15 de maio de 2010

Entre um café e um pastel de nata



Hoje acordei com o sol a fazer-me cócegas, no corpo ainda cansado. Aceitei-lhe a energia e num ápice, ergui-me.
Fui recebê-lo no jardim, onde o vento me presenteou também, com a frescura dos dias diferentes.
Vesti algo prático, penteei apressadamente os cabelos e saí a caminho do supermercado para as compras semanais. Coisas rotineiras, daqueles que têm apenas o fim-de-semana para assistir devidamente a casa e a família.
Na cafetaria do supermercado, antes de iniciar o percurso labiríntico dos corredores, gosto de me sentar calmamente a beber um café, que acompanho com o meu pecado semanal, um pastel de nata. É um hábito antigo que gosto de manter, como um mimo que faço a mim mesma, quase em exclusivo, ao sábado. E assim aconteceu hoje, mais uma vez.
Fiquei ali um bom bocado, vendo chegar e partir outras pessoas que faziam o mesmo que eu. Algumas sozinhas, outras acompanhadas com suas caras metades e outras ainda, com toda a família.
Reparei, hoje com uma indignação diferente, que cada vez há mais pessoas que passam pelas revistas e jornais, escolhem uma ou ambas as coisas e levam-nas para a mesa, onde fazem a actualização das notícias do dia, da semana ou da vida, às vezes tão espelhada nas que vêm publicadas. E porque as palavras e as ilustrações não saem do papel só porque são lidas, voltam os respectivos periódicos, a ser colocados no sítio, quando os seus inoportunos leitores, já satisfeitos, se vão embora. Na prateleira, ficam novamente à espera que apareçam clientes verdadeiramente conscientes e responsaveis, que comprem a sua propriedade, antes de se dedicarem à leitura.
Neste vai e vem de chegadas e partidas, onde não há serviço de mesa possível, as empregadas não tinham mãos a medir, para corresponder aos pedidos de pequeno-almoço completo ou, menos ainda que eu, simplesmente um café. Os tabuleiros, delicada e apetitosamente servidos inicialmente, iam sendo abandonados nas mesas, com o lixo e a desarrumação das cadeiras a denunciar a saída dos seus utilizadores.
Algumas pessoas que chegavam, para puderem utilizar uma mesa limpa, pegavam nos tabuleiros, com o lixo que não era seu, colocando-os no local certo.
Pensei nas crianças que ali estavam. Pensei na educação dos mais novos e nas mensagens contraditórias (ou não) dos seus pais.
Gradualmente, fui perdendo o alento que torna os dias diferentes.
Levantei-me, arrumei a cadeira e abandonei o local deixando a mesa limpa.
Se todos fizermos a nossa parte, o mundo pode ser bem mais bonito. Ao invés disso, se nada for feito quanto antes, para repor a noção de dever e de direito, podemos ter de viver numa selva, onde nem as cócegas do sol nem a frescura do vento conseguirão transformar os cansaços.


13 de maio de 2010

De que te ris, humanidade?!




Sorves o brilho com que julgas cobrir-te
E despes-te da humildade, despudoradamente
Ousando violentar todas as tuas primaveras
Rezas, porque o coração não é feito de ouro e prata
E a dor é nó que não desata
O desespero a que te condenas
De que te ris, humanidade?!
Se na deserta alma que te habita
Chovem lágrimas apenas

