22 de junho de 2010

Preciso.te




Preciso saciar-me em ti
Entrelaçar as memórias nos teus olhos
E sentir-te marear no meu corpo
Contornando as minhas tempestades
Preciso que me recebas assim,
Candeia faminta sem luz
Na dor que me atormenta, gota a gota
E nela, te faças rio de água minha, salina
Depurada em tua boca





19 de junho de 2010

a Maior Flor do Mundo




porque as flores Maiores...


jamais murcham, secam ou morrem!


15 de junho de 2010

À procura da esperança

















Desenharam-me imensa
Para embalar com o olhar a dor que te aperta,
Traço negro e redondo

De todos os contrastes e assimetrias,
Desassossegos e lagos de solidão
Feitos marés e maresias.
Aí flutuo em vagares e assombros,
Rasgando nas tuas pálpebras
O traço preciso de um ténue sorriso ,
Brisa de todas as manhãs .
Desenharam-me imensa
Para partir vida fora,
Pé- ante- pé, dentro do meu corpo
Alma sem bússola
Barco sem porto
À procura da esperança
Que haverá de salvar o mundo ,
Sinal rarefeito
No olhar límpido e perfeito, de uma criança


10 de junho de 2010

Não quero morrer sozinha!





Tinha o olhar doce, mas orvalhado de suplica.
“ Por favor senhor doutor, não me mande para casa…”

Estranhos desígnios estes que hoje a faziam recusar, o que tanto amara a vida inteira; a sua casa, o seu templo, trono de seu único reinado, paraíso onde sempre fora dona e senhora, talvez rainha soberana, quem sabe?
Gostava de tudo nos seus lugares. Tudo, porque tudo eram pequenos farrapos dela e, por isso, nada estava a mais porque tudo lhe fazia falta. Eram coisas velhas como ela, mas suas, muito suas! Que ninguém viesse sequer dizer-lhe para substituir os tapetes, que outrora tecera com trapos, por carpetes. Ou então, para guardar as suas rendas e bordados na arca. Estavam fora de moda? Que estivessem. Queria-os ali mesmo, em cima das cómodas e mesinhas de cabeceira a fazerem-na feliz. Há muito que dizia ao filho que os seus tarecos falavam com ela e lhe adivinhavam as memórias, as tristezas e as saudades. Ele não acreditava, parecia-lhe que às vezes até se ria do que ela dizia. Por certo, achava-a senil o maroto. Magano a mangar dela.
Ele era o seu menino, sempre fora. Mesmo casado e de vida feita lá por França, sempre o embalara no coração e era o cheiro dos caracóis macios e loiros o que ela sentia quando, de saudades, fechava os olhos a recordá-lo.
Mas isso fora até há cinco anos atrás, antes da vida dele andar em bolandas e se ter divorciado. Se ficara triste? Nem sabia bem definir. Ora, antes assim, já que o amor acabara e netos não havia! Mas no íntimo de si, como um segredo jamais revelado, habitava a felicidade maior de o ter de regresso à sua casa e aos seus cuidados, precisamente no dia em que ele festejava cinquenta anos.
Passara então a tê-lo por perto todos os dias… ou quase todos.
Gostava de lhe aprontar a refeição, de ficar à sua espera de mesa posta, tacho fumegante e a saliva a crescer-lhe na boca. Não, nunca comia sozinha, a não ser que ele tardasse sem a avisar. Nesse caso, comia a sua sopinha se a fome era muita, mas quase sempre não comia nada
Gostava de lhe tratar das camisas, engomá-las a preceito sem dobras ou vincos, que esses só nas calças, como pertencia. Deixava depois tudo pendurado em cabides, e nos seus devidos lugares. Não queria que nada lhe faltasse, nem que ele sentisse falta de nada.
Havia dias em que as pernas já se arrastavam para ir à mercearia, mas Rosinha, a filha do Joaquim, trazia-lhe às vezes as compras a casa, pois por poucas que fossem, pesavam sempre mais do que aquilo que conseguia suportar.
“ D. Hermínia, a senhora já não tem idade para estas coisas, o seu filho é que havia de tratar de si...” dizia-lhe  o merceeiro, amigo de muito ano.
Sabia-o. Sentia os oitenta e quatro anos pesarem-lhe cada vez mais no ânimo, mas enquanto o corpo pudesse e o Senhor lhe permitisse, seria ela a cuidar dele.
E cuidou, até há pouco mais de quinze dias atrás, em que o corpo deixou de puder.
Adoecera com uma pneumonia. Ficara acamada no hospital e, dia após dia, sentira fugir-lhe das pernas a força necessária para se manter de pé. Ao fim de uma semana, findo o tratamento e curada a doença, teve de voltar para casa. Não podia ficar mais tempo, havia que dar lugar a outros, quem sabe velhos, tal como ela.
O filho protestou. Que não podia tomar conta, que era complicado…
As soluções eram poucas, ela sabia-o. Mas o Centro de Saúde vigiaria, a Santa Casa da Misericórdia apoiaria, e o filho haveria de a mimar. Claro que a mimaria!E quanto não vale o mimo de um filho?
Voltava então para o seu canto, e isso era o mais importante.
Seria?
Nem imaginara na altura, o quanto estava errada. Soube-o em pouco tempo.

Era a terceira vez na última semana que o filho a trazia à urgência.
Primeiro, porque a achava pálida, depois, porque os intestinos estavam presos… 
Agora, ouvira-o dizer à enfermeira, sem pudores ou falsos equívocos: “ Desculpem, mas têm de ficar com ela. Não tenho tempo nem vida para isto. Negócios, sabe como é!?”
Pressentiu o fim naquele derradeiro segundo. A voz do seu menino que sempre achara doce, a  gelar-lhe  a alma, num frio que lhe paralisava o sangue no interior das frágeis veias. Sentiu finalmente o cansaço de viver e rendeu-se vazia a toda a solidão adiada.
Apertou a mão do médico com força e, com a lucidez a transbordar-lhe nos olhos, continuou;

“… não mande, p'la sua saúde, doutor! Eu não quero morrer sozinha!!”


