19 de fevereiro de 2010

Coisas boas


O dia começava cedo, bem cedo. Ainda o sol se espreguiçava da dormência da noite, já Adélia revolvia a vida por dentro e por fora num frenesim de força e vontade que contagiava tudo e todos.
Era um tempo difícil. Trabalhava longe, em casa das Senhoras ricas, às vezes levava também a filha pela mão e percorria ruas e vielas como quem passa de um mundo para o outro. Para trás já tinha ficado a janta pronta, as camas feitas, a roupa estendida e outra de molho em sabonária para ser lavada à noitinha.
Naquele passo certo e corrido, Maria, a menina, era levada quase a reboque.
- Porque não vamos de camioneta mãe? - Perguntava ela, sentindo ao fim de poucos metros o cansaço nas pernas franzinas.
Adélia às vezes sentia-se angustiada por sujeitar a filha àquele esforço, mas o que podia fazer? Não conseguia esconder-lhe a realidade, embora sonhasse com um futuro melhor e além do mais, era preciso ensinar Maria a enfrentar qualquer adversidade sem grandes lamúrias e lamentações.
Para irmos de camioneta gastamos quatro escudos por dia e é preciso poupar filha! Vais ver que chegamos num instante e depois vais ter todo o dia para descansar.
Os quatro anos de Maria, faziam com que não pensasse noutra verdade para além daquela que a mãe lhe dizia, agarrava-se a ela com a mesma força com que segurava a sua mão e juntas atravessavam a vida.
De todas, a mais bonita era a casa da D. Mimi. Ficava num 8º andar de um edifício tão alto que quase arranhava o céu. Tudo brilhava naquele luxuoso apartamento; os móveis de madeira exótica, o chão encerado e lustroso com carpetes bonitas, cortinados e reposteiros de tecidos nobres e cores sóbrias, pratas e porcelanas dispostas numa decoração requintada. Na cozinha, espaçosa e arejada, os tachos e panelas luziam pendurados e pairava no ar um aroma doce que se misturava depois com o cheirinho do café que Adélia fazia para os Senhores, mal chegava. Quando as meninas se levantavam, a mesa da sala já estava majestosamente pronta para o pequeno almoço. A Senhora já tinha dado as ordens para a refeição seguinte que deveria ser servida à uma hora em ponto, isto depois de Adélia se desfazer em agradecimentos e desculpas por ter tido a permissão, mais uma vez, de levar a filha consigo, assegurando que ela não perturbaria nem os seus afazeres e muito menos a vivência dos donos da casa.
Maria interiorizava com atenção todas as conversas, jeitos e gestos, sentada a um canto da cozinha, num banco de madeira pintada. Nervosamente, ou porque a imponente figura da D. Mimi a intimidasse, ou porque assumia a postura formal e servil da mãe, ela esticava a saia de xadrez pregueada para que lhe cobrisse os joelhos, tal qual lhe recomendava sempre o pai.
Depois era o reboliço. Era a dona da casa que tocava na sala o sininho, dando sinal para que Adélia comparecesse sem demoras. Era o Senhor General, que Maria apenas conhecia pelo som austero da voz, que dizia: “ Tenha modos Nônô!” ou “ Fifi, a menina ainda não lavou os dentes?”. Era a menina Nônô, a mais pequenina, que vinha à cozinha pedir à Adélia que lavasse o vestido da boneca ou lhe fizesse o totó e olhava curiosa para Maria, dizendo-lhe simplesmente “ Olá”.
Ao fim de algum tempo, a calma e o silêncio iam regressando ao ritmo da porta da casa que se abria e fechava até todos terem saído.
Ficavam depois só as duas, mãe e filha, naquele que era para Maria um palácio e para Adélia uma casa de muito trabalho. Depois de saborearem um delicioso café, feito com as borras já coadas do café anterior, Adélia começava a labuta; limpava, arrumava, lavava, esfregava, polia, estendia, passava e cozinhava com a mestria do saber fazer que dez dos seus vinte anos de vida, lhe haviam ensinado enquanto servia em casa de Senhores.
Maria, sempre de volta da mãe, aprendia com ela os gestos mágicos que transformam as casas em portos seguros, asseados e confortáveis.
Só havia um sítio onde ela se perdia como criança; o quarto das meninas. Tudo era tão lindo! A colcha rosa fofinha que cobria a cama pintada de cor branco-pérola . O abajur do candeeiro que era afinal o guarda-sol da boneca que agarrada a ele, pendia do tecto. A caixinha de música com a bailarina em pontas que ela fazia rodar dando-lhe corda, atrevidamente, assim que a mãe se distraía. E as bonecas, tantas bonecas. Grandes e pequenas, como ela nunca vira senão ali. Adélia deixava-a sempre mexer nelas, tocar-lhe nos cabelos, ajeitar-lhes os vestidos. Sabia que existia uma infância roubada no olhar da filha e que aquele era um dos poucos momentos que permitia o seu reencontro. Apesar de saber que Maria tinha todo o cuidado do mundo, repetia sempre o mesmo aviso, com a firmeza das coisas inquestionáveis:
- Volta depois a pôr a boneca no sítio e não estragues nada!
Voltavam depois à cozinha e era hora de preparar o almoço. Pouco depois regressavam todos e também o reboliço e o som do sininho, com a Adélia a colocar o avental branco bordado para se apresentar prontamente à chamada. Ah! E no banquinho de madeira, lá ficava novamente a Maria sentada, à espera que se fizesse novamente silêncio.
Almoçavam na cozinha o delicioso repasto das sobras da refeição dos Senhores que eram devolvidas nas travessas, às quais se juntava por vezes um pouco mais, que de tanta fartura, havia ficado no tacho.
À hora da sesta, Adélia estendia uma saca de serapilheira limpinha no chão da marquise. Maria adormecia ainda a sentir o beijo e a carícia da mãe, a ouvir o tilintar dos pratos e copos que ela lavava e a pensar na manhã, cheia de coisas boas que tinha vivido.



