17 de novembro de 2009

Hoje canta o poeta...



JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS






CAVALO À SOLTA





Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve
breve instante da loucura

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Minha laranja amarga e doce
Minha espada
Poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego
Por ti aceito
Este corcel que não sossego
À desfilada no meu peito

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura


... na voz de Fernando Tordo e ...na voz de Viviane


**

13 de novembro de 2009

Identidade


Sou assim…
Sou casa em ruínas, abrigo de estrelas
Paisagem deserta, nascente de rio
Sou capa, sou xaile tremendo de frio
Sou espelho e vidraça das tuas janelas
Sim, eu sou assim…
Um Ser de silêncio, fiel companheiro
Que acalma e que beija a alma que dói
E em mudas palavras, se dá por inteiro
Semeando gritos que o vento destrói
Sou...
Sou amarra, sou asa
Sou contradição
Sou nuvem que passa
Sempre em solidão
**

11 de novembro de 2009

Inspiração para um magusto


OS SIMPLES

Pela estrada, que entre cerejais ondeia,
Uma pequerrucha, Tró-la-ró-la-rá!
Vai cantando e guiando o carro para a aldeia.
Com um castanheiro apodrecido já.

Castanheiro morto! Que é da vida estranha
Que no ovário exíguo duma flor nasceu,
E criou raízes, e se fez tamanha
Que trezentos anos sobre uma montanha
Seus trezentos braços de colosso ergueu?!

Em casal de Serras arde o castanheiro
Lâmpada de pobres a fazer serão;
De redor no grande festival braseiro,
A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

Como não sentir um estranho afecto,
Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

Fez com ele o jugo e fez com ele o arado;
Fez com ele as portas contra os vendavais;
E com ele é feito o velho leito amado,
Onde se deitara para o seu noivado,
E onde já morreram seus avós, seus pais!

Eis as brasas mortas... Ei-lo já converso
O castanheiro em cinza, o fumo vão, em luz...
Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
Reviver na vida eterna do Universo
Círculo de enigmas que ninguém traduz...

Guerra Junqueiro

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5 de novembro de 2009

Amor em arco-íris




Entre as cores do arco-íris te encontrei
envolto nesse manto de perfume
o meu corpo cego de queixume
e o teu, sedento de paixão
Desnudámos com ternura, beijos loucos
em sedas de carícias tão guardadas
sossego de almas desejadas
sol e chuva em união
Foi assim que o nosso céu se coloriu
quando pintámos de amor a alvorada
num tempo em que não esperando nada
Uma doce lua nos sorriu


1 de novembro de 2009

O último pão por Deus


Era com a Fá e com a Belita que todos os anos eu percorria as ruas do meu bairro e arredores, com o saquinho apertado na mão. Mais velhas e mais afoitas, elas iam sempre à frente enquanto eu, querendo fazer-me pequenina, escondia-me atrás delas.
Porta a porta, nenhum batente ou campainha escapava à vontade irresistível de saber, qual a surpresa que nos reservavam as mãos gentis que quase sempre franqueavam a entrada.
Gostava daquele ritual e deixava sempre que a alegria das minhas amigas de infância me contagiasse. Mas havia alguma coisa no pedido de pão por Deus, que me empurrava para terceiro lugar na fila. Não sabia explicar, mas era como uma falsa declaração de fome que na realidade eu nunca tinha sentido. Uma mentira autorizada em nome da tradição, a que todos achavam graça. Ou quase todos.

- Então Maria João, não abres a tua saquinha?

E sem saber se primeiro agradecia ou abria o saco, fazia as duas coisas ao mesmo tempo e lá dentro misturava a vergonha com as castanhas e as bolachas já desfeitas, mais os rebuçados que melavam as romãs, as maçãs, os escudos e os centavos .
Um a um, conhecidos e desconhecidos, amigos e parentes eram chamados à oferenda e raras eram as portas que não se abriam. Os sorrisos adoçavam os pequenos nadas que enchiam as nossas saquinhas e a pouco e pouco, faziam-me sentir menos culpada por pedir algo que eu achava não necessitar.
E assim foi, durante pelo menos três ou quatro anos, sempre no dia 1 do mês de Novembro.
A última vez, calhou-me a mim bater àquela porta. Tinha oito anos e não conseguia já esconder-me atrás de ninguém.

