Desfaço o ângulo morto
Da queda lenta de uma folha
E quando penso que já não sou
Eis que me embalas
No canto manso dos teus beijos
E doce, nasce de nós o vento
Que é aroma de mosto quente
Tronco de um corpo renascente
E esperança de todas as manhãs
Há segredos
Que ocultam vícios
Dismorfias
Carícias infames
Pérfidas
Impróprias
Frias
No abuso das horas
Há lamentos vazios
No bafo quente dos lobos
Que dizem ser homens
Há silêncios
Há degredos
Na vergonha dos segredos
Há rios de vida que morrem
Em nascentes abafadas
Há verdades esborratadas
Pelas asas dos morcegos
Há medos
Deixai que a arca se abra
E se solte sem demora
A verdade amordaçada
Aprisionada
Nessa caixa de Pandora
Olhai com mais atenção
O orvalho que cai encoberto
Às vezes mesmo tão perto
Da árvore que é raiz
Um olhar de amor inteiro
Que em dia soalheiro
Vê a criança infeliz
Para lá do arco-íris
Em muitos desenhos de cor
Existe um risco negro traçado
No rosto de quem devia ser flor
"Uma das grandes revelações da exploração espacial,
é a imagem da Terra, finita e solitária,
acomodando toda a espécie humana,
através dos oceanos, do tempo e do espaço."
(Sagan)

A Paz não é um decreto, um projecto ou um papel assinado.
Não é uma simples solução urgente, para o sossego da ira ou para um sono tranquilo de uma consciência culpada.
A Paz não é propaganda, uma ordem de quem manda ou uma alínea qualquer de um programa mundial.
A Paz é uma construção livre, de amor, justiça e verdade, que começa no nosso umbigo para abarcar a humanidade.
Sendo um bem, é também ela um direito; individual e comum.
É um princípio de vida.
É dignidade colectiva, no humilde respeito de um por todos e de todos por cada um.
Se pudéssemos rasgar a palavra
E dissecar-lhe o sentido
Na espessa alquimia dos prantos
Se soubéssemos ser éter
A descrever o verbo
Na curva permanente de um beijo
Ah se fossemos apenas
O mais simples simplesmente
Entre a boca que diz
E a mão que não mente
Não haveriam pontos nem vírgulas
No trilho que seguimos
Soltar-se-iam todas as metáforas
Nas línguas mordidas de silêncio
E em cada letra o sol brilharia
Como a rima num verso
Se déssemos a alma à palavra
Nenhum sussurro morreria
Porque sendo mais forte do que um braço
Um laço
Sempre a palavra seria
Foto pessoal
Fotos pessoais
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