( Decido reeditar este texto que aqui publiquei em Julho de 2008, apenas porque ele me continua a fazer sentir... coisas boas !)

14 de fevereiro de 2010

Valsa de aconchegos



Se no serenar da noite me deixares voar
Para lá da dor que entendes ser só minha
Deixa-me, meu amor, chorar sozinha
Acolhe-me em teus braços, ao regressar



Se de tempestades abrigares desvelos
E voares comigo no rasto das andorinhas
Nas tardes pardas que antes eram só minhas
Prenderei as lágrimas por entre os dedos




Mas se num voo perdido nos encontrarmos
Como o sol encontra a lua, em plena alvorada
Entregarei meu corpo ao teu, sem dizer nada
No momento exacto em que cruzarmos
O compasso de uma valsa de aconchegos




Fts. da autoria do meu colega e amigo Felisberto Magalhães que gentilmente autorizou a publicação neste espaço.

10 de fevereiro de 2010

Isto dá que pensar (4)


Encontra-se perante uma criança que tem no rosto a mão de um adulto "desenhada".
Provavelmente, a mão que acarinha e afaga o mesmo rosto dorido.

O que faz?



Não sabe? Tem que pensar?


Pense antecipadamente sobre o assunto, se ainda lhe dá que pensar. Porque no momento certo, a criança vai precisar que decida....

Sem hesitar!


3 de fevereiro de 2010

Abandono



Calam-se os sinos replicados, calam
Porque bradar já não sabem de cansados
Mudos são os ecos já finados
E tristes são os olhos que não falam

Param os passos esgotados, param
Adormecem inertes na beira do arado
Sangram a seiva do trilho semeado
E gélidos ficam os gestos quando calam

Na profunda alienação dos sentidos
Fica no tacto a angústia da ausência
A recusa do estar só em permanência
A textura dos silêncios desmedidos

Entrega-se à lua a serena sonolência
Com os olhos tristes que não falam
Com os gestos que há muito se calaram
No eco mudo dos sinos em dolência

E se o sol nascer na sombra dos alentos
Escondido por entre raios deprimidos
Deixai ficar na noite os passos feridos
E na morte o abandono dos tormentos

30 de janeiro de 2010

Pessoas singulares V



JOSÉ MANUEL CERQUEIRA AFONSO DOS SANTOS

ZECA AFONSO
1928- 1987


Um livre pensador, um combatente pela liberdade, o músico que soube inovar revitalizando as tradições.
O homem humilde de pensamento solidário.
O extraordinário poeta.
O Português.


Um Homem Singular

É infame o assobio que vaia a sua voz, em tantos momentos, provando que a ignorância é a maior de todas amarras.


É preciso aprender a ouvi-lo de novo !

27 de janeiro de 2010

Poema de nós duas...





Na lentidão do gesto que o finou
Houve uma fria noite que abraçou
O último fio que lhe bordou a vida
Sem tréguas ou olhares de mansidão
Soprou o vento o pó do chão
O corpo a reclamar despedida

Escondida nos luares de Janeiro
Cresceu serena a saudade
Neste pensamento primeiro
Nesta baluarte verdade

Partida a raiz a árvore não cai
Mantém-se elevada no tempo
Como em nós a memória do pai


(Dedicado a João da Conceição Martins, meu pai.
Enquanto ele permanecer na nossa memória , continuará vivo.)