- O que querem vocês, miúdas?

- Vimos pedir pão por Deus - disse eu quase a medo.

- Vocês têm cá uma lata… então com um corpinho já tão jeitoso para trabalhar, vêm pedir pão, logo no dia em que o padeiro não trabalha!? Tenham mas é juízo!

Fomos embora, mas apenas elas continuaram. Eu voltei para casa. Lá , o pão nunca faltava, mesmo nos dias em que era feriado.
No caminho, fui a pensar que realmente não estava certo, pedir pão quando não se tinha fome, mesmo que fosse em nome de Deus. Mas também não estava certo, falarem assim, daquela maneira, com as criancinhas!

29 de outubro de 2009

Hoje canta o poeta...



PEDRO HOMEM DE MELO







CUIDEI QUE TINHA MORRIDO




Ao passar pelo ribeiro
Onde às vezes me debruço
Fitou-me alguém corpo inteiro
Dobrado como um soluço
Pupilas negras tão lassas
Raízes iguais às minhas
Meu amor quando me enlaças
Por ventura as adivinhas
Meu amor quando me enlaças

Que palidez nesse rosto
Sob o lençol de luar
Tal e qual quem ao sol posto
Estivera a agonizar
Deram-me então por conselho
Tirar de mim o sentido
Mas depois vendo-me ao espelho
Cuidei que tinha morrido

Cuidei que tinha morrido



.... na voz de Amália Rodrigues

23 de outubro de 2009

Lugar de sonho




Cansada desfaleço nas margens do meu rio
Enquanto águas turbulentas se acalmam
Vergando por fim os juncos quebrados
E no sonho me levas, pássaro ferido
Sem força na asa para uma lágrima minha
Ao longe a aurora espreita, serena
Ajeitando o ninho para onde me levas
O único lugar onde morrem todas as madrugadas



( Imagem : Woman with a Parrot , de Gustave Courbet )

21 de outubro de 2009

Contos, ditos e escritos



O texto que abaixo trascrevo é uma adaptação livre e de autoria desconhecida de um texto original de João Ubaldo Ribeiro, publicado no Brasil, no Jornal do Meio Ambiente em 14 de Novembro de 2005.
O malogrado professor Eduardo Prado Coelho, chegou a ter conhecimento que lhe havia sido atribuida, falsa e levianamente, a autoria deste texto. Negou-o em nota que enviou ao Jornal O Publico e que ali foi publicada a 25 de Outubro de 2006.
Hoje, três anos depois de o ter feito, o seu nome ainda constava no final do texto que recebi por mail.
Repor novamente a verdade, é apenas uma das razões pelas quais ainda faz sentido reproduzir aqui no meu espaço o referido mail, apesar de sobejamente conhecido por muitos.
Outras incluem, a pertinência e a actualidade do seu conteúdo...


Precisa-se de matéria prima para construir um País


A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país.Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, lips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos ....e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país:- Onde a falta de pontualidade é um hábito;- Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.- Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
- Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.- Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.- Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
- Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.- Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.- Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.
Como “matéria prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa “CHICO-ESPERTICE PORTUGUESA” congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria-prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.
E não poderá fazer nada...
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?
Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa'” não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados!É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez.Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.
AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.
E você, o que pensa?.... *MEDITE*!


15 de outubro de 2009

Isto dá que pensar (2)


Claro que já viu este filme!

Não?

Então veja !

Vale a pena acreditar que...



Esta ideia pode mudar o mundo!

Bem..., mesmo que não consiga mudar o mundo,

Pode mudar-nos a nós!

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11 de outubro de 2009

Demências e dormências


Além, onde se perdem todas as lembranças
Adormeceram exaustas as esperanças
Que penduradas te seguiam
Além, o tempo passou traiçoeiro
Envelhecendo o caminho, que primeiro
Descalço te esperava
Além, sombra da tua própria ausência
Grito de dor ou demência
Inquietação ou quietude
Além é o lugar, a viagem
Espelho partido, miragem
Sinal da tua finitude