8 de maio de 2010

Envelopes de coragem


Era sempre o dia mais esperado, aquele que trazia o sol para dentro de casa, embora a inevitável noite voltasse, quase de seguida. Mas o que importava mesmo, era aquele momento único em que todas as inquietações desapareciam por breves minutos, e crescia a ilusão de ser e ter um pouco mais.
O Patrão chamara-a e entregara-lhe o envelope, dizendo: “Continuamos a contar contigo”.
Quatrocentos e dez euros e vinte cêntimos. Apertou o sobrescrito nas mãos e pensou em todos os dias que o relógio, obstinada máquina do tempo, lhe ditava o imperativo maior de levantar o corpo da cama morna, onde dormia só.
Pensou nas horas em que as costas lhe reclamavam repouso e ela, ignorando-as, continuava na apanha da batata, ou na monda nas estufas.
Pensou na solidão e nas pernas cansadas.
Pensou na sorte que tinha, de não ter sido despedida e sem um ai ou qualquer outra queixa, prendeu tudo lá dentro, no lugar mais fundo de si, em memória de António que o Senhor o tivesse em descanso. Ele haveria de se orgulhar dela, como lhe prometera quando o fora a enterrar. Por via de todo o amor que lhe dera, nunca mais haveria de ter outro homem e faria dos filhos, gente nobre e valente.
Pensou no sorriso dos dois meninos a saírem de casa pela manhã, de mochila às costas e barriguinha cheia de cevada e pão com doce de tomate, feito por si.
Quatrocentos euros tinham que chegar, que os outros dez, mais os vinte cêntimos, já estavam destinados para pagar a água.
A caminho de casa, passou pela mercearia do bairro, comprou o pão de centeio e pediu ao Sr. Manuel que lhe trocasse o ordenado em notas de vinte. Era assim mais fácil dividir o pouco e menor a sensação do nada.
Em casa, com o sol ainda a aquecer-lhe a alma, pegou nos envelopes de papel já moído. No da renda da casa, juntou cem aos duzentos e cinquenta euros que já lá estavam, da sua pensão de viúva. Contou mais três notas de vinte e colocou-as no seguinte, para a luz e gás. Voltou a pensar no sorriso dos filhos e pôs de parte quarenta euros, para os sapatos novos do João e para o blusão do Pedro. Iria à feira, talvez desse para mais alguma coisa. O resto, guardou-o no terceiro envelope junto com o abono, para comprar a sobrevivência. Para eles, claro, e para os coelhos e galinhas que medravam na capoeira e mais para o adubo das alfaces e para os tomateiros que haviam ficado encomendados.
Se calhar, não chegava...
A noite caía novamente, fria, a ensombrar-lhe o olhar e a vida. Ainda deixou cair duas lágrimas, lambeu-lhes o sal e secou-as com a manga do casaco. Renunciaria à tristeza com todas as forças, tal qual sua mãe, noutros tempos. Arrumou tudo na gaveta da mesinha de cabeceira e saiu para a horta.
Enquanto apanhava as laranjas, e as couves para a sopa da janta, pensou na alegria dos filhos que em breve chegariam a casa e se abraçariam a ela e decidiu falar no dia seguinte com a Alzira, sua amiga de infância. Ela haveria de lhe arranjar umas escadas para lavar ao domingo, lá nos prédios novos onde trabalhava.
Por Deus, haveria de chegar!


4 de maio de 2010

Não sei de onde vens



Não sei de onde vens
Nem de que és feita
Sei que contorces a minha terra sem fruto
E cobres-me o peito de melancolia
Agonia perfeita de um poço lodoso
Deserto impiedoso de espinhos e cardos
Fardos sem fim
Quando vais, não sei porque voltas
Nem porque te enleias em mim
E na sombria ilusão dos teus laços
Partes-me o sol aos pedaços
Silencias-me o siso e o riso
E sem malmequeres ou papoilas
Semeias-te no meu jardim



2 de maio de 2010

Natureza de Mãe


Que segredo se esconde em tais entranhas

Que sem saber porquê... ela sabe
Sem saber como... ela sente
Sem mesmo ter... ela dará
Sempre !



Que mistério esse, maravilhoso
Em que o seu todo não é só a sua parte
Mas todas as outras que de perto ou de longe,
ela amará eternamente!




