
Sinto que os passos te levam para longe
No sono absoluto dos dias
Arrancando da árvore o fruto gerado
Estarei onde me deixas
No exacto segundo onde me procuras
Além, onde saramos todas as feridas
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Era como um ritual que finalizava a brincadeira que se havia prolongado no banho.
Eu enrolava a toalha à volta da minha irmã e esta, só com a carita de fora, aproveitava a vantagem de estar ao meu colo para se olhar ao espelho.
- Olha uma velhinha! - dizia eu, e ela ria feliz e eu ria com a felicidade dela.
Os anos passaram...Hoje já não dou banho à minha irmã. Teresa cresceu, fez-se mulher e hoje é ela que dá banho à filha.
Há dias a Inês, minha sobrinha, veio passar uns dias comigo, e com ela voltei a repetir aquela brincadeira da toalha enrolada e da velhinha que se olha ao espelho. Inês riu , tal e qual a mãe na sua idade. Eu também.
Quando já vestida, ela se preparava para eu lhe secar o cabelo, olhou para mim e perguntou:
- Ó Tia, como é que tu sabes fazer as mesmas coisas que a minha mãe me faz?


Margarida Carpinteiro in " Um animal desconhecido" 1993 com ilustração de Juan Soutullo.
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Antonio Gallobar lançou-me um desafio, que não sendo o primeiro que aceito, será o primeiro ao qual responderei. **
Oiço o inverno a chegar, quando à noite vencem os cansaços
O meu corpo abraçado nos meus braços
E o vento em desalinho, a sussurrar
Penso na chuva a cair, que se oferece à natureza
Mas penso também na pobreza
De quem não tem onde dormir
Ao som do mar revolto eu adormeço, acreditando a sonhar
Que esta tristeza que não esqueço
Seja a minha alma a rezar
A rezar por alguém igual a mim, que eu não conheço
Que fugindo ao frio, não tem onde se abrigar
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OS SIMPLES
Pela estrada, que entre cerejais ondeia,
Uma pequerrucha, Tró-la-ró-la-rá!
Vai cantando e guiando o carro para a aldeia.
Com um castanheiro apodrecido já.
Castanheiro morto! Que é da vida estranha
Que no ovário exíguo duma flor nasceu,
E criou raízes, e se fez tamanha
Que trezentos anos sobre uma montanha
Seus trezentos braços de colosso ergueu?!
Em casal de Serras arde o castanheiro
Lâmpada de pobres a fazer serão;
De redor no grande festival braseiro,
A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
A mulher, os filhos, o bichano e o cão.
Como não sentir um estranho afecto,
Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!
Fez com ele o jugo e fez com ele o arado;
Fez com ele as portas contra os vendavais;
E com ele é feito o velho leito amado,
Onde se deitara para o seu noivado,
E onde já morreram seus avós, seus pais!
Eis as brasas mortas... Ei-lo já converso
O castanheiro em cinza, o fumo vão, em luz...
Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
Reviver na vida eterna do Universo
Círculo de enigmas que ninguém traduz...
Guerra Junqueiro