29 de agosto de 2010

Mais forte do que um braço



Se pudéssemos rasgar a palavra
E dissecar-lhe o sentido
Na espessa alquimia dos prantos

Se soubéssemos ser éter
A descrever o verbo
Na curva permanente de um beijo

Ah se fossemos apenas
O mais simples simplesmente
Entre a boca que diz
E a mão que não mente

Não haveriam pontos nem vírgulas
No trilho que seguimos
Soltar-se-iam todas as metáforas
Nas línguas mordidas de silêncio
E em cada letra o sol brilharia
Como a rima num verso

Se déssemos a alma à palavra
Nenhum sussurro morreria
Porque sendo mais forte do que um braço
Um laço
Sempre a palavra seria




24 de agosto de 2010

Da simetria dos olhos



Nada se acrescenta
a essa amplitude imensa
quando somos, contorno de sílaba desvairada
livre e solta
a soletrar um poema

Nada se perde ou subtrai
se chorarmos
ao inventar um rio abraçado ao mar
na pálpebra minha que protege a tua
de um sonho ainda por inventar

Tudo é tanto, aqui
na simetria dos olhos
onde esculpimos no pó, o cruzamento da alma
semente deixada ao vento
nosso alento, nossa calma
nossa vida a germinar
porque o amor é colheita
mesmo à mão de semear

Fts pessoais

19 de agosto de 2010

Na intermitência do voo




- Olá – disse ela.
- Olá – disse ele.
- Quem és tu, tão belo e que fazes aí no cimo do teu vértice?
- Ando no vento à minha procura.
- Posso gostar de ti, se me deixares . Porque não te vens mirar aqui, na minha janela?
- Porque a janela é tua e eu não sei ainda quem sou. Dizes que sou belo, mas eu não me reconheço nesse reflexo. Para gostares de mim, é preciso que eu antes me revele e como me posso revelar se ainda não me descobri? Passarias a gostar de mim pelo que julgas que sou, através da luz dos teus olhos, mas o reflexo é apenas a projecção de um desejo, não a minha realidade.
- E como podes tu encontrar-te no vento? Ele passa tão rápido. Às vezes corre veloz e é frio, outras é apenas uma suave brisa que vem do mar. Como buscas a verdade de ti nessa inconstância?
- Espero com paciência que é a maior de todas as sabedorias e grande companheira do tempo.
- Mas a sabedoria nem sempre traz o que se espera e o tempo é efémero.
- Por isso eu não espero nada em concreto. Se soubesse o que ela me traria, que adiantaria esperar? Sabes, não tenho pressa. É tão bom voar.
- Mas posso gostar de ti à mesma , enquanto te descobres?
- Podes sim, mas eu ficarei teu amigo e depois, que faço eu com os teus olhos, se chorares?
- Porque haveria eu de chorar? Gostar de ti vai-me fazer sentir mas bonita.
- Mas eu não sei ainda quem sou, lembras-te? Posso desiludir-te.
- É verdade isso que dizes…. . Mas sabes, quando estou aqui à janela, às vezes aqueço-me com o sol que brilha alto e outras também me abrigo dos pingos da chuva. Sei que é assim e não tenho medo, nem me desiludo. Se te vir chegar, vou abraçar-te com cuidado e ouvir o que tens para me contar. Se te vir partir, ficarei feliz por ti e prepararei os meus olhos para te ver de novo no regresso.
- E se eu não voltar?
- Oh… se não voltares, talvez aí eu me molhe com a chuva mas, abrigar-me-ei na lembrança deste nosso abraço e o seu calor, secará as minhas penas.



Foto pessoal

14 de agosto de 2010

Reconciliação



Sentou-se à beira do mar. Estava exausto, pronto a desfazer-se da pele que trazia e, no entanto, não estava certo de estar pronto para receber a seguinte. Na incógnita, viu-se inseguro.
Tentava lembrar-se dela, do exacto momento em que rasgara a lembrança como uma fotografia e guardara os pequenos pedaços, algures dentro de si.
Tinha sido mais fácil esquecer. Ao longo dos anos tinha aprendido, que há feridas que doem menos se nos esquecermos que existem. Mas, sabia agora também, que essas, as esquecidas, nunca saram.
Não, não se lembrava do rosto dela. Apenas alguns traços numa linha descontínua. Sabia-lhe apenas das mãos, do desenho das veias que as alimentavam, o formato das unhas nos dedos e o carinho que delas nascia; imenso, pleno e generoso, a envolvê-lo em todos os momentos da sua vida. Todos, até ao dia em que o recusou.
Não, também já não se lembrava das palavras. Tantas que ouvira e dissera, doces e agrestes. Nem do olhar que, sem nunca ter percebido bem porquê, evitara.
Mas reconheceria o seu cheiro, num jardim de jasmins e madressilvas, no final do Inverno e saberia seguir a sua voz, como o dedilhar de uma harpa, no meio de uma multidão.
Tudo lhe parecia agora presente, incrustado na alma. Uma alma diferente que se revelava dentro dele, sem aviso.
- Vou ser pai !!
O grito lançado ao mar, à sua sabedoria imensa e o eco a repetir-se dentro do coração que pulava. O olhar vagueava ao ritmo das ondas, num vai e vem que parecendo igual, jamais o seria. E abriam-se as janelas de par em par , no desenho do sorriso feito riso que pendurava ao peito.
E de novo a angustia da ausência dela, ou da sua ausência na vida dela, ou o doloroso esquecimento dos dois.
Imaginou o filho a crescer, como ele havia também crescido. Imaginou-se a protegê-lo, como ela também o havia protegido. Pensou no vento que transforma as marés, pensou no tempo, pensou nela e uma lágrima escorregou, incauta, face abaixo.
Como posso ser um bom pai se não fui um bom filho? Como posso alegrar-me pelo futuro se me entristeço pelo passado? - E a pele a despegar-se dele, a largá-lo.
Dos olhos nascia então um mar que ao outro se acrescentava e na areia, desfaziam-se noites e dias de gélida e teimosa solidão.
No silêncio seu, despiu-se da roupa e, desnudado de tudo, entrou mar adentro com as palavras não ditas a queimarem-lhe a boca. Sorveu a espuma e o sal, trocando a vergonha, o medo e o orgulho.
O sol caía a pique, quando se ergueu da profunda transparência e, por fim, caminhando, desenhou o regresso nas pegadas que foi deixando.
Com os pés ainda nus, mas já firmes na rocha quente, olhou para trás e observou o ziguezague dos seus passos. Naquele momento, percebeu que à porta que agora se abria, escancarada, a franquear-lhe o caminho, a mãe esperava, há já uma eternidade, pelo seu abraço.
E foi para aí que seguiu, sem mais demoras, para lá chegar com o raiar da aurora e no colo dela, no amor dos seus braços, fazer as pazes com a vida, fazendo as pazes com ela.