Reedição de "Maravilhoso segredo" de 03/02/2009

28 de abril de 2010

Mala vazia



Fazia a mala, sabendo exactamente o que colocar lá dentro. Desenhara já aquele cenário, tantas e tantas vezes que agora, reunida a força para se erguer da inércia, sentia a repetição dos gestos. Partia.
Partia agora, sem adiamentos ou desculpas, partia antes que o medo a impedisse mais uma vez. Partia, como se da alma explodisse a última erupção, o último grito de uma guerra há tanto tempo perdida.
Já não pertencia àquele espaço. Nem a nenhum outro. Sabia-o, desde que se imaginara longe.
Acariciou com o olhar, as paredes que um dia havia colorido de sonhos e que agora, tal como ela, se esborratavam de solidão. Cada pequeno espaço daquela casa, tinha sinais seus, marcas das noites tecidas no fio das horas, enquanto esperava por Pedro. Olhou e despediu-se. Há muito tempo que já nada era seu, e pouco lhe importava isso. Vivera os últimos meses a pensar na partida e nada a faria deter. Nem a mala vazia. Muito menos, a mala vazia.
Pedro, fora o único homem que amara, o único pelo qual um dia, determinada, lutara para que a protegesse, para que a chamasse sua e a levasse para um lugar só deles. Era ainda quase menina e facilmente se deixou embalar pela doçura das palavras e pelas promessas que se entrelaçaram nos desejos, como coisas eternas. Sim, é verdade que às vezes, aquele jeito dele desligado a confundia, como se ela não fosse nada ou não lhe pertencesse. Ela, que lhe entregara tudo.
Apesar de tudo, deixara que a vida lhe soprasse o rumo. Amava-o, isso deveria bastar. Mas os dias ficaram cada vez mais longos, com as viagens de Pedro, também elas longas e as noites cada vez mais escuras e mortas, sem lua, renascendo em raras alvoradas de sol radioso de esperança, quando acordava, ouvindo o som ritmado e calmo do coração dele a bater.
Mas os sonhos, não vivem só de raras alvoradas e a tristeza, minou-lhe a vida como erva daninha. Nem o filho, que pariu sozinha, lhe trouxe alegria. Prematuro, franzino e doente, também ele não a quisera e morrera sem a deixar ser, verdadeiramente, mãe. Choraram juntos, ela e ele, mas dentro dela, nascia um rio de dor que sangrando, jamais haveria de secar.
Pedro culpou-a em silêncio, o silêncio que cimentou o muro frio, estático e intransponível, entre eles. O muro que a aprisionou e a manteve ali, ano após ano, a definhar sem vontade.
Por isso, não sabe o que aconteceu dentro dela, naquela manhã sombria, mais sombria ainda que todas as outras. Pensou que fosse alguma carta importante, quando o carteiro lhe entregou aquele envelope registado e remetido por uma tal Mariana Jardim. Abriu, não imaginando que ao fazê-lo, fechar-se-lhe-ia a própria vida.

Pedro
Lamento ter de te enviar esta carta, mas na ausência de notícias tuas, há quase seis meses, quero que saibas que és pai de uma menina que precisa que lhe dês o nome e aquilo com que se compra a comidinha.
Sem outro assunto
Mariana

Nunca mais deixara de pensar em partir. Mas o medo, tratara de lhe impedir sempre o gesto que decide o acto. Agora, os passos pareciam-lhe finalmente decididos e no entanto, a alma morria-lhe nos ombros.
Saiu de casa sem olhar para trás. Com a mala na mão, percorreu a rua, esperou o autocarro e entrou. “ Para a estação, por favor!” . Apeou-se mesmo em frente à entrada para a bilheteira. Comprou o bilhete para a viagem mais longa. Esperou.
Quando o comboio se aproximou, abeirou-se devagar e atirou-se à linha, antes que a carruagem pudesse, sequer, ter tempo de parar ou o medo a impedisse.
Já nada era seu, já nada a prendia e a mala que se abrira entretanto, estava completamente vazia.



