Fazia a mala, sabendo exactamente o que colocar lá dentro. Desenhara já aquele cenário, tantas e tantas vezes que agora, reunida a força para se erguer da inércia, sentia a repetição dos gestos. Partia. Partia agora, sem adiamentos ou desculpas, partia antes que o medo a impedisse mais uma vez. Partia, como se da alma explodisse a última erupção, o último grito de uma guerra há tanto tempo perdida.
Já não pertencia àquele espaço. Nem a nenhum outro. Sabia-o, desde que se imaginara longe.
Acariciou com o olhar, as paredes que um dia havia colorido de sonhos e que agora, tal como ela, se esborratavam de solidão. Cada pequeno espaço daquela casa, tinha sinais seus, marcas das noites tecidas no fio das horas, enquanto esperava por Pedro. Olhou e despediu-se. Há muito tempo que já nada era seu, e pouco lhe importava isso. Vivera os últimos meses a pensar na partida e nada a faria deter. Nem a mala vazia. Muito menos, a mala vazia.
Pedro, fora o único homem que amara, o único pelo qual um dia, determinada, lutara para que a protegesse, para que a chamasse sua e a levasse para um lugar só deles. Era ainda quase menina e facilmente se deixou embalar pela doçura das palavras e pelas promessas que se entrelaçaram nos desejos, como coisas eternas. Sim, é verdade que às vezes, aquele jeito dele desligado a confundia, como se ela não fosse nada ou não lhe pertencesse. Ela, que lhe entregara tudo.
Apesar de tudo, deixara que a vida lhe soprasse o rumo. Amava-o, isso deveria bastar. Mas os dias ficaram cada vez mais longos, com as viagens de Pedro, também elas longas e as noites cada vez mais escuras e mortas, sem lua, renascendo em raras alvoradas de sol radioso de esperança, quando acordava, ouvindo o som ritmado e calmo do coração dele a bater.
Mas os sonhos, não vivem só de raras alvoradas e a tristeza, minou-lhe a vida como erva daninha. Nem o filho, que pariu sozinha, lhe trouxe alegria. Prematuro, franzino e doente, também ele não a quisera e morrera sem a deixar ser, verdadeiramente, mãe. Choraram juntos, ela e ele, mas dentro dela, nascia um rio de dor que sangrando, jamais haveria de secar.
Pedro culpou-a em silêncio, o silêncio que cimentou o muro frio, estático e intransponível, entre eles. O muro que a aprisionou e a manteve ali, ano após ano, a definhar sem vontade.
Por isso, não sabe o que aconteceu dentro dela, naquela manhã sombria, mais sombria ainda que todas as outras. Pensou que fosse alguma carta importante, quando o carteiro lhe entregou aquele envelope registado e remetido por uma tal Mariana Jardim. Abriu, não imaginando que ao fazê-lo, fechar-se-lhe-ia a própria vida.
Pedro
Lamento ter de te enviar esta carta, mas na ausência de notícias tuas, há quase seis meses, quero que saibas que és pai de uma menina que precisa que lhe dês o nome e aquilo com que se compra a comidinha.
Sem outro assunto
Mariana
Nunca mais deixara de pensar em partir. Mas o medo, tratara de lhe impedir sempre o gesto que decide o acto. Agora, os passos pareciam-lhe finalmente decididos e no entanto, a alma morria-lhe nos ombros.
Saiu de casa sem olhar para trás. Com a mala na mão, percorreu a rua, esperou o autocarro e entrou. “ Para a estação, por favor!” . Apeou-se mesmo em frente à entrada para a bilheteira. Comprou o bilhete para a viagem mais longa. Esperou.
Quando o comboio se aproximou, abeirou-se devagar e atirou-se à linha, antes que a carruagem pudesse, sequer, ter tempo de parar ou o medo a impedisse.
Já nada era seu, já nada a prendia e a mala que se abrira entretanto, estava completamente vazia.