Fotos pessoais



7 de agosto de 2010

Na memória das rosas



Plantei na linha do horizonte
As rosas que te darei no Inverno
Quando a neve cobrir em manto
A minha melancolia
E o sol pintar nelas a cor
Aquietada dos meus olhos
Serás o que delas fizeres
Enquanto esperas o ocaso
E assim nascerá o perfume
Que torna as coisas eternas
Serão elas, enfim, dentro de ti
Serei eu, assim, na memória delas




31 de julho de 2010

Há sereias nos rios


[Rio Alva - Avô ]

Há sereias que dormem nos rios
esquecidas no verde das colinas
e no musgo da história
suspensa
Neles, nos rios
embalam o canto
no encanto de serem água, apenas
gotas de um mundo maior
em lágrimas mudas
e vidas serenas

[Rio Ceira - Góis]

25 de julho de 2010

Ao sol



Cedo à transparência do sol
porque tudo é breve
e o brilho tem de vida
apenas o segundo
que antecede
a queda previsível
das folhas mortas
na sombra improtelável
dos dias findos



(Ft. pessoal )

19 de julho de 2010

A utopia dos desejos


Na cor doce e suave do toque, o seu cabelo era mel e havia um brilho amendoado nos seus olhos, onde pressenti esconderem-se as pontas soltas de doze outonos de solidão. Era uma menina e chorava.
“ Não devia ter nascido!”- disse-o como quem solta do peito o derradeiro sopro, contraindo-se na espera de um eco inverso. Mas foi um grito o que senti, um grito que se me colou sangue adentro, até à dor impossível nas minhas entranhas.
Abracei-a.
“ Princesa, não é culpa tua!”.
O olhar dela agarrou-se ao meu. Náufrago. Salvo do abismo eminente por falta de um colo, de um beijo, de um afago. Salvo da vertigem recente, no mergulho negro de uma jangada de comprimidos. Salvo da desistência, no vergar da tenra esperança. Salvo para tudo, quem sabe o quê…
Desejei levá-la comigo, para lhe perpetuar na alma a força dos rochedos.
Desejei ter na mão uma magia própria, capaz de tocar o coração desabitado dos pais dela e de todos os outros também. Corações desertos de memórias e perdidos de si . Lembrar-lhes que é preciso sentir-se amado e desejado, para se conseguir aceitar da vida o que nos açoita e nos rouba o sol, ás vezes. Dizer-lhes que nenhuma gaivota voa livre, no saber desesperado de terra ausente que a acolha e a aconchegue dos cansaços do vento e da espuma alvoraçada do mar.
Desejei....
Mas sei tão bem, que há dias em que o sonho é o traço possível no horizonte imperfeito e outros em que o pesadelo é uma equação insolúvel.
Abracei-a de novo. Procurei dentro da emoção apertada, as palavras certas. Palavras isentas de ocos sentidos e outras banalidades. Nada. Só o abraço e o silêncio, possuíam a lógica do gesto próprio para aquele momento. Na dor, ofereci-lhe o óbvio e nada mais.
“ És tão bonita, e é tão bom viver…”.
Apertou-me contra si e, com o rosto cansado apoiado no meu ombro, disse-me baixinho:
“ Eu não queria…, eu não quero morrer. Mas estou tão triste..”


Hoje, passados alguns dias, busco a serenidade impossível na utopia dos desejos. Sei que ela virá, porque outros olhos me esperam. Olhares brilhantes ou baços, com outras dores, à espera dos meus braços e das palavras que, tantas vezes, não encontro.
Na procura, cruzo-me com Fernando Pessoa e descubro na sua poesia, o abraço que preciso para chorar.

“ A miséria do meu ser “

A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer.
Que roda fora da pista.

Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.

É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível.
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?

Fernando Pessoa




16 de julho de 2010

As fendas dos muros



Por entre as fendas dos muros...

ouvem-se os lamentos
no ranger das amarras
e rasga-se a cal
pela força dos punhos

Nas fendas dos muros...

renasce a esperança do grito
temperado de sal
e o ruir das muralhas
no sopro nos medos

Das fendas dos muros...

escorre a seiva em cascata
ao abraço das mãos
que prolongam a vida
no encontro dos dedos

Fotos Pessoais



12 de julho de 2010

No meu tear



No meu tear
Junto os fios de seda branca
E neles, fio os dias
Mesclados de sonhos e palavras
Pétalas e folhas de um girassol
Que inquieto
Vai tecendo nas noites frias
O amparo desta alma de poeta
E nela sossega
Quando a vida
É um denso e inefável nevoeiro