16 de dezembro de 2009

Ausências



Sinto que os passos te levam para longe
No sono absoluto dos dias
Arrancando da árvore o fruto gerado
Estarei onde me deixas
No exacto segundo onde me procuras
Além, onde saramos todas as feridas
E o amor tem formato de perdão


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11 de dezembro de 2009

Isto dá que pensar (3)


O que realmente importa, é que.....




... o melhor que pode dar a alguém, é de si que vem !



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6 de dezembro de 2009

Heranças...


No silêncio dos gestos...


Era como um ritual que finalizava a brincadeira que se havia prolongado no banho.
Eu enrolava a toalha à volta da minha irmã e esta, só com a carita de fora, aproveitava a vantagem de estar ao meu colo para se olhar ao espelho.
- Olha uma velhinha! - dizia eu, e ela ria feliz e eu ria com a felicidade dela.

Os anos passaram...

Hoje já não dou banho à minha irmã. Teresa cresceu, fez-se mulher e hoje é ela que dá banho à filha.
Há dias a Inês, minha sobrinha, veio passar uns dias comigo, e com ela voltei a repetir aquela brincadeira da toalha enrolada e da velhinha que se olha ao espelho. Inês riu , tal e qual a mãe na sua idade. Eu também.
Quando já vestida, ela se preparava para eu lhe secar o cabelo, olhou para mim e perguntou:
- Ó Tia, como é que tu sabes fazer as mesmas coisas que a minha mãe me faz?

...corre a seiva dos afectos !

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3 de dezembro de 2009

A minha Árvore de Natal


Penduro no abeto uma estrela que Te guie
Aqui, porque Te espero
Nos lugares onde só resta o infinito
O olhar já não se cobre em manto de ouro
E nada mais corre na fonte
Só um grito.
Cubro os ramos verdes de finos brilhos
Para que ilumines brumas e sombras
Nos rostos tristes de apatia
Onde a sede de ser já se perdeu
E a mesa está faminta ao abandono.
Minha árvore verde esperança, já renasce
De Dezembros solidários, enfeitada
Eis que chegas, meu Menino
Semeando em cada madrugada
Um coração imaculado igual ao Teu
No peito de quem às vezes, não sente nada.


1 de dezembro de 2009

Ser família...


Às vezes passávamos as férias na aldeia onde o meu pai nasceu e, eu gostava de ver as galinhas com os pintos às costas. Pois às costas!
Os pintos saltam para cima das "costas" das galinhas mães e chak, chak, chak aí vão eles a passear.
Nunca vi os galos, que são os maridos das galinhas e pais dos pintainhos, deixarem os filhos viajar nas suas costas! Coitadas, só as galinhas é que têm de dar toda a atenção aos bébés! São bem atrasados, os galos! Eu lembro-me de o meu pai vir buscar-me cá abaixo ao chão, agarrar-me os punhos e ... chak! sentar-me nos seus ombros! Mas, o que eu estava a criticar era o feitio conservador dos galos. E não mudam... O meu pai mudou... Era quase igual à minha mãe, só que foram sempre diferentes. Ela era a minha mãe e ele era o meu pai. Trataram de mim os dois e eu gostei.




Margarida Carpinteiro in " Um animal desconhecido" 1993 com ilustração de Juan Soutullo.


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27 de novembro de 2009

Desafios (1)

Antonio Gallobar lançou-me um desafio, que não sendo o primeiro que aceito, será o primeiro ao qual responderei.
Um pouco de mim em cinco revelações, é o que me pede.
A tarefa não é díficil, uma vez que falar de mim é quase como jogar em casa. Contudo, escolher apenas uma, das várias respostas possíveis, já exigiu alguma ponderação suplementar.
São cinco então, as frases que vos deixo. Elas apenas revelam pequenos fragmentos da minha forma de estar, pensar e sentir .

Eu já tive…. mais confiança na justiça. Agora, sinto que alguma coisa terá de mudar, antes que o descrédito seja total e a anarquia se instale.

Eu nunca… serei capaz de recusar ajuda a alguém que realmente precise dela.

Eu sei …. que sou boa pessoa, mas todos os dias luto contra as minhas imperfeições. Procurar sempre melhorar o que sou, é para mim um desafio e um dever , enquanto ser humano.

Eu quero … um dia fazer parte das missões humanitárias que levam àqueles que sofrem, o pouco que faz a diferença.

Eu sonho…. com o desenvolvimento de um neurónio específico, no cérebro humano, que torne impossível qualquer acto de abuso, negligência ou maltrato a uma criança.
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Como não consigo escolher ninguém em particular para continuar o desafio, deixo-o assim, como que pendurado na maçaneta desta minha porta, a quem o quiser levar.
Será que alguém o pega?

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24 de novembro de 2009

Inquietação de inverno




Oiço o inverno a chegar, quando à noite vencem os cansaços
O meu corpo abraçado nos meus braços
E o vento em desalinho, a sussurrar

Penso na chuva a cair, que se oferece à natureza
Mas penso também na pobreza
De quem não tem onde dormir

Ao som do mar revolto eu adormeço, acreditando a sonhar
Que esta tristeza que não esqueço
Seja a minha alma a rezar

A rezar por alguém igual a mim, que eu não conheço
Que fugindo ao frio, não tem onde se abrigar



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17 de novembro de 2009

Hoje canta o poeta...



JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS






CAVALO À SOLTA





Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve
breve instante da loucura

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Minha laranja amarga e doce
Minha espada
Poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego
Por ti aceito
Este corcel que não sossego
À desfilada no meu peito

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura


... na voz de Fernando Tordo e ...na voz de Viviane


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13 de novembro de 2009

Identidade


Sou assim…
Sou casa em ruínas, abrigo de estrelas
Paisagem deserta, nascente de rio
Sou capa, sou xaile tremendo de frio
Sou espelho e vidraça das tuas janelas
Sim, eu sou assim…
Um Ser de silêncio, fiel companheiro
Que acalma e que beija a alma que dói
E em mudas palavras, se dá por inteiro
Semeando gritos que o vento destrói
Sou...
Sou amarra, sou asa
Sou contradição
Sou nuvem que passa
Sempre em solidão
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11 de novembro de 2009

Inspiração para um magusto


OS SIMPLES

Pela estrada, que entre cerejais ondeia,
Uma pequerrucha, Tró-la-ró-la-rá!
Vai cantando e guiando o carro para a aldeia.
Com um castanheiro apodrecido já.

Castanheiro morto! Que é da vida estranha
Que no ovário exíguo duma flor nasceu,
E criou raízes, e se fez tamanha
Que trezentos anos sobre uma montanha
Seus trezentos braços de colosso ergueu?!

Em casal de Serras arde o castanheiro
Lâmpada de pobres a fazer serão;
De redor no grande festival braseiro,
A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

Como não sentir um estranho afecto,
Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

Fez com ele o jugo e fez com ele o arado;
Fez com ele as portas contra os vendavais;
E com ele é feito o velho leito amado,
Onde se deitara para o seu noivado,
E onde já morreram seus avós, seus pais!

Eis as brasas mortas... Ei-lo já converso
O castanheiro em cinza, o fumo vão, em luz...
Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
Reviver na vida eterna do Universo
Círculo de enigmas que ninguém traduz...

Guerra Junqueiro

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