13 de janeiro de 2010

Menina mãe



Já não importava saber como aconteceu, nem falar das consequências com verbosas sabedorias. A vida seguira já o seu rumo, e os dias cobriam-se agora com novas e luminosas cores para além do cinzento.



Madalena tem o corpo franzino. Chega com os olhos brilhantes, afundados no esgar de dor que lhe assombra o rosto indefinido entre a menina e a mulher. Está doente, da “ barriga”, diz.
Pede que a tratem. “ Por favor! “ suplica, é que a dor é grande, mas maior a consumição.
Em casa, com o companheiro, ficara o filhinho, nascido há menos de um mês. Deixara-o a dormir, o anjinho, mas daí a menos de três horas, iria reclamar-lhe o peito que já pingava pressentindo o momento.
Duas lágrimas rolam-lhe no rosto. Limpa-as de seguida, com rapidez. Não é hora de chorar, mas de saber o que tem, de resolver aquela dor que a não larga, para depois ir embora para os seus afazeres de mãe.
Deixa-se observar, faz os exames pedidos e espera. A espera inevitável de um serviço de urgência. A dor passou, só a apreensão continua.
Aproveito o momento para incentivar a conversa, o desabafo. O diálogo é fácil. Ao sorriso, segue-se o riso e os olhos cada vez mais a brilhar. A assistente que a acompanha, hoje e quase todos os dias, encoraja-a a falar comigo.
Diz que não está triste. Que lhe disseram que tinha depressão pós-parto, mas que não se sente triste, só às vezes tem vontade de chorar. Digo-lhe que chore sempre que tiver vontade, que é normal e que não tem que se preocupar por isso.
E fala, fala da sua nova vida e como se sente importante. Diz-me que às vezes tem saudades das amigas da escola e de não ter nada para fazer. Ressalva de imediato que agora é diferente , porque tem o seu menino, que são só os três, é certo, mas que nunca foi tão feliz e o Zé é muito seu amigo.
Penso nas dezasseis primaveras que viveu, ou nos dezasseis invernos...
Tocam-se os nossos olhares. Afago-lhe a mão pálida e prendo a custo a emoção teimosa. Para mim também não é hora.
Interrogo-me sobre a razão da ausência da mãe, da falta do seu apoio. Corre o processo no tribunal, fico entretanto a saber.
- Diz-me Madalena, e tu comes? Fazes comida para ti?
Responde que sim, que sabe já fazer muitas coisas, menos o arroz. Esse, não sabe o que acontece, fica sempre insonso e queimado no fundo do tacho. O Zé cozinha bem, mas trabalha quase todo o dia. Quando não sabe, vai ver a receita na internet ou pergunta como se faz às assistentes familiares que lá vão a casa, diariamente.
-Enfermeira, quando posso ir embora? O meu filho já deve estar a acordar, está quase na hora!
Dou conta à equipa, da urgência das decisões que entretanto chegam, para alívio de Madalena. Vai embora, não é nada de cuidado. Tem de comer, está muito magra.
- Eu sei senhor doutor, a enfermeira já me disse, se eu não me alimentar o leite fica fraco.
- E tu também, minha querida, e tu também. Acrescento.
Vejo-a ir embora, frágil.
Deixo cair as lágrimas contidas. Não sei se pela menina a aprender a ser mulher ou se pela mãe que ainda não deixou de ser menina.


7 de janeiro de 2010

O Segredo


Sei que entrelaças os medos
Com a ira contida e o olhar desviado
Lanças ao vento o amor segredado
A vida sumida por entre os dedos

Sei que te escoltam dores imperfeitas
Que as penduras à noite no pico da lua
Que espalhas sonhos desfeitos na rua
E dormes menino de mãos insuspeitas

Sei que me abrigas em lugar ocultado
E às vezes lá vais, voando no sono
Tua alma rainha, vem ao seu trono
Resgatar do meu peito o colo guardado

Envolvidos os dois nesse nó
No segredo do invisível laço
A noite passa a ser apenas, e tão só
O nosso eterno e saudoso abraço

3 de janeiro de 2010

Hoje canta o poeta...




FLORBELA ESPANCA




Desejos Vãos



Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza ...
As árvores também, como quem reza ,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia ,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...



.... na voz de MARIZA

Ilustração de Paulo Salvador

30 de dezembro de 2009

Brindemos a 2010



Os anos passam, sucedem-se... uns tão apaticamente iguais, outros tão dramaticamente diferentes.
Mas existem anos felizes. Ou anos com dias felizes. Ou dias com momentos de felicidade.
O que importa é que existam, que se sintam e façam sentir e não passem por nós vazios ou nós, por eles, sem sentido.
Todos os anos se festeja, de uma forma ou de outra, o segundo de transição da soma de todos os dias que se gastaram nas nossas vidas e a vinda de outros tantos.
Que se festeje pois, mas mais do que isso...
Que se festeje a chegada de mais trezentas e sessenta e cinco oportunidades de fazermos um pouco mais e melhor...
Por nós, para que brilhe mais a nossa lua, vivendo alto;
Pelos outros, para que sintam que os gestos que parecem banais, são afinal fundamentais;
Pela protecção e preservação do mundo, para que não deixe de ser o melhor lugar para viver.
Que se festeje a alegria de não ver perdida a esperança de mudar o que está ao alcance das nossas mãos, quando sabemos que não podemos mudar o mundo.
Que se brinde com lágrimas ou risos o maravilhoso privilégio que é viver . Viver a sonhar e a partilhar. Viver perdendo e ganhando. Viver a crescer e a dar. Viver a amar.
Que cada um de nós, seja a gota de água, o raio de sol, a luz maior que faz a diferença. Que ame cada dia do novo ano, espelhando um sorriso, e que nenhum segundo se desperdice.

