22 de abril de 2010

Espera que volte




Espera que volte, meu amor ...

Porque és o meu silêncio, a minha calma
O véu que docemente me protege
Porque és o sol, astro maior
Ou estrela de brilho infinito
Porque és somente o meu grito
Porque és grande no meu lago
Sendo sede de universo
Pérola inscrita no meu verso
Ou concha de vida interdita
Porque és o meu alvoroço
Remoinho e ventania
Brisa de alento ou de alegria
Quietude no meu colo
Porque és meu solo
Espera que volte
Do tormento que me tem aprisionada
Voltarei a tempo
De adormecer a noite a teu lado
E embalar contigo a madrugada

17 de abril de 2010

No nada que sou



Despida por astros que gravitam em céu aberto
E me salvam das nuvens onde tropeço, incauta
Deslindo o enigma do tempo de ser tanto
No nada que sou
Ao sabor dos aromas do vento
Que trazem e levam a minha própria poeira
E nela me deito e me perco
Sem eira nem beira
Cega de sol e de assombro
Espalho as palavras na areia
Semeio-as nas pedras da rua
Solto enganos em céu aberto
E a alma se despe de mim
Deixando-me nua

14 de abril de 2010

Hoje canta o poeta...








MARIA GUINOT




Silêncio e tanta gente


Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
É um grito
Que nasce em qualquer lugar
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou
Às vezes sou o tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar
Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão
Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou é um grito
De um amor por acontecer
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que eu sou


... na própria voz


...porque há poemas e vozes e momentos que serão toda a vida coisas plenas!


9 de abril de 2010

Entre as ondas e os compassos


Entre o vai e vem das ondas que suavemente se espreguiçam na areia em tarde calma, revela-se em mim, como surgido do nada, um silêncio cristalino, limbo doce que há muito procurava.

Neste calmo e terno paraíso, onde me torno abrigo de borboleta, intervalo, nada me perturba e tudo é imensa melodia. A paz é um manto, tecido a fios de seda que bordaram nele o tempo, de cores soltas e vivazes de alegria. Traços de azul e branco, em fugazes olhares de terra e de verde maresia.

Aqui, sou tudo e nada, certeza revelada de quem já conhece todas as horas, todos os segundos. Breves, profundos.
Aqui entendo, porque tantas vezes, mas tantas, senti o corpo espartilhado, na mente indigente a vaguear.

Acredito que a imprevisibilidade não existe. Somos a verdade só nossa, recôndita, oculta, perdida… ou a nossa vontade, grande ou pequena, no querer ou não querer, que lavra o pensamento e desenha a vida com cor, sabor ou fragrância, ou então, com nada que valha a pena.

Sim, encontrei esse lugar, onde sossegam agora, todos os cansaços, todas as viagens, todas as horas ocas, todas as procuras e todos os medos.
Esses, os medos, lanço-os na ventania, como quem espanta o pó de um livro esquecido e meio lido, com um sopro morno de vida.
Esses, que suportei noite e dia, mais de noite até, porque sendo ela fria, me acautelei da geada, num outro universo, feito de prosa e verso, sonho e melancolia.
Aí, fui e sei que sou, guerreira sem temores, senhora de Avalon, um leme, uma concha, cordão de conta sumida, um simples lampião, um terço ou um berço ou qualquer coisa esquecida.

Hoje e agora, no abraço forte e quente deste sol que me aninha, envolvente, a carícia chega do mar em sinfonia.
Tacteio-lhe a partitura e o voo rasante de todos os pássaros, e entre dois compassos espraiados, de rios e mares e vagas de danças plenas, silencio-me, no suave embalo de uma barca ou caravela, desenhada na viela de uma escrita, em que as palavras são maiúsculas de afectos e de vida, pintadas em letras pequenas.


E nascem-me ondas nos dedos, em arrepios, frios … sonhos e segredos!


6 de abril de 2010

Singular modo de amar





No contorno fino dos teus lábios
Adivinho-te em palavras
Protegidas de outros verbos
Nuas, frias, lassas
À espera que das minhas, nasçam
Os milagres que te confortam.
Mas ouves leves cicios apenas,
Da alma que um dia cantou ao vento
Em fogo lento
E hoje é gélida ave sem asas
Sem penas
Presa à inevitabilidade do tempo.
Recuo pois, nas premissas
Nas certezas que me lastimam
E concluem o que não posso dar-te.
Beijo-te apenas
Sigilando no abismo do silêncio
Este meu singular modo de amar-te.


2 de abril de 2010

Confissão

Confesso...


Que no pranto, na chaga
Na dor que me habita
Sou cruz magoada
De carvalho esculpida
Sou prece ou renúncia
De amor imperfeito
Sou culpa que grita
Sou ferida no peito
De mãe aflita

Confesso...



A todos os meus leitores e amigos, desejo uma Feliz Páscoa



31 de março de 2010

O medo na palma da mão





Na palma da minha mão
Rodam as ondas do mar
Como preces de quem fica à deriva
Rezando regressos
Na palma da minha mão
Voam bilros orando, meu amor
No sal das carícias presas nos dedos
Contas, murmúrios, lamentos
Que entrelaço em rendas de rodopiar
Na náusea de perder-te
Na tempestade dos medos
E se a espuma dos dias te leva
E me deixa sem redes, perdida?
Que faço às rendas, meu amor?
Que faço à vida?



Ft: retirada da net (Monumento às rendilheiras - Vila do Conde)

25 de março de 2010

Luar da vida




No mais recôndito lugar da alma
Adormece a noite, tão cansada
De ventos soprados à toa
Na proa de um corpo que é vaga
Vaga de um rio ou de um mar
Nascente solitária e errante
Que a lua desnuda, brilhante
Amando-a assim, devagar
Esculpido o sonho sereno
Em seixos e beijos e margens
Inventa a noite, as viagens
Na íris parda, momento
Em que o olhar e o sofrimento
Transformam a vida em luar



Foto de Felisberto Magalhães

21 de março de 2010

Hoje canta o poeta...




FERNANDO PESSOA




O Infante


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
e viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!



... na voz de Dulce Pontes


19 de março de 2010

Isto dá que pensar (5)



O dia está a terminar.
A esta hora, quantas crianças adormeceram já, com um desenho, uma prenda ou simplesmente um abraço pendurado nos sonhos, vencidos pelo cansaço de esperarem pelo pai.