22 de janeiro de 2010

Libertação



Devolvo à terra

O saber sedento da água cristalina
A fecunda criação verdejante
A fresca brisa envolta em neblina

Devolvo à vida

A utopia presa em voo alado
O lamento feito choro suplicante
O presente inteiro gasto em passado

Devolvo-te meu amor

O soneto febril, verbo imperfeito
A carícia colada à pele, viajante
O desejo que esculpiste no meu leito

Devolvo-me

Ao prazer de mergulhar em seiva minha
À recusa de saber-me degradante
À triste sorte de me sentir sozinha

Depois…

Lanço a alma ao mar e me liberto
Num acto insano, demente
De querer sorver-te mundo, tão impuro
Renascendo na maré, sentindo gente


19 de janeiro de 2010

Pelo que pode ser feito....



Não podemos estar todos lá, onde tudo suplica pela nossa humanidade!

Mas, quantas vezes pensamos no nosso vizinho que talvez precise de nós, só para sentir que ainda é gente?



“Faça tudo o que puder
Por todos os meios que puder
De todas as maneiras que puder
Em todos os lugares que puder
Todas as horas que puder
Para todas as pessoas que puder
Enquanto você puder “

John Wesley


FAÇAMOS POIS......

13 de janeiro de 2010

Menina mãe



Já não importava saber como aconteceu, nem falar das consequências com verbosas sabedorias. A vida seguira já o seu rumo, e os dias cobriam-se agora com novas e luminosas cores para além do cinzento.



Madalena tem o corpo franzino. Chega com os olhos brilhantes, afundados no esgar de dor que lhe assombra o rosto indefinido entre a menina e a mulher. Está doente, da “ barriga”, diz.
Pede que a tratem. “ Por favor! “ suplica, é que a dor é grande, mas maior a consumição.
Em casa, com o companheiro, ficara o filhinho, nascido há menos de um mês. Deixara-o a dormir, o anjinho, mas daí a menos de três horas, iria reclamar-lhe o peito que já pingava pressentindo o momento.
Duas lágrimas rolam-lhe no rosto. Limpa-as de seguida, com rapidez. Não é hora de chorar, mas de saber o que tem, de resolver aquela dor que a não larga, para depois ir embora para os seus afazeres de mãe.
Deixa-se observar, faz os exames pedidos e espera. A espera inevitável de um serviço de urgência. A dor passou, só a apreensão continua.
Aproveito o momento para incentivar a conversa, o desabafo. O diálogo é fácil. Ao sorriso, segue-se o riso e os olhos cada vez mais a brilhar. A assistente que a acompanha, hoje e quase todos os dias, encoraja-a a falar comigo.
Diz que não está triste. Que lhe disseram que tinha depressão pós-parto, mas que não se sente triste, só às vezes tem vontade de chorar. Digo-lhe que chore sempre que tiver vontade, que é normal e que não tem que se preocupar por isso.
E fala, fala da sua nova vida e como se sente importante. Diz-me que às vezes tem saudades das amigas da escola e de não ter nada para fazer. Ressalva de imediato que agora é diferente , porque tem o seu menino, que são só os três, é certo, mas que nunca foi tão feliz e o Zé é muito seu amigo.
Penso nas dezasseis primaveras que viveu, ou nos dezasseis invernos...
Tocam-se os nossos olhares. Afago-lhe a mão pálida e prendo a custo a emoção teimosa. Para mim também não é hora.
Interrogo-me sobre a razão da ausência da mãe, da falta do seu apoio. Corre o processo no tribunal, fico entretanto a saber.
- Diz-me Madalena, e tu comes? Fazes comida para ti?
Responde que sim, que sabe já fazer muitas coisas, menos o arroz. Esse, não sabe o que acontece, fica sempre insonso e queimado no fundo do tacho. O Zé cozinha bem, mas trabalha quase todo o dia. Quando não sabe, vai ver a receita na internet ou pergunta como se faz às assistentes familiares que lá vão a casa, diariamente.
-Enfermeira, quando posso ir embora? O meu filho já deve estar a acordar, está quase na hora!
Dou conta à equipa, da urgência das decisões que entretanto chegam, para alívio de Madalena. Vai embora, não é nada de cuidado. Tem de comer, está muito magra.
- Eu sei senhor doutor, a enfermeira já me disse, se eu não me alimentar o leite fica fraco.
- E tu também, minha querida, e tu também. Acrescento.
Vejo-a ir embora, frágil.
Deixo cair as lágrimas contidas. Não sei se pela menina a aprender a ser mulher ou se pela mãe que ainda não deixou de ser menina.


7 de janeiro de 2010

O Segredo


Sei que entrelaças os medos
Com a ira contida e o olhar desviado
Lanças ao vento o amor segredado
A vida sumida por entre os dedos

Sei que te escoltam dores imperfeitas
Que as penduras à noite no pico da lua
Que espalhas sonhos desfeitos na rua
E dormes menino de mãos insuspeitas

Sei que me abrigas em lugar ocultado
E às vezes lá vais, voando no sono
Tua alma rainha, vem ao seu trono
Resgatar do meu peito o colo guardado

Envolvidos os dois nesse nó
No segredo do invisível laço
A noite passa a ser apenas, e tão só
O nosso eterno e saudoso abraço