6 de junho de 2010

Isto dá que pensar (6)



Porque é na adversidade que
questionamos os nossos limites...





... Vale a pena mergulhar dentro de nós e,
nesse silêncio só nosso, percebermos
o quanto somos fortes, afinal !


1 de junho de 2010

Na sedução das manhãs





Soltei na aragem das manhãs
O pólen que nutre os teus sentidos
E rasguei-me em pétalas de dor e verso
Rimas coloridas de uma estrela ardente
Esculpida no vértice do infinito
Onde fui em ti
Grito de magma quente
Alfa e ómega, universo
Onde foste em mim
Beijo de seiva doce
Desejo côncavo em amor convexo




28 de maio de 2010

Hoje canta o poeta...







VINICIUS DE MORAES






Eu sei que vou te amar

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que eu vou te amar
E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há-de apagar
O que essa ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida



Na voz de...
Eugénia Melo e Castro




Há selos e desafios em Mimos&Selos
passem por lá!

23 de maio de 2010

Regressos





Tantas vezes, tantas, me perco nos sons da minha natureza
E oiço o passo do compasso deste frágil coração que me anima.
Chamam-me às vezes, as vozes de dentro de outras conchas,
onde residem pérolas e aplausos e segundos de vaidade, orgulhos breves.
E vou…, e volto…
Volto a este lugar só meu
Lugar onde desenho sonhos, venço batalhas, onde não há falhas
ou gestos menos próprios.
Gosto de mim aqui, inteira
sem que a voz me trema, sem que sinta frio.
Gosto de ser alma forte e soalheira
e sentir a dor, qualquer dor,
fluir em mim, líquida como um rio.
Gosto de me sentir cingida
em laços e beijos ternos,
fragrâncias de abraços fraternos.
Gosto de mim, aqui
tecida em fios de luz
Entre o que fica e o que parte
De tudo o que em mim é, e apenas o que importa
Quando a noite, triste noite, para ficar
Tal como eu, também volta.


**

15 de maio de 2010

Entre um café e um pastel de nata



Hoje acordei com o sol a fazer-me cócegas, no corpo ainda cansado. Aceitei-lhe a energia e num ápice, ergui-me.
Fui recebê-lo no jardim, onde o vento me presenteou também, com a frescura dos dias diferentes.
Vesti algo prático, penteei apressadamente os cabelos e saí a caminho do supermercado para as compras semanais. Coisas rotineiras, daqueles que têm apenas o fim-de-semana para assistir devidamente a casa e a família.
Na cafetaria do supermercado, antes de iniciar o percurso labiríntico dos corredores, gosto de me sentar calmamente a beber um café, que acompanho com o meu pecado semanal, um pastel de nata. É um hábito antigo que gosto de manter, como um mimo que faço a mim mesma, quase em exclusivo, ao sábado. E assim aconteceu hoje, mais uma vez.
Fiquei ali um bom bocado, vendo chegar e partir outras pessoas que faziam o mesmo que eu. Algumas sozinhas, outras acompanhadas com suas caras metades e outras ainda, com toda a família.
Reparei, hoje com uma indignação diferente, que cada vez há mais pessoas que passam pelas revistas e jornais, escolhem uma ou ambas as coisas e levam-nas para a mesa, onde fazem a actualização das notícias do dia, da semana ou da vida, às vezes tão espelhada nas que vêm publicadas. E porque as palavras e as ilustrações não saem do papel só porque são lidas, voltam os respectivos periódicos, a ser colocados no sítio, quando os seus inoportunos leitores, já satisfeitos, se vão embora. Na prateleira, ficam novamente à espera que apareçam clientes verdadeiramente conscientes e responsaveis, que comprem a sua propriedade, antes de se dedicarem à leitura.
Neste vai e vem de chegadas e partidas, onde não há serviço de mesa possível, as empregadas não tinham mãos a medir, para corresponder aos pedidos de pequeno-almoço completo ou, menos ainda que eu, simplesmente um café. Os tabuleiros, delicada e apetitosamente servidos inicialmente, iam sendo abandonados nas mesas, com o lixo e a desarrumação das cadeiras a denunciar a saída dos seus utilizadores.
Algumas pessoas que chegavam, para puderem utilizar uma mesa limpa, pegavam nos tabuleiros, com o lixo que não era seu, colocando-os no local certo.
Pensei nas crianças que ali estavam. Pensei na educação dos mais novos e nas mensagens contraditórias (ou não) dos seus pais.
Gradualmente, fui perdendo o alento que torna os dias diferentes.
Levantei-me, arrumei a cadeira e abandonei o local deixando a mesa limpa.
Se todos fizermos a nossa parte, o mundo pode ser bem mais bonito. Ao invés disso, se nada for feito quanto antes, para repor a noção de dever e de direito, podemos ter de viver numa selva, onde nem as cócegas do sol nem a frescura do vento conseguirão transformar os cansaços.


13 de maio de 2010

De que te ris, humanidade?!




Sorves o brilho com que julgas cobrir-te
E despes-te da humildade, despudoradamente
Ousando violentar todas as tuas primaveras
Rezas, porque o coração não é feito de ouro e prata
E a dor é nó que não desata
O desespero a que te condenas
De que te ris, humanidade?!
Se na deserta alma que te habita
Chovem lágrimas apenas