22 de abril de 2010

Espera que volte




Espera que volte, meu amor ...

Porque és o meu silêncio, a minha calma
O véu que docemente me protege
Porque és o sol, astro maior
Ou estrela de brilho infinito
Porque és somente o meu grito
Porque és grande no meu lago
Sendo sede de universo
Pérola inscrita no meu verso
Ou concha de vida interdita
Porque és o meu alvoroço
Remoinho e ventania
Brisa de alento ou de alegria
Quietude no meu colo
Porque és meu solo
Espera que volte
Do tormento que me tem aprisionada
Voltarei a tempo
De adormecer a noite a teu lado
E embalar contigo a madrugada

17 de abril de 2010

No nada que sou



Despida por astros que gravitam em céu aberto
E me salvam das nuvens onde tropeço, incauta
Deslindo o enigma do tempo de ser tanto
No nada que sou
Ao sabor dos aromas do vento
Que trazem e levam a minha própria poeira
E nela me deito e me perco
Sem eira nem beira
Cega de sol e de assombro
Espalho as palavras na areia
Semeio-as nas pedras da rua
Solto enganos em céu aberto
E a alma se despe de mim
Deixando-me nua

14 de abril de 2010

Hoje canta o poeta...








MARIA GUINOT




Silêncio e tanta gente


Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
É um grito
Que nasce em qualquer lugar
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou
Às vezes sou o tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar
Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão
Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou é um grito
De um amor por acontecer
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que eu sou


... na própria voz


...porque há poemas e vozes e momentos que serão toda a vida coisas plenas!


9 de abril de 2010

Entre as ondas e os compassos


Entre o vai e vem das ondas que suavemente se espreguiçam na areia em tarde calma, revela-se em mim, como surgido do nada, um silêncio cristalino, limbo doce que há muito procurava.

Neste calmo e terno paraíso, onde me torno abrigo de borboleta, intervalo, nada me perturba e tudo é imensa melodia. A paz é um manto, tecido a fios de seda que bordaram nele o tempo, de cores soltas e vivazes de alegria. Traços de azul e branco, em fugazes olhares de terra e de verde maresia.

Aqui, sou tudo e nada, certeza revelada de quem já conhece todas as horas, todos os segundos. Breves, profundos.
Aqui entendo, porque tantas vezes, mas tantas, senti o corpo espartilhado, na mente indigente a vaguear.

Acredito que a imprevisibilidade não existe. Somos a verdade só nossa, recôndita, oculta, perdida… ou a nossa vontade, grande ou pequena, no querer ou não querer, que lavra o pensamento e desenha a vida com cor, sabor ou fragrância, ou então, com nada que valha a pena.

Sim, encontrei esse lugar, onde sossegam agora, todos os cansaços, todas as viagens, todas as horas ocas, todas as procuras e todos os medos.
Esses, os medos, lanço-os na ventania, como quem espanta o pó de um livro esquecido e meio lido, com um sopro morno de vida.
Esses, que suportei noite e dia, mais de noite até, porque sendo ela fria, me acautelei da geada, num outro universo, feito de prosa e verso, sonho e melancolia.
Aí, fui e sei que sou, guerreira sem temores, senhora de Avalon, um leme, uma concha, cordão de conta sumida, um simples lampião, um terço ou um berço ou qualquer coisa esquecida.

Hoje e agora, no abraço forte e quente deste sol que me aninha, envolvente, a carícia chega do mar em sinfonia.
Tacteio-lhe a partitura e o voo rasante de todos os pássaros, e entre dois compassos espraiados, de rios e mares e vagas de danças plenas, silencio-me, no suave embalo de uma barca ou caravela, desenhada na viela de uma escrita, em que as palavras são maiúsculas de afectos e de vida, pintadas em letras pequenas.


E nascem-me ondas nos dedos, em arrepios, frios … sonhos e segredos!