falta deste, apenas a sua presença para brincar.
Naquele ano, e devido às constantes solicitações dele, Maria tornara-se um pouco irrequieta e com frequência, lá estava ela virada para trás a conversar.
Dona Ema, a professora por quem todos tinham uma admiração particular, já tinha dado conta daquela distracção sistemática e de quando em vez, advertia, ora um ora outro, procurando recuperar a atenção dos seus alunos e corrigir-lhes o comportamento menos adequado.
A obediência era imediata e reconhecendo sem qualquer contestação, a falta cometida, balbuciavam um envergonhado; “ Desculpe, Senhora professora”, e os olhos pousavam timidamente no caderno, ao mesmo tempo que alinhavam a postura e a compostura.
Mas houve um dia, daqueles raros dias em que parecia que a tempestade entrava dentro da sala e tudo ficava cinzento e triste. Luís tinha acabado de a chamar, ela rodou o rosto para ele e com o seu maior sorriso, perguntou baixinho - Que queres? – Sem qualquer aviso, Maria ouviu o que parecia um trovão com o seu nome. Voltou-se imediatamente para a frente e, assustada, ousando olhar para a sua querida professora, quase gelou quando não lhe encontrou no rosto o olhar maternal de que ela tanto gostava. Nenhum traço de doçura, nenhum sinal de tolerância. Em vez disso, ouviu-a gritar outra vez – Já aqui ao pé de mim, Maria!-
Levantou-se. A tremelicar, cumpriu a ordem e, pela primeira vez, sentiu um frio estranho nas mãos e uma vontade quase irresistível de fugir.
Na secretária da Dona Ema, aparecera como que por vontade maléfica de uma qualquer fada má, uma régua de pinho, novinha e a estrear. Maria percebeu os movimentos da professora e, quando esta lhe pediu a mão, ofereceu-a sem contestar, com a palma virada para o tecto. Nela caíram impiedosas e sonantes três reguadas e quando pensava que se iria embora, a outra mão lhe foi pedida e também essa deu, para receber igual tratamento.
- Agora senta-te e livra-te de eu te ver voltada para trás, outra vez! – Maria foi, com as mãos fechadas de dor e injustiça. Antes de se sentar, olhou para o Luís e achou que ele tinha encolhido com o medo. Sentou-se por fim e agarrou os ferros frios das costas da cadeira, para lhe aliviar o doloroso formigueiro nas mãos. Nos olhos, dançavam-lhe traiçoeiras as lágrimas e por isso, pediu com toda a força ao Menino Jesus que não as deixasse cair, em troca, ela nunca mais se viraria para trás. Mas o Menino, mesmo sendo seu amigo, sabia que isso era algo que ela não podia prometer e sendo assim, deixou que ela chorasse em silêncio e a bata branca se molhasse de tristeza, vergonha e humilhação.
Nas horas seguintes, o silêncio permaneceu sentado entre todas as crianças que faziam cópias e contas, conforme pedira a professora.
Luís só conseguia ouvir o som da régua a cair nas mãos da Maria.
Maria não tirou os olhos dos livros e cadernos e o seu coração era uma lua partida em pedacinhos, e até a Dona Ema ficara em silêncio na sua secretária.
Quando todos se preparavam para ir embora, a professora aproximou-se dela, colocou-lhe uma mão no ombro e pôs à sua frente aquele pedaço de madeira de pinho, novinho mas já estreado.
Gostava que pintasses a teu gosto Maria, que achas? – Não achava nada, mas abanou a cabeça aceitando a tarefa.
Naquele dia, Maria aprendeu entre muitas outras coisas, que há dores que não se partilham como o pão com marmelada no recreio, que há poucas coisas verdadeiramente incondicionais, que há muitas formas de pedir perdão e que a injustiça jamais se esquece.
Naquele dia, escreveu-se na vida dos protagonistas desta história, uma história que não leriam em livro nenhum, mas que iriam recordar para sempre, como uma das mais importantes das suas vidas.

29 de setembro de 2010

Quando me pergunto quem sou




Quando me pergunto quem sou
Há um riacho límpido
A serenar nos meus olhos
O cansaço do tempo
Nas pupilas

Solto dos dedos
O linho branqueado dos gestos
Que fiado à dor da geada
É bordadura do meu céu
E fino véu que me tem abrigada
Do voo rasante dos milhafres

Quando me pergunto quem sou
Apenas a textura rude da estopa
Envolve a minha circunstância
Com ela teço a pele
Com que me entrego
Cerzindo todas as chagas
E apenas nessa imperfeição
Me reconheço



25 de setembro de 2010

Imagino-te por nascer



Em noites demoradas
Na exaustão aguda dos gritos
Dilacerados e roucos
Imagino-te por nascer
Nas madrugadas infinitas
Escorridas de insónia
Onde a rocha em mim se faz areia
Despedaçada
Eu imagino-te por nascer
E no tacto trémulo
Da minha lua desventrada
Ergo o corpo dorido
Na alma parida
Esvaziada
E choro
Por não te sentir nascido
Por não me sentir nada



21 de setembro de 2010

De ti


Gizaste-me menina
Alva, intacta
Num corpo rendilhado
De sonhos teus de mulher
Desejaste-me o voo
Integro, profícuo
Muito além de todas as rezas
E na arte de ser
Escreveste a última linha
Muito antes de contemplar a obra feita
Eu...
Ainda hoje pouso no teu beiral
À procura dos teus olhos





Esboço de
Thamar de Araújo

15 de setembro de 2010

Magia de Setembro



Desfaço o ângulo morto
Da queda lenta de uma folha
E quando penso que já não sou
Eis que me embalas
No canto manso dos teus beijos
E doce, nasce de nós o vento
Que é aroma de mosto quente
Tronco de um corpo renascente
E esperança de todas as manhãs



9 de setembro de 2010

Para lá do arco-íris






















Há segredos
Que ocultam vícios
Dismorfias
Carícias infames
Pérfidas
Impróprias
Frias
No abuso das horas
Há lamentos vazios
No bafo quente dos lobos
Que dizem ser homens
Há silêncios
Há degredos
Na vergonha dos segredos
Há rios de vida que morrem
Em nascentes abafadas
Há verdades esborratadas
Pelas asas dos morcegos
Há medos
Deixai que a arca se abra
E se solte sem demora
A verdade amordaçada
Aprisionada
Nessa caixa de Pandora
Olhai com mais atenção
O orvalho que cai encoberto
Às vezes mesmo tão perto
Da árvore que é raiz
Um olhar de amor inteiro
Que em dia soalheiro
Vê a criança infeliz
Para lá do arco-íris
Em muitos desenhos de cor
Existe um risco negro traçado
No rosto de quem devia ser flor


7 de setembro de 2010

Sinfonia da ciência (2)


"Qual o nosso lugar na perspectiva cósmica da vida?"

(Robert Jastrow)

"Uma das grandes revelações da exploração espacial,

é a imagem da Terra, finita e solitária,

acomodando toda a espécie humana,

através dos oceanos, do tempo e do espaço."

(Sagan)

The Symphony of Cience