BOM ANO !

Escrito na inspiração dos últimos dias do ano e em "Espelho de água" de Paulo Gonzo.

26 de dezembro de 2009

Às vezes...



Às vezes…
Rasga-se esta vontade inquieta, permanente e fria
De desfazer em poeira a dolência dos dias
De reduzir a noite à preposição mais clara
De sorver da alma um hálito novo

Às vezes…
Embriagam-se os passos dementes
E no fio que me escreve apreso a vontade
Esta infame e impensada agonia
De querer que o presente se transforme em saudade

Às vezes…
Tudo é menor que a lua que brilha
E nem lagos nem fontes saciam o nada
De ser e não ter a verdade incomum
De ficar adiada no tempo, perdida e achada…

Às vezes

19 de dezembro de 2009

Mensagem de Natal

Sendo a festa da vida, do amor, da família, da humildade e da dádiva ao outro, o Natal provoca sempre em nós emoções fortes e muito variadas . Não será por isso estranho, que sempre se contaram e escreveram histórias que fazem alusão ao espírito natalício. Histórias que oscilando entre a luz e a sombra, a alegria e o sofrimento, nos obrigam a reflectir no final de cada leitura, de forma a tornarmo-nos mais humanos.

Hans Christian Andersen, célebre escritor dinamarquês do século XIX, escreveu alguns desses contos que pela sua riqueza literária, desprovida de moralismos e pela linguagem simples que utilizam, são considerados ainda hoje, dos mais belos de sempre.

A menina dos fósforos é um conto triste. Nele, as luzes e as sombras do Natal marcam presença e particular significado, colocando em evidência algumas das questões existênciais do ser humano: Os limites, as exclusões e os abandonos... As esperanças, as forças e os sonhos.

Porque Natal é antes de mais e para além de tudo, um tempo de reflexão, de encontro e interiorização das nossas fraquezas e das nossas forças, num ritual de renovação, de partilha e de afectos, deixo-vos a história, para que não esqueçamos o verdadeiro sentido desta quadra..




Existe em cada um de nós uma menina dos fósforos.

Será que a conhecemos bem?


16 de dezembro de 2009

Ausências



Sinto que os passos te levam para longe
No sono absoluto dos dias
Arrancando da árvore o fruto gerado
Estarei onde me deixas
No exacto segundo onde me procuras
Além, onde saramos todas as feridas
E o amor tem formato de perdão


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11 de dezembro de 2009

Isto dá que pensar (3)


O que realmente importa, é que.....




... o melhor que pode dar a alguém, é de si que vem !



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6 de dezembro de 2009

Heranças...


No silêncio dos gestos...


Era como um ritual que finalizava a brincadeira que se havia prolongado no banho.
Eu enrolava a toalha à volta da minha irmã e esta, só com a carita de fora, aproveitava a vantagem de estar ao meu colo para se olhar ao espelho.
- Olha uma velhinha! - dizia eu, e ela ria feliz e eu ria com a felicidade dela.

Os anos passaram...

Hoje já não dou banho à minha irmã. Teresa cresceu, fez-se mulher e hoje é ela que dá banho à filha.
Há dias a Inês, minha sobrinha, veio passar uns dias comigo, e com ela voltei a repetir aquela brincadeira da toalha enrolada e da velhinha que se olha ao espelho. Inês riu , tal e qual a mãe na sua idade. Eu também.
Quando já vestida, ela se preparava para eu lhe secar o cabelo, olhou para mim e perguntou:
- Ó Tia, como é que tu sabes fazer as mesmas coisas que a minha mãe me faz?

...corre a seiva dos afectos !

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3 de dezembro de 2009

A minha Árvore de Natal


Penduro no abeto uma estrela que Te guie
Aqui, porque Te espero
Nos lugares onde só resta o infinito
O olhar já não se cobre em manto de ouro
E nada mais corre na fonte
Só um grito.
Cubro os ramos verdes de finos brilhos
Para que ilumines brumas e sombras
Nos rostos tristes de apatia
Onde a sede de ser já se perdeu
E a mesa está faminta ao abandono.
Minha árvore verde esperança, já renasce
De Dezembros solidários, enfeitada
Eis que chegas, meu Menino
Semeando em cada madrugada
Um coração imaculado igual ao Teu
No peito de quem às vezes